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Eu Queria Não Ter Visto

06/10/2011

Em algum período longínquo, o conceito da troca de corpos deve ter parecido uma ideia refrescante e original. Não só pela irreverência da situação, mas também pela possibilidade de suscitar reflexões existencialistas pertinentes: pessoas perambulam pela vida acreditando que são incompletas e, após as peripécias sobrenaturais que lhes tiram dos próprios corpos, descobrem que tinham dentro de si tudo o que estava faltando. Mas o artifício foi requentado tantas vezes pelo cinema – de Hollywood afora, como se nota pela franquia brasileira “Se Eu Fosse Você” – que não sobra mais espaço para ponderações filosóficas.

Hoje, impera a simplificação, as piadas rasteiras e um humor de gosto cada vez mais duvidoso. Mas nenhum longa recente levou essas características ao mesmo extremo de “Eu Queria Ter a Sua Vida”, do diretor David Dobkin (“Penetras Bons de Bico”). Na comédia estrelada por Ryan Reynolds (“Lanterna Verde”) e Jason Bateman (“Quero Matar Meu Chefe”) perde-se a conta das baixarias que cruzam a tela. Dos primeiros minutos de projeção até que a história conclua o seu arco previsível, o espectador se depara com uma profusão de palavrões, sexo pervertido e, no auge do roteiro, fezes e urina (os protagonistas fazem xixi em uma fonte mágica depois de uma noite de bebedeira, e é esse “fluido corporal” que ativa o feitiço da troca de personalidades).

Não que a escatologia implique em banalização. No excelente “Missão: Madrinha de Casamento”, ainda em cartaz nos nossos cinemas, o ápice do humor é uma crise coletiva de vômito e diarreia – mas o filme não se reduz às gags fáceis e contextualiza as piadas de banheiro em personagens muitíssimo bem desenvolvidas. O mesmo não se aplica a “Eu Queria Ter a Sua Vida”. Tanto o ator desempregado interpretado por Reynolds quanto o pai de família atarefado vivido por Bateman não são explorados além do que a ocasião requer – e isso não quer dizer muito.

As gracinhas que não envolvem nojeiras impossíveis de reproduzir neste texto se voltam para a obviedade – um deles tem de se virar para cuidar de um casal de gêmeos recém-nascidos, enquanto o outro vai atuar em um filme erótico de quinta categoria. Bateman e Reynolds até se esforçam para incorporar os trejeitos um do outro e, com isso, tornar crível o inacreditável, mas não são páreo para a qualidade do roteiro. Também são desperdiçadas a sempre ótima Leslie Mann (“Ligeiramente Grávidos”) e a muito prolífica Olivia Wilde (“Cowboys & Aliens”), que ficaram com os papeis da esposa e de uma colega de trabalho de Bateman, respectivamente. E o vencedor do Oscar Alan Arkin (“Pequena Miss Sunshine”) faz uma participação de luxo – mas nada ilustre – como o pai de Reynolds, desapontado pela falta de perspectivas do filho.

Mas não é só com os personagens que “Eu Queria Ter a Sua Vida” demonstra a sua falta de compromisso. O próprio filme se implode em uma estrutura narrativa confusa e bagunçada, que comprime vários acontecimentos sem delinear a passagem de tempo e sugere ao espectador que várias semanas se transcorreram quando, na verdade, não se passou mais de um dia. Ao final, não dá para entender porque qualquer ser humano desejaria a vida de algum daqueles infelizes. Menos de duas horas em sua companhia já é desagradável o suficiente.

3 Comentários leave one →
  1. 07/10/2011 10:18 pm

    Devo assistir. Especialmente pra ver o Jason Bateman com o Ryan Reynolds. Parece ser uma dupla inusitada… Quase como Ryan Gosling e Steve Carell em “Amor a Toda Prova”.

    • 09/10/2011 3:16 pm

      Com a diferença, Ka, de que Amor a Toda Prova era um ótimo filme! Já este…

      • Quéroul permalink
        09/10/2011 11:52 pm

        e que Ryan Gosling e Steve Carell são amor puro, amor verdadeiro, gente que faz e Ryan Reynolds e/ou Who Bateman, não. hihi.

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