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Tudo azul? A indigna volta dos Smurfs

06/08/2011

Havia uma boa vontade inegável para com “Os Smurfs”, a transposição para os cinemas das célebres criaturas azuis, criadas pelo cartunista belga Peyo em 1958 e popularizadas em uma saudosa série de animação. Os personagens são carismáticos, pueris, bem intencionados e pregam mensagens de preservação e companheirismo que, frente aos desenhos atuais, podem parecer defasadas, mas continuam representativos para uma geração de adultos que cresceram com eles e que agora desejam que os filhos estabeleçam a mesma conexão.

Bom para as famílias, melhor ainda para o estúdio, que tem a chance de ressuscitar o impacto da franquia e da marca milionária atrelada a ela. Não à toa, em uma das sequências do longa, os Smurfs acabam em uma loja de brinquedos e são perseguidos por crianças ávidas que os confundem por bonecos: oportunamente, as réplicas já estão chegando às prateleiras e foram distribuídas como brindes no cardápio do McDonald’s. A má notícia é que só mesmo as crianças bem pequenas vão desfrutar do resultado. Os pais, pelo contrário, correm o risco de arruinar as lembranças imaculadas diante de uma adaptação inepta e infantilóide.

O filme parte do cenário elementar da obra original. Os Smurfs são introduzidos como um clã estabelecido em uma colina, cada qual vivendo em seu cogumelo e denominado de acordo com uma característica específica de sua personalidade. Já o vilão Gargamel (Hank Azaria, sob uma maquiagem propositalmente artificial) é visto como um sujeito obstinado a capturar as criaturas, em planos executados na companhia do gato Cruel. A perseguição é justificada pela possibilidade do misticismo dos Smurfs ser “extraído” e convertido em fonte inesgotável de poder.

Em fuga, algumas das criaturas são transportadas de sua terra mágica para o Central Park, o coração de Manhattan. Uma vez em Nova York, Papai Smurf, Desastrado, Gênio, Ranzinza, Arrojado e Smurfette chegam por acaso ao apartamento de um casal (Neil Patrick Harris e Jayma Mays), que os acolhem após o choque inicial. O problema é que Gargamel e seu gato os seguiram até a metrópole e, distante de sua vila, o Papai Smurf pode não ser capaz de proteger os seus por muito tempo.

Trazê-los ao mundo real seria o passo mais lógico para uma adaptação cinematográfica: uma regra implícita dita que versões em live-action de personagens animados devem aumentar o escopo em tudo o que for cabível e, logo, a simplista morada dos Smurfs seria irrisória para as propostas da telona. Colocá-los em Nova York, porém, implica em incorporar os percalços dos pequeninos ao ambiente da cidade, o que deixa a frequente impressão de se estar assistindo a um cartão-postal em movimento, tão ou mais escancarado que as paisagens cariocas de “Rio”.

O incômodo seria atenuado se a história fosse desenvolvida com certa coerência. Mas o roteiro não sabe para que lado atira. Para colocar Gargamel na pista dos Smurfs, compromete o seu ritmo e a sua lógica interna. Por um instante, sugere uma aliança entre o vilão e a dona de uma empresa de cosméticos (a colombiana Sofia Vergara), que também calha de ser a chefe do personagem de Harris. Logo em seguida, contudo, essa parceria é ignorada e, sem justificativas plausíveis, o filme dá traços positivos ao papel de Vergara. De fato, o jogo de gato e rato é tão bagunçado que, quando atinge o clímax, o espectador jamais teme por nenhum dos Smurfs, tampouco por Gargamel.

A própria relação entre os personagens é ineficaz. Gargamel é retratado um panaca que se envolve em todas as gags físicas imagináveis – nada muito diferente do que era no desenho, mas ao menos a animação era adequada ao tom de chanchada. O problema maior está nas criaturas do título: os Smurfs do filme são fofos e ocasionalmente irresistíveis, mas inócuos em essência. Teses complexas já foram escritas sobre eles, discorrendo, por exemplo, sobre a sua comunidade de produção coletivista e a sua exarcebada valorização da pureza de sangue. Uma reflexão que em nada que encaixa à proposta do longa, mas que acentua o desmazelo e a superficialidade dessa empreitada.

Jamais fica claro o sistema de castas que rege a existência dos Smurfs. O passado de Smurfette, descrita como uma criação de Gargamel, também não é aprofundado, mesmo sendo a mais interessante das sugestões (no filme, ela é a única Smurf fêmea, ao contrário do original). A personagem, aliás, é dublada pela cantora Katy Perry, o que permite uma ou outra piada interna (“Eu beijei um Smurf e gostei”, ela diz em referência ao single “I Kissed a Girl, I Liked It”). O problema é que essas concessões do roteiro, que perde o amigo, mas não perde a piada, banalizam ainda mais o resultado.

Elogios devem ser feitos à composição das criaturas. Criados em CGI e não em animação tradicional, os Smurfs são tão convincentes quanto o ratinho de “Stuart Little” e certamente mais eficientes que os bichinhos de “Alvin e os Equilos”. Infelizmente, seguiram a moda de “Alvin” em quase todo o resto – inclusive em um gratuito número musical durante uma partida de Guitar Hero, que permite aos personagens cantar encarando a câmera, como se estivessem em um videoclipe. Detalhe: a sequência se passa no meio da projeção, e não no desfecho, como é mais aceitável nesses casos.

O final, por sua vez, utiliza uma colagem de fotos e uma cena extra para amarrar as pontas de que o roteiro não conseguiu se encarregar. O saldo é irônico: “Os Smurfs” angaria uma nova geração de fãs para os personagens, mas não sem sacrificar a consideração dos fãs antigos.

A Marca Potter

10/07/2011

Sob o nome “Harry Potter”, encontram-se registradas nas enciclopédias virtuais pelo menos 4 páginas distintas . A primeira, sobre a série de livros escritos pela escocesa J.K. Rowling e publicados pela editora Bloomsbury entre 1997 e 2007. A segunda, sobre o personagem título da obra, um aprendiz de feiticeiro que, nas palavras de Rowling, tornou-se uma das figuras mais emblemáticas da literatura de fantasia no virar do milênio. A terceira, sobre os filmes da Warner Bros de altíssima rentabilidade que a saga inspirou. E a quarta, sobre a marca que Harry Potter se tornou, patenteada de maneira a render bilhões de libras esterlinas a Rowling, à Bloomsbury, à Warner e a todos os demais que conquistaram direito a uma fatia do bolo.

As questões mercantis relacionadas à franquia, aliás, são os pontos mais convergentes de “Harry Potter” com a legião de fãs que o transformou em sucesso. Nem sempre se pode atribuir um sucesso estrondoso aos fãs que prestigiaram o objeto, mas, nesse caso, a afirmação é apropriada. A própria Rowling afirma que “Harry Potter” surgiu quase como um acidente feliz: a ideia para o personagem e a trama lhe veio à cabeça durante uma viagem de trem, no início da década de 1990. Expurgar os pensamentos para o papel no primeiro livro, “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, levou um punhado de anos, e mais uns meses ainda até achar uma editora interessada no trabalho.

O sucesso inicial no Reino Unido, que alavancou as vendagens de “Harry Potter” nos EUA e, posteriormente, no restante do planeta, deve-se, e muito, às crianças, que o descobriram durante as férias de inverno (o livro foi lançado oportunamente à época do Natal) e o debateram com os coleguinhas na volta às aulas. O boca a boca foi, segundo os estudiosos de marketing, a ferramenta responsável por esse fenômeno extraordinário. E o resto é História: a coleção de livros foi alçada ao topo da lista dos mais vendidos, o alcance do enredo se provou adequado para uma faixa ainda mais ampla de leitores, filas passaram a se formar nas portas das livrarias para obter uma cópia do último lançamento, e Hollywood arregalou os olhos diante de oportunidade tão rentável.

A Warner Bros., estúdio que acabou por vencer a disputa na indústria pelos direitos da franquia, tratou de nutrir o projeto desde cedo. Permitiu, por exemplo, o envolvimento de Rowling no processo criativo da adaptação – mesmo que o contrato não lhe obrigasse a fazê-lo -, e a escritora tratou de assegurar que seu “bebê” não fosse mutilado nem corrompido. Os filmes de “Harry Potter” chegaram aos cinemas como réplicas audiovisuais do livro. Satisfizeram os fãs que a série já conquistara, fidelizaram outros que ainda não a conheciam e originaram, além dos milhões nas bilheterias e nas vendas de DVD, uma infinidade de produtos lucrativos. Os admiradores “roxos” da franquia não tinham mais apenas os livros em casa – tinham álbuns de figurinha, bonecos de ação, varinhas de condão e até uniformes como os da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde a trama se situa.

Discutia-se, aí, até que ponto “Harry Potter” poderia ir como marca antes de diluir por completo a essência dos personagens – em certa entrevista, Rowling afirmou que abominava a possibilidade de ver Harry estampado em uma embalagem de congelados, mas pode apostar que essa ideia certamente foi cogitada por alguém, em algum momento. Paralelamente, os leitores e espectadores iam se amontoando em comunidades virtuais destinadas à discussão da franquia. Impossibilitados de ir à Hogwarts na vida real, criavam realidades alternativas no meio cinético, onde eram selecionados para as Casas e assistiam às aulas de feitiços como acontece nos livros e nos filmes.

À sua maneira, “Harry Potter” apresentou milhões de crianças, lá por seus 11 a 14 anos, à internet, e muitas delas criaram também conexões pessoais, com encontros rotineiros e agradáveis – isso sem mencionar as convenções que se dão esporadicamente em várias cidades do mundo, entre as quais as brasileiras. Os domínios destinados a prospectar conteúdo sobre a saga cresciam a números espantosos, e alguns chegavam a render lucro aos seus idealizadores. Foi quando começaram as dores de cabeça constantes da Warner. Os direitos, afinal, cabiam ao estúdio, e muito do que era debatido sem restrição nos fóruns online iam de encontro com a proteção que todos os criadores detém sobre a sua criação. Mas como tomar medidas legais? Seria o mesmo que enfrentar na corte uma garotada que mal saiu da puberdade e que, na melhor das intenções, só estava tentando compartilhar a sua devoção.

Houve uma tentativa um tanto acalorada da Warner em exigir o fechamento de sites criados por fãs. Eles, é claro, se revoltaram. Teve início um boicote da marca “Harry Potter”, conhecida no internetês como PotterWar. Os mesmos que, até o dia anterior, consumiam todo e qualquer novo produto da saga viraram as costas contra a sua, digamos, mercantilização. Nada que arranhasse a superfície da potência que “Harry Potter” havia se tornado, mas o suficiente para deixar o estúdio em maus lençois. “Não somos uma grande corporação desalmada”, pronunciou-se brevemente um executivo. A Warner, contudo, foi acuada a suspender as ameaças e a criançada, que temia que advogados do estúdio fossem bater em suas portas clamando por um dinheiro que suas famílias não tinham, respirou mais aliviada e prosseguiu com o culto.

Sem querer, porém, os autonomeados “pottermaníacos” contestaram o sistema vigente e conquistaram algo sem precedentes: este foi o primeiro movimento bem sucedido de fãs contra os detentores dos direitos autorais, e é sob esse advento que se faz cinema até hoje, com os espectadores na posição de força de trabalho. O poder está com o povo e os fãs estão felizes, mesmo que de volta à posição de consumidores. Não tão feliz está Harry Potter: a alma do herói, de certa forma, foi tão fragmentada quanto a do vilão Lord Voldemort. O pior pesadelo de Rowling não se realizou e Harry escapou de se tornar garoto-propaganda de lasanha de microondas. Mas a sua transformação em produto está, em todos os outros níveis, completa. “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2”, que estreia nos cinemas mundiais no próximo dia 15, que o diga: por alguns (milhões de) trocados a mais, o estúdio forçou o lançamento do filme em cópias 3D, mesmo que isso em nada contribua em termos artísticos e que pouco – ou nada – da tecnologia seja realmente explorada. Talvez, no final das contas, a Warner tenha ficado com a última gargalhada.

O melhor Harry Potter de todos

08/07/2011

Está chegando o momento pelo qual milhões de fãs ao redor do mundo contam as horas: ao badalar da meia-noite de quinta, dia 14 de julho, para sexta, dia 15, os cinemas passarão a exibir “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2”, o filme que colocará um ponto final na franquia cinematográfica mais bem sucedida de todos os tempos.

A ansiedade, porém, vem acompanhada de uma apreensão agridoce. Os devotos almejam conferir o longa, mas sabem que, ao assistí-lo, estarão se submetendo pela segunda vez a um doloroso processo de despedida, tanto de Harry como de seus companheiros. O primeiro adeus, é claro, foi com a leitura do livro homônimo, o sétimo escrito pela escocesa J.K. Rowling sobre o mundo mágico. Nesta ocasião, havia o consolo de que um punhado de filmes inéditos ainda estavam sendo gestados. Dessa vez, ficará um vazio difícil de ser preenchido – aquele deixado por uma fase representativa da vida dos discípulos de Potter, que por anos se dedicaram à via sacra.

Como o livro de Rowling, o filme que serve de desfecho para a história foi esculpido com desvelo e carinho em consideração àqueles que, como colocou a autora em sua dedicatória da obra, “acompanharam Harry até o fim” – os que folhearam os livros e desbravaram os filmes desde quando Harry ainda era um garoto magricela de 11 anos, de joelhos ossudos, cabelos rebeldes e óculos redondos remendados com fita adesiva na ponta do nariz. São os mesmos que, agora, chegam ao lado de um Harry sete anos mais maduro ao calvário, onde o herói há de cumprir o seu destino e enfrentar o terrível bruxo das trevas Lord Voldemort.

Também como no papel, a evolução do personagem até esse instante foi gradual, quase como se ele crescesse e desabrochasse no compasso de seus leitores. O fato é perceptível quando se avança pela coleção completa atento às mudanças no tom e na estrutura desde o primeiro livro, lançado em 1997, até o último, publicado dez anos depois. Se, a princípio, a série era assumidamente infantil, no decorrer dos volumes os problemas enfrentados pelo protagonista se tornaram mais espinhosos e a narrativa, cada vez mais séria e soturna.

O mesmo pode ser dito sobre as versões cinematográficas. Os primeiros filmes, dirigidos sem qualquer sopro de inspiração pelo americano Chris Columbus, eram solares, coloridos e pueris. Já o terceiro, repaginado pelo mexicano Alfonso Cuarón, deu novo escopo à saga ao adicionar pitadas de pesadelo à paisagem onírica. O quarto, comandado por Mike Newell, trazia a primeira morte relevante da trama e atestava, por fim, que os personagens, assim como os atores que os interpretam, não eram mais crianças inocentes. A partir do quinto, a direção ficou por conta do inglês David Yates, que não se afastou do cargo desde então e responde pelos principais ápices da franquia. É dele o notável “O Enigma do Príncipe”, o sexto longa a ser lançado, e é dele também “As Relíquias da Morte – Parte 2”, de longe o melhor filme dentre todos os Potter.

Muito se debateu sobre a opção de filmar o último livro em duas partes. A Warner Bros., encarregada da transposição, alegava que o conteúdo era extenso demais para ser comprimido e que a divisão era a solução ideal para fazer jus ao potencial artístico da história. A prosa de Rowling, afinal, amarrava as pendências espalhadas por todos os trabalhos anteriores, resgatando inúmeros personagens e situações para servir aos seus devidos propósitos. Aos mais cínicos, contudo, a decisão foi estritamente comercial: um mero pretexto para o estúdio não ter de abrir mão de sua galinha de ovos de ouro. O resultado discutível de “As Relíquias da Morte – Parte 1”, um filme estéril, devagar e sem vida, parecia endossar os céticos.

Felizmente, a segunda parte não compartilha dos deméritos de seu prelúdio. A porção da trama em que Harry perambula junto dos amigos Ron e Hermione em busca das Horcruxes – objetos de magia negra quase impenetrável nos quais Voldemort armazenou fragmentos da alma para garantir a sua imortalidade – foi quase toda coberta no filme passado. Ainda bem: foram-se as cenas em que o trio ia, ia, ia, e não chegava a lugar algum. Desse ponto em diante, as circunstâncias colaboram para que as Horcruxes restantes sejam rastreadas em ritmo implacável, estruturando a trama em um clímax ininterrupto. O roteiro de Steve Kloves – responsável por todas as adaptações da saga, com a exceção de “A Ordem da Fênix” – é eficiente em aparar as arestas do material original e chegar ao aspecto elementar do enredo: a luta do Bem contra o Mal. Não só de Harry contra Voldemort, mas também de uma gama de coadjuvantes pitorescos que o público se acostumou a amar ou desprezar.

A guerra entre as duas potências mágicas chegou ao seu ponto nevrálgico. De um lado, os Comensais da Morte, seguidores de Voldemort, pregam a supremacia bruxa por meio da disseminação do terror. Do outro, a Ordem da Fênix, fundada pelo falecido Professor Dumbledore, defende o tratamento igualitário a todos os povos. Voldemort e Harry são os mártires desses pólos e os peões mais importantes da batalha: de acordo com uma profecia, um acabaria por aniquilar o outro no final, motivo pelo qual Voldemort, para se precaver, assassinou a família Potter na tentativa de cortar essa ameaça pela raiz, quando Harry ainda era bebê.

A maldição com que ele mataria o garoto, porém, ricocheteou, reduzindo o vilão a um espectro quase sem vida. Só em “O Cálice de Fogo” Voldemort conseguiu recobrar o corpo e, de volta à velha forma, retomou com mãos de ferro o comando do mundo bruxo. Sob sua égide, a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, agora presidida pelo comensal Severo Snape, tornou-se uma instituição de regime espartano e um sistema de castas quase fascista – um castelo que em nada se assemelha ao lugar de prazeres feéricos que Harry descobriu no primeiro filme. A escola, aliás, servirá de palco para o banho de sangue que põe fim à história, e nem os personagens mais queridos estão livres de se tornarem dano colateral.

Mesmo entre a correria, os duelos intermináveis e as torres demolidas, porém, ainda sobra tempo para o desenvolvimento dos personagens – de Harry em especial, mas também de Snape, o taciturno mestre de poções que assassinou Dumbledore, o protetor de Potter, e desde então esteve compactuado com a vilania. Por conveniência ou falta de espaço, as participações de Snape nos filmes anteriores – mesmo naqueles em que assume um papel crucial – haviam sido imperceptíveis. Dessa vez, ele recebe quase a importância de um narrador: as suas lembranças, vistas em flashbacks, preenchem todas as lacunas do personagem e, numa sequência que vai marejar os olhos de qualquer marmanjo, resgatam e conectam as pontas soltas do enredo.

Aliás, a trama deste filme em particular é uma lição de economia e de como potencializar uma aventura que o próprio livro não explorou. Os excessos são limados. O longo passado de Dumbledore, que tem um peso importantíssimo no texto de Rowling, não é detalhado, apenas sugerido – e não faz falta. Da mesma forma, as relíquias do título são brevemente mencionadas, e apenas uma delas – a lendária Varinha de Sabugueiro, tida como a mais poderosa já fabricada – desempenhará sua função. Por outro lado, passagens saborosas como a entrada de Ron e Hermione na Câmara Secreta são encenadas plenamente, e não simplesmente mencionadas como no livro.

“As Relíquias da Morte – Parte 2” sustenta-se, enfim, como um filme autosuficiente e incansável, o que é mais do que pode ser dito sobre seu predecessor. As pausas para respiração são aproveitadas para estofar o longa com emoção e sabedoria. Da breve aparição do Professor Dumbledore, o roteiro extrai um mundo de comentários perspicazes sem parecer que está mastigando lições de moral. As questões mais amplas que “Harry Potter” se propõe a discutir são tratadas com sutileza ímpar e suas ponderações sobre vida e morte são levadas, via metáfora ou analogia, a campos profundos. Aqui, a linguagem de Rowling encontra a melhor tradução que já teve no cinema.

É desnecessário louvar o quesito técnico, mas é pertinente apontar que os efeitos visuais são os mais bem trabalhados de toda a franquia – este é, afinal, o capítulo que mais se apoia neles -, e que fotografia e direção de arte se complementam na recriação de uma Hogwarts sombria e obscura. O filme, aliás, também estará disponível em tecnologia 3D e, felizmente, os óculos não dificultam que a ação seja divisada e apreciada. Yates faz por merecer a cadeira nomeada com enquadramentos interessantes, ainda que o 3D, convertido na pós-produção, nem sempre acerte o foco em todos os planos.

As decisões criativas do diretor, porém, ultrapassam – e muito – as mercantis. Seu senso de narrativa nunca esteve tão aguçado, nem a sua habilidade para conduzir o elenco, que surge em sua melhor forma. Dá-se um “quem-é-quem” do cinema e do teatro britânico em veteranos reprisando papeis – alguns coadjuvantes, outros em meras pontas. Destaque absoluto para Alan Rickman, que aflora o estrato mais íntimo, torturado e tortuoso da alma de Snape, um sujeito que não se alimenta do mal, mas que foi alimentado por ele. Aplausos também para Ralph Fiennes, que demonstra certa expressividade sob a maquiagem pesada de Voldemort, e para Helena Bonham-Carter, que encontrou o tom ideal para a eloquência de Bellatrix Lestrange.

O jovem elenco fez as carreiras na franquia e possivelmente terá dificuldade em se firmar fora dela – alguns por falta de talento aparente, outros por terem agregado demais os papeis às suas personas. As atuações irregulares, contudo, também estão melhor lapidadas aqui. Se há uma coisa que pode ser dita é que, em 10 anos, Daniel Radcliffe veio a conhecer Harry muito bem – tanto que está trabalhando pesado na Broadway para tentar se desvencilhar dele. Emma Watson, que costumava reduzir suas reações a um tique nas sobrancelhas, também está consideravelmente mais disciplinada, qualidade que serve bem à Hermione. Rupert Grint, o Ron Weasley, está novamente confortável na posição de alívio cômico, a ponto de sugerir futuro no gênero. E Matthew Lewis, o tímido e introspectivo Neville Longbottom, equipara-se ao trio principal com seu heroísmo recém-despertado.

Resumo da ópera: “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2” resulta em uma combinação vencedora para todos. Para os fãs, que vibrarão como nunca antes no cinema. Para os leigos, que serão capazes de acompanhar os trâmites da história sem que qualquer ponto pareça opaco ou sem complemento. Para a equipe, que se despede com perfeição de uma série nem sempre perfeita. Para o estúdio, que certamente arrecadará nas bilheterias o equivalente a todo o ouro do banco dos bruxos Gringotes. Para o legado de J.K. Rowling, que adentrou no cinema como uma promessa e que agora o deixa com a sensação de dever cumprido. E para toda uma geração que vivencia, agora, o fim de uma era.

True Blood, o season premiere

27/06/2011

Para quem está acostumado a acompanhar os seriados por download, juntamente com a exibição original na televisão americana, a 4ª temporada da série vampiresca “True Blood” já começou. O episódio de estreia foi exibido neste domingo (26/6) na HBO dos EUA, após uma campanha de primeira linha para promover o retorno do programa.

No caso de uma série da grife de “True Blood”, um episódio inédito após meses de abstinência equivale para os fãs a um verdadeiro evento da cultura pop. Com base nos números da temporada anterior, só as exibições na emissora ficam na casa dos 4 milhões de espectadores semanais, número que se potencializa com as gravações e, é claro, os downloads paralelos. Um sucesso absoluto para os moldes de um canal pago, enfim.

As credenciais da equipe falam por si só. Alan Ball, o criador do programa, tem um Oscar na estante pelo roteiro de “Beleza Americana” e muita moral na HBO desde que concebeu “A Sete Palmos”, um dos dramas mais premiados e assistidos da rede na primeira metade dos anos 2000. Anna Paquin, que interpreta o papel principal – a garçonete que lê mentes Sookie Stackhouse – também tem um Oscar em casa, mas, por hábito, o guarda em lugares pouco lisonjeiros, como o guarda roupas e a gaveta: ela foi premiada como Melhor Atriz Coadjuvante por “O Piano” (1993) aos 11 anos de idade, e passou os 15 seguintes sem corresponder a essa promessa (salvo as participações na franquia “X-Men”, que lhe rendiam certa evidência).

Paquin é hoje uma das principais beneficiadas pelo sucesso de “True Blood”, mas não a única. O elenco da série goza de uma badalação anormal para um programa de TV, em especial durante a época do ano em que “True Blood” transmite episódios fresquinhos (a temporada, feita aos moldes do canal, tem uma média de 12 episódios – ou seja, não se vão mais que 3 meses para completar a exibição de uma temporada completa). Todos estão em dívida com Ball – que, por sua vez, também deve muito à autora Charlaine Harris, que escreveu os livros “Southern Mysteries”, a fonte de inspiração para a atração.

Ball comenta que folheou um dos livros na sala de espera de um consultório médico, e percebeu de imediato o potencial televisivo daquela história. Harris desenhava um mundo onde os vampiros deixavam de esconder sua existência (“saíam dos caixões”, na gíria popular) diante da invenção de um sangue sintético. Para assegurar a sobrevivência, eles não precisam mais atacar humanos – basta que entrem em qualquer supermercado ou loja de conveniência e comprem garrafas de sangue por engragado para saciar a sede. A sede, mas não a luxúria.

Os vampiros de “True Blood”, confinados na cidadezinha rural de Bon Temps, são criaturas sexualizadas e profundamente inseridas em uma aspiral de violência. Já o protagonista Bill Compton (Stephen Moyer, marido de Anna Paquin na vida real) é um sujeito bem intencionado, transformado em vampiro enquanto retornava da Guerra Civil americana. A atração entre Bill e Sookie é mútua: o sangue dela, por algum motivo que só se tornou claro nas temporadas posteriores, é mais irresistível que o de qualquer outro ser humano; a presença de Bill, por outro lado, é reconfortante à Sookie, que não consegue ouvir os pensamentos dos vampiros e, portanto, não tem de policiar a própria telepatia.

O relacionamento dos dois propulsiona uma onda de preconceito em Bon Temps – a metáfora ideal para que a série trate, entre os vários tópicos que comumente aborda, de fanatismo religioso, exorcismo, racismo, homofobia, promiscuidade e vício (o sangue dos vampiros, inclusive, acaba se revelando uma droga alucinógena potente quando ingerido por humanos). Para que as analogias funcionassem, o enredo era construído dentro de limites aceitáveis como críveis e amparado por personagens coerentes e carismáticos.

Até, é claro, que a série fosse se enveredando por terrenos ainda mais fantasiosos e, a certa altura da 3ª temporada, penetrando na mitologia a ponto de perder o foco que as duas temporadas anteriores tinham conseguido enquadrar. O elenco entrou em constante expansão, os personagens originais foram perdendo o espaço e a essência, e o universo que havia se firmado com certa inteligência perdeu os parâmetros para doses cada vez mais exageradas de gore – sangue e violência em níveis que extrapolavam os limites do bom gosto. A 4ª temporada tem, portanto, muito a que reparar. E pode ser que consiga, tendo em vista o episódio de estreia e o segundo, também disponibilizado na internet.

Um final de temporada deve deixar ganchos – situações pendentes que fisgam o espectador até o ano seguinte – eficientes, o que “True Blood”, que se encerrou com o sumiço de Sookie para o mundo das fadas, não conseguiu fazer. Felizmente, essa trama digna de filmes da Xuxa se resolve logo nos minutos iniciais – mas não sem antes constranger o público com sua lógica distorcida e bagunçada, e efeitos especiais que remetem mais à “Chapolin” do que a uma produção dessa estirpe. Quando Sookie finalmente retorna ao mundo real, porém, as coisas parecem entrar nos eixos. O passeio na realidade mística, que se sucedeu em poucos minutos, representou mais de um ano transcorrido em Bon Temps, e Sookie volta a uma realidade um bocado diferente daquela que deixou. Para os que ficaram, o “desaparecimento” de Sookie foi preocupante: Jason (Ryan Kwanten), agora um policial registrado, dera a irmã como morta e colocara a casa da família a venda. O imóvel foi adquirido pelo vampiro Eric Northman (Alexander Skarsgaard), que continua determinado a possuir (no sentido de “ter”) a moça; Bill, o vampiro amado que Sookie dispensara na temporada anterior, deixou de ser um Zé Ninguém e agora assume papel mais ativo na cadeia de comando de sua raça.

Também há mudanças nos outros núcleos. Sam (Sam Trammell), o dono do bar onde Sookie trabalhava, passou a se reunir com seus iguais, e já faz uso livre e indiscriminado de sua habilidade de se metamorfosear em outros animais. Tara (Rutina Wesley), a melhor amiga de Sookie, deixou os sofrimentos de Bon Temps para trás e agora vive em Nova Orlens, como lutadora de vale-tudo, e mantém um relacionamento lésbico com uma de suas adversárias de ringue. Lafayette (Nelsan Ellis) foi levado pelo namorado a um culto de bruxaria, e deve ser um dos peões mais importantes dessa temporada – o tal culto, liderado por uma bruxa um tanto baratinada (interpretada pela brilhante atriz inglesa Fiona Shaw, a tia Petúnia da franquia “Harry Potter”), passa a explorar magia negra e, com certo controle sobre os mortos, representará a maior ameaça à classe dos vampiros nos episódios seguintes.

Saltar um ano no tempo foi, afinal, a decisão mais coesa que “True Blood” poderia ter tomado – em especial, porque as 3 temporadas anteriores ocorreram em ritmo imediato, como se apenas dias ou semanas tivessem se transcorrido desde o início da série até o ponto em que os personagens se encontram. Agora, mesmo as histórias antigas parecem revigoradas e inteiramente novas. E se Ball ainda insiste em alguns dos apêndices mais aborrecidos da temporada passada – como a comunidade de traficantes de mentalidade subdesenvolvida que Jason topou ajudar ou o bebê de ascendências sinistras da garçonete Arlene (Carrie Preston) -, ao menos parece mais centrado nos personagens que realmente importam para a ação. Com episódios assim, é fácil deduzir porque “True Blood” se tornou um vício – e o público, só depois de privado dele, pode perceber o quanto a abstinência lhe custou.

Woody Allen em Paris, à meia-noite

25/06/2011

O encantamento de Woody Allen por Paris fica evidente antes que “Meia Noite em Paris”, o novo filme do cineasta, se inicie propriamente. Precedendo os créditos já tradicionais dos trabalhos do diretor – sóbrios, em fundo preto, fonte branca serifada e elenco listado em ordem alfabética -, há uma colagem de imagens da capital francesa, sob um chuvisco que, ao invés de lhe esvair o charme, apenas potencializa a sua unicidade. Ao fundo, a canção “Si tu vois ma mère”, de Sidney Bechet, com a qualidade de vinil antigo, traduz em acordes o que palavras não conseguiriam exprimir.

O deslumbramento traz consigo o risco de anuviar a percepção dos criadores em relação à sua criação. Nesse caso, ocorre o contrário: a admiração pelo cenário é não apenas a força motriz de “Meia Noite em Paris”, mas também um dos pontos cruciais do eixo narrativo. O que Allen discutirá, aqui, é a impressão – equivocada – de que a felicidade está em algum lugar, tempo ou circunstância distante daquele em que vivemos.

Para o americano Gil (Owen Wilson, funcionando como o alter ego de Allen nas falas pontuadas e nos trejeitos neuróticos), o paraíso está em Paris. Mas não na Paris contemporânea que visita com a noiva (Rachel McAdams). Admira, sim, a Paris de 1920, pela qual desfilavam seus ídolos em um período de extrema fertilização artística – um ambiente ao qual o personagem, um roteirista de Hollywood que cansou de se sentir como uma engrenagem do “sistema” e almeja se tornar romancista, daria um rim para fazer parte.

O seu sonho, afinal, não é tão inconcebível assim. Perambulando sozinho por Paris enquanto a noiva, que não partilha do seu idealismo, está dançando com um casal de amigos pedantes, Gil irá embarcar em um “moderníssimo” calhambeque para uma viagem no tempo. O carro, que passa para apanhá-lo pontualmente à meia-noite, conduz o protagonista para a Paris fervilhante da década de 20.

Em festas e eventos, ele é apresentado com intimidade a Scott (Fitzgerald) e sua esposa Zelda; troca palavras com Ernest (Hemingway); presencia uma canja de Cole (Porter) no piano; dá sugestões para trabalhos que Luis (Buñuel) ainda não concebeu; cruza com Pablo (Picasso) na casa de Gertrude (Stein), e submete seu livro incompleto para a avaliação da poetisa. Pelos próximos dias, Gil continua maleando o tempo, sempre a partir da meia-noite, e materializando-se no passado. Até que conhece Adriana, interpretada pela vivíssima Marion Cotillard, e, ludibriado por tamanha beleza e candura, fica tentado a não mais retornar para o presente.

A ligação da moça com a boemia é no máximo tangencial: sempre alternando-se na condição de amante, de um artista a um escritor, de um pintor a um cineasta. Sua insatisfação, porém, nem mesmo Gil, uma rajada de ar fresco entre os homens de sua época, poderia saciar. Os anos 20 não bastavam para Adriana. Para ela, o ápice criativo de Paris havia sido no século anterior, durante a Belle Époque. A certa altura, a trama dá mais uma guinada e conduz Gil e Adriana em mais um retrocesso – mas os ícones da revolução cultural de 1870 são, também, versões mal resolvidas de si mesmos, saudosistas pela Renascença que não chegaram a testemunhar.

Com uma cajadada, Allen se encarrega de dois elementos constantes em sua filmografia: o terreno fantasioso, aqui coberto com a mesma precisão do indiscutível “A Rosa Púrpura do Cairo”, e a, digamos, ignorância humana diante de sua própria condição. Para o diretor, muitos dos grandes problemas da vida poderiam ser poupados se as pessoas não se apegassem demais às suas expectativas ou visões pré-concebidas. Em “Meia Noite em Paris”, a tese é defendida com relativos encanto e paixão – e o enredo, como era de se esperar, ganha fôlego após o início frio, para atingir o ponto quando a fantasia se estabelece. É fácil supor que, dentre os filmes recentes do cineasta, que mantém a média invejável de um lançamento por ano, este será um dos mais ressonantes em um plano geral.

.:. Meia Noite em Paris (Midnight in Paris, França / Estados Unidos, 2011, Fantasia). Cotação: B+

Quebrando o Tabu: A polêmica que não veio

06/06/2011

Quando um documentário se propõe a debulhar um tema, deve analisá-lo por todas as vertentes possíveis, para que as nuances de uma opinião específica não tornem o relato parcial e para que os espectadores não sejam direcionados em sua interpretação. O público, pelo contrário, deve ser munido de informação para que possa extrair o seu próprio raciocínio. Uma reflexão tendenciosa só é cabível quando o cineasta pretende utilizar o seu poder de persuasão para provocar, cutucar e incomodar – Michael Moore, o polêmico diretor de “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 11/9”, é o principal exemplo disso.

“Quebrando o Tabu”, documentário no qual o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso considera as opções políticas sobre as drogas e seus usuários, deixa claro desde o princípio a sua opinião sobre o assunto – mas, com todas as diplomacias que cabem à FHC, não tem a chance de ser transgressor e contundente em relação àquilo que se opõe. Em linhas gerais, o filme é favorável a repensar as implicações legais do uso da droga, em especial a maconha, que serve como refrão para a discussão. Tomando como base os dados de outros países e depoimentos de autoridades e estudiosos, o filme defende, ora velada ora assumidamente, a descriminalização do uso da maconha, se não a sua legalização.

As opiniões contrárias, porém, não são ouvidas. Não há espaço para a acusação, apenas uma sucessão de argumentos da defesa – alguns deles, facilmente atacáveis. Os exemplos citados em que a maior tolerância à maconha teve resultado positivo são, basicamente, restritos aos países europeus, de território estreito e população unificada. A realidade brasileira é outra, e o documentário mostra-se ciente disso quando o ex-Presidente, que faz a vez de anfitrião, menciona que pretende, antes de mais nada, propor a discussão, para estudar como as políticas externas sobre as drogas poderiam se encaixar no nosso país.

“Quebrando o Tabu”, porém, não dá um pontapé inicial nessa discussão. Aliás, sequer começa a se enveredar por ela. O diretor Fernando Grostein Andrade (“Coração Vagabundo”) percorreu junto do ex-Presidente 18 cidades de 8 países diferentes. Distanciou-se tanto de casa que se esqueceu de olhar dentro dela. Não pesa nessa equação a infraestrutura da população atual e o suporte que o governo brasileiro é capaz de oferecer aos cidadãos. Prega que o viciado, depois de irreversivelmente corrompido pela droga, deve ser tratado como um doente, e não como um criminoso, mas não faz qualquer análise da saúde pública brasileira para cogitar a viabilidade desse plano. E a percepção de muitos dos depoentes sobre o tema, como as impressões do médico Dráuzio Varella e do escritor Paulo Coelho, soa mais como palpites em um assunto de foro íntimo do que de foro de lei.

Como cinema, “Quebrando o Tabu” também é discutível. A sequência inicial, na qual FHC é confrontado por repórteres sobre o tema, peca pela obviedade – e a falta de reação do presidente diante das câmeras, provocada pela edição marota, sugere erroneamente que um encontro desconfortável com a imprensa motivou o envolvimento do ex-Presidente na pesquisa, Com 1h10 de duração, o filme poderia ser facilmente encaixado na programação de um canal à cabo e exibido como um documentário feito para TV – destino que possivelmente teria, caso FHC não tivesse vestido a camisa do projeto. As vinhetas que cortam os testemunhos e ligam um pólo da discussão a outro estimulam os moldes da televisão, conferindo ao projeto um tom de amadorismo que não cabe a um longa-metragem. É inspirado, contudo, o uso da animação para ilustrar um ou outro caso.

Entretanto, o fato mais irônico de “Quebrando o Tabu” é que o documentário, com sua proposta de extrapolar o assunto, apenas deu cabeçadas nos mesmos pontos comuns. É o que ocorre quando se fala sobre drogas e sobre qualquer outro tema polêmico: quanto mais se tenta quebrar o tabu, mais ele se realimenta.

.:. Quebrando o Tabu (Brasil, 2011, Documentário). Cotação: D+

Um Novo Despertar: A reconstrução de Mel Gibson

29/05/2011

Nos últimos anos, Mel Gibson só saiu da fortaleza de sua mansão em Beverly Hills para protagonizar escândalos nada lisonjeiros. Entre dirigir embriagado, proferir xingamentos antisemitas e agredir a ex-namorada, não havia no público americano qualquer disposição para conferir um novo trabalho do ator, nem confiança entre os estúdios para investir em uma persona non grata. Eis que Jodie Foster, amiga de longa data de Gibson, lhe dá uma oportunidade de ouro em “Um Novo Despertar”, filme que ela dirige com base no roteiro de Kyle Killen.

Como era de se esperar, essa produção independente fracassou nas bilheterias americanas e pode não ter fôlego para maiores resultados nos mercados internacionais. Durante exibição no Festival de Cinema de Cannes, porém, o filme foi extremamente prestigiado pelos espectadores (exigentes) do evento, o que indica a possibilidade de ser descoberto a longo prazo, tornando-se um cult de proporções modestas.

“Um Novo Despertar” é, de fato, um bom momento para os dois. Para Jodie, uma diretora bissexta, trata-se de uma ligeira evolução frente ao que demonstrara em trabalhos irregulares como “Mentes Que Brilham” (1991) e “Feriados em Família” (1995). Gibson, por outro lado, nunca foi uma referência em atuação  – ao contrário de Jodie, uma atriz excepcional, ele se saiu melhor atrás das câmeras, dirigindo filmes como “Coração Valente” (1995) e “A Paixão de Cristo” (2004). Dessa vez, porém, ele encontra o tom mais adequado possível para o personagem. Mesmo que um personagem tão difícil e esquisito.

Gibson interpreta Walter Black, um pai de família em estágio avançado de depressão, que passou os últimos dois anos em ponto morto, não conseguiu encontrar sentido na terapia e arrastou o restante da família para o buraco negro. A esposa (Jodie) foi levada ao esgotamento emocional e parece estar sempre lutando contra um ataque de nervos silencioso. O filho mais velho (Anton Yelchin) está tão apavorado com as chances de se tornar como o pai que mapeia todos os seus comportamentos similares para se policiar – e, quando frustrado, bate a cabeça contra a parede com tanta força que está prestes a perfurá-la. O filho caçula (Riley Thomas Stewart) também se fechou em um casulo e tem como meta de vida se tornar invísivel – o que, ironicamente, o transforma em alvo de perseguicões constantes na escola.

Quando a esposa decide dar um basta na situação e o expulsa de casa, Walter percebe que, do jeito que as coisas estão, ele já foi até onde poderia ter ido. Mas o suicídio também não lhe convém: não consegue se enforcar com a gravata no banheiro, nem pular da sacada do seu quarto de hotel. Quando tudo parecia perdido, eis que o fantoche de um castor, que Walter encontrou em uma lixeira, assume o controle da situação. Com o boneco na mão esquerda, Walter passa a se comunicar em um pesado sotaque britânico, vivo e articulado como nunca antes esteve. Do sujeito inseguro e catatônico, molda-se em um homem caloroso e confiante, ainda que excêntrico.

Para as pessoas ao redor, é complicado se acostumar com um fantoche que se comunica durante as 24 horas do dia – mas, como supostamente o castor era um artifício terapêutico para ajudar Walter a se expressar, e como ele parece tão ajustado à situação, a família e os colegas de trabalho fazem o possível para se acomodar. De fato, a fábrica de brinquedos que Walter herdou do pai, outrora à beira da falência, volta ao topo com força total depois que ele formula um kit de construção infantil do Senhor Castor.

A esposa lhe permite voltar para casa. O filho caçula adora se comunicar com o fantoche e, através dele, se torna muito mais sociável. Só o mais velho, porém, resiste desde o início a se aproximar do boneco, fechado em seu próprio drama pessoal, em um caso mal resolvido com uma líder de torcida (Jennifer Lawrence, recém-indicada ao Oscar por “Inverno da Alma”). Não demora, contudo, para que o espectador de “Um Novo Despertar” e as pessoas ao redor de Walter percebam que ele, como homem, começou a esvair, e que o castor está tomando gradualmente o seu lugar. De um recurso benéfico, o fantoche passa a uma mania prejudicial e perigosa, com consequências mais sérias do que a premissa levemente irreverente parecia indicar.

Às vezes, parece que o roteiro chega a esses extremos com soluções falsas e nada convincentes. O sucesso estratosférico da empresa de Walter e a sua súbita celebridade, por exemplo, soam forçados – em especial, porque o tempo em que a narrativa se transcorre nunca é bem definido (geralmente, uma edição apressada sintetiza a evolução de Walter no serviço e no lar em um punhado de dias, mas, ao voltar para a subtrama do filho, retomada do exato ponto em que fora deixada, fica a impressão de que se trata simplesmente do dia seguinte).

Mel Gibson é o que atenua a aparente confusão do enredo. Não apenas por sua interpretação correta e matizada, mas também pelo fato do personagem – ou seria personagens? – lhe cair como uma luva. O castor, como explicitou Jodie Foster, é um animal que constrói as coisas e depois as destrói, só para construí-las novamente. Gibson, como homem e como profissional, almejava há muito esse tipo de reconstrução. Não que os erros passados devam ser esquecidos. No caso do protagonista de “Um Novo Despertar”, as cicatrizes não podem ser ignoradas. Mas, da completa destruição, nasce uma nota de otimismo de que, talvez, as coisas não estejam perdidas. Como Jennifer Hudson em “Dreamgirls” (2006) e Mickey Rourke em “O Lutador” (2008), este foi o papel certo na hora certa – e Gibson sequer parece interpretar uma variação de si mesmo.

.:. Um Novo Despertar (The Beaver, Estados Unidos, 2011, Drama). Cotação: B-