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O Oscar e Eu

25/02/2013

Dizem que o primeiro passo é admitir que se tem um problema.

– Oi, eu sou o Luiz e eu sou obcecado pelo Oscar.
– Oi, Luiz!

É verdade. Não sei se “obcecado” é a palavra certa, mas eu realmente dedico um tempinho do meu tempo ao Oscar, e não só nas quatro horas de cerimônia que algumas pessoas já consideram insuportável por si só. Eu gosto de ver os filmes indicados, de acompanhar todo o buzz em torno deles, de fazer minhas apostas e torcer pelos meus favoritos, e até ficar um pouquinho mal quando eles não ganham (o que acontece com uma certa frequência). Como é capaz de aproveitar tanto o Oscar, sendo o Oscar, como todos dizem, uma merda e uma festa autoindulgente de Hollywood à sua cultura de celebridade?

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Em primeiro lugar, isso é possível porque eu sei que o Oscar não deve ser tomado como parâmetro de mérito e reconhecimento artístico. E um passado de prêmios duvidosos – como “O Discurso do Rei” ganhando como Melhor Filme sobre “A Rede Social”, e “Crash” ganhando acima de “Brokeback Mountain” – confirmam essa tese. Mas não dá para dizer que o Oscar não significa nada. Para quem vê o cinema como “coisa séria”, é tão obrigatório alegar que está cagando pro Oscar quanto ser estudante de cinema e fumar maconha.

Mas o Oscar tem lá o seu propósito – e um propósito que atrai o investimento milionário dos estúdios na temporada de premiações. Você pode não ser influenciado a assistir a um filme por causa do Oscar, mas uma penca de pessoas é. E o Oscar providencia que alguns filmes bem bacanas sejam vistos por bastante gente. “O Discurso do Rei” pode não ser, sob nenhum aspecto, um filme superior à “A Rede Social”, mas não dá para taxá-lo de uma experiência tão catastrófica como aquele filme em que o Adam Sandler interpreta as gêmeas Jack e Jill, e que a Globo reprisou mais vezes na Sessão da Tarde que a novela “Renascer” no Vale a Pena Ver de novo. Acredite, galera: esse é o principal, e, por vezes, o único contato que uma parcela bem grande da população vai ter com a arte de se fazer um filme.

Se uma minoria dessa parcela se interessar, digamos, por pagar o ingresso, baixar ou alugar “O Discurso do Rei”, pode-se dizer que elas estarão sendo apresentadas a um conflito um tantinho mais complexo que os arrotos do Adam Sandler. Não adianta ostentar a bagagem cultural de quem encara “A Rede Social” como o “Cidadão Kane” da sua época. Pode acreditar: a maior parte da população brasileira não viu “Cidadão Kane”, e acha que não está perdendo muito. E mais da metade da população americana que assistiu morre de medo de dizer que achou chato.

É como as coisas são. O Oscar não é essa corporação desalmada que gosta de premiar filmes medíocres por sacanagem. Eles premiam quem faz mais sentido premiar dentro daquele contexto. Porque “Titanic” não era um melhor filme que “Los Angeles – A Cidade Proibida”, mas tinha valores de produção excepcional e estabeleceu uma conexão absurda com o público da época. Porque “Guerra ao Terror” não faturou mais que “Avatar”, mas tratava de um tema pungente e atual que recebeu o tratamento exemplar de uma equipe de profissionais singulares.

Faz muito sentido, por exemplo, premiar este ano Jennifer Lawrence como Melhor Atriz por “O Lado Bom da Vida”. Ela é a estrela do momento, assim como Gwyneth Paltrow o era quando roubou, aos olhos do público brasileiro, o prêmio de Fernanda Montenegro. Jennifer é carismática, divertida e espontânea. Uma boa parcela demográfica só estava assistindo a cerimônia esperando para vê-la no palco. O Oscar precisa de audiência, porque os custos de distribuição da cerimônia sustentam, no sentido literal da palavra, boa parte dos investimentos da Academia, que está fazendo um trabalho legal ultimamente (esse ano, convidaram um grupo de estudantes de cinema a submeter seus curta-metragens e apresentaram os vencedores durante a cerimônia).

E até chegar a hora de Jennifer subir ao palco, o público que ligou a TV só para vê-la brilhar pode aturar deleites como os vencedores na categoria de Melhor Documentário em Curta-Metragem, que chamaram a atenção para as dificuldades que a arte enfrenta para sobreviver nas comunidades. Também não adianta esbravejar pelas derrotas de Emmanuelle Riva e Jessica Chastain, vistas pelos experts como as mais merecedoras do prêmio de Melhor Atriz. Quem sabe se, com um Oscar em mãos, Chastain não seria tentada a aceitar um projeto que está muito abaixo do seu talento, simplesmente porque teve um novo valor comercial atribuído a ela? Amanhã, enquanto Lawrence ainda estiver celebrando o Oscar, Chastain vai estar se apresentando na Broadway. Não fique mal por ela. É exatamente onde ela deveria estar. Assim como Lawrence deve estar estreando as sequências de “Jogos Vorazes”, porque é ali que a indústria precisa que ela esteja.

Logo, quando eu digo que dou atenção ao Oscar, não é porque eu preciso que ele me aponte quais filmes assistir ou qual deixar de lado. E não porque eu concordo com os votantes de que “Argo” é maior filme que “Amor”. Mas porque eu sei que o prêmio tem implicações diversas na indústria do cinema, e que muitos dos projetos que vão surgir nos próximos anos são uma decorrência direta das escolhas feitas nessa noite.

Repararam como “Indomável Sonhadora” era sempre o filme mais aplaudido quando anunciado? Isso é porque a galera envolvida nele estava simplesmente feliz por estar lá, ganhando ou perdendo. A história de que “o importante é competir” é a mais pura verdade. O filme foi rodado com menos grana que o aluguel de um apartamento nos Jardins. E eles foram selecionados para estar ali, na companhia de uma turma que trabalha com cinema desde sempre, expostos para 1 bilhão de pessoas no mundo todo que podem ou não se interessar por assistir. O próximo filme desse diretor, seja lá qual for, já tem a sua distribuição garantida. Pensa em quantos filmes são feitos aqui no Brasil, na raça, e que nunca vão ter a mesma oportunidade de ter as suas histórias descobertas.

Por ora, dou-me por satisfeito com o Oscar E enquanto a internet está encanada com cada piada sexista que o Seth MacFarlane soltou durante a cerimônia, eu vou dormir de consciência tranquila, calmo e preparado, porque amanhã é segunda-feira e a vida não está ganha. E nunca é cedo para acompanhar as especulações para o Oscar do ano que vem.

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