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A surpresa do ano: Crazy Stupid Love

27/08/2011

Na cena inicial de “Amor a Toda Prova”, a câmera dos diretores Glenn Ficarra e John Requa (“O Golpista do Ano”) passeia sob as mesas de um restaurante e flagra a intimidade dos casais presentes – alguns roçam os pés acanhados, outros partem para investidas mais ousadas. Quando a tomada se demora nos personagens de Steve Carell (série “The Office”) e Julianne Moore (“Minhas Mães e Meu Pai”), cada qual sentado em um extremo da mesa e com as pernas tensionadas na cadeira, não é preciso de muito mais para deduzir que ali está um casal em profunda estagnação – uma constatação que se escancara no instante seguinte, de maneira bem menos sutil, quando a mulher anuncia que quer o divórcio ao mesmo tempo em que o marido decide que pedirá crème brûlée para a sobremesa.

Esse ritmo preciso e certeiro vai nortear o restante da trama: “Amor a Toda Prova” promoverá, ao longo de quase duas horas de duração, todas as catarses a que tem direito; mas, ao mesmo tempo em que entrega o conteúdo mastigado e digerido ao espectador, não deixa de dizer um bocado também nas entrelinhas. Um bocado mesmo, quando se considera que toda a divulgação do filme simplificava a sua proposta em uma comédia sobre dicas de paquera – oferecidas, no caso, pelo personagem de Ryan Gosling (“Namorados Para Sempre”), um mulherengo que se apieda de Carell ao encontrá-lo afogando as mágoas do divórcio no balcão de um bar. Aliás, encarado somente sob esse contexto, “Amor a Toda Prova” não perde a eficácia, mas deixa muito ainda a abstrair.

O amor do título – a única palavra preservada do original “Crazy Stupid Love” (Louco, Estúpido Amor, em tradução literal) – é o que motiva os encontros e desencontros que perpassam a trama. Em seu miolo, está o casal formado por Carell e Moore, em fase inicial de separação porque ela pulou a cerca com um colega de trabalho (Kevin Bacon). Nas arestas, está o personagem de Gosling, um bon vivant que teve tudo de mãos beijadas e se especializou na arte da sedução – a sua lábia, porém, é desafiada pela relutância de uma das moças em que passa sua cantada, uma ruiva vivaz e questionadora (Emma Stone, de “A Mentira”). Também ganha destaque o filho pré-adolescente de Carell e Moore, que, mesmo diante da ruptura do casamento dos pais, permanece convicto no poder do amor e disposto a provar à sua babysitter, quatro anos mais velha, que está apaixonado – sem saber que ela própria cultiva uma paixão inatingível.

A princípio, os enredos parecem desconexos, e a ligação entre eles, demasiadamente tangencial. Mas o roteiro reserva reviravoltas coerentes e deliciosas de acompanhar, que redimensionam o escopo das situações e as enveredam para caminhos inesperados. Grande parte do sucesso se deve ao subgênero. É o drama, e não o romance, que se mescla com o humor da narrativa e evoca o estado de espírito dos personagens. Mais do que a ligação afetiva entre eles, é o dilema interno de cada um que está em jogo. Uma compreensão, é claro, que não passa despercebida ao elenco excepcionalmente talentoso – em especial a Steve Carell, que nunca esteve tão bem no cinema. Sua performance é um exemplo de economia e disciplina, tal como a sua habilidade de sintetizar nos olhos as emoções que atores menos cautelosos estampariam no rosto inteiro. De fato, não há entre as atuações um único gesto supérfluo – excetuando-se, talvez, o núcleo juvenil, que nem por um milagre estaria no mesmo nível de proficiência de Julianne Moore ou Kevin Bacon.

Mas isso também não é problema em “Amor a Toda Prova”, que, em seu cerne, trata justamente de amadurecimento. O personagem de Carell, um pai de família consolidado, tem tanto a aprender quanto o filho. O divórcio o catapulta para uma vida noturna agitada, na qual ele se sente pouco à vontade e que o submete, além das contas caríssimas de alfaiate e bartender, a experiências vexatórias (como uma noite de sexo casual com uma alcoólatra em recuperação, vivida com desenvoltura por Marisa Tomei). Custa a ele admitir que não foi a infidelidade da esposa que pôs fim ao casamento: há anos, a relação do casal empacara entre o amor e a amizade, num ponto em que as qualidades de uma pessoa já se tornaram tão corriqueiras para a outra que esta sequer tira um momento para apreciá-las.

Por sua vez, o personagem de Gosling, ainda que inserido no arco planíssimo do garanhão que se regenera, é humanizado pelo roteiro e pelo ator (talvez o mais proeminente de sua geração em Hollywood). Da caricatura inicial, que assessora a transformação de Carell sem motivos palpáveis ou compreensíveis, ele se molda no personagem mais inflexível às investidas do amor – não por cinismo, mas por uma questão de defensiva. Trata-se de alguém que prefere migrar de um contato superficial ao outro para jamais ser reduzido a um estágio de desolação e sofrimento como o de Carell no início do filme. O que Gosling vem a assimilar – talvez irremediavelmente tarde – é que, ao se proteger dos contras de um relacionamento, ele também se resguarda dos prós, sintetizados na persona irresistível de Emma Stone.

E, finalmente, o garotinho apaixonado experimenta um sentimento que desconhece e que não sabe ministrar. O primeiro amor lhe provoca sonhos molhados e lhe inspira a fazer as declarações públicas mais inusitadas. É o início de sua imersão em um território desconhecido, que vai bem além da infância pueril – e que “Amor a Toda Prova” encare essa transição não como uma perda, e sim como uma libertação, é mais uma confirmação de que o filme, afinal, não quer extrair risadas fáceis e mandar o espectador de volta para casa com a lista do supermercado na cabeça. Quer, ao invés disso, incitar uma reflexão sobre os modelos de humanidade que apresenta, e sobre como um único sentimento é capaz de conectá-los.

6 Comentários leave one →
  1. Quéroul permalink
    27/08/2011 1:52 pm

    olha esse elenco, né, gente? aqui em casa tamo tudo doido pra ir ver no cinema – namorado e eu, os preconceituosos com esses filmes.
    mas Gosling, Carell, Moore e Stone juntos numa só película é muito apelo pra gente.

    nem li direito a resenha, mas volto aqui assim que cumprir a função cinematográfica.😉

    =****

  2. Caroline® permalink
    27/08/2011 4:44 pm

    Diz que essa é uma comédia rômantica pra homens. A conferir.

  3. 28/08/2011 10:36 pm

    Assistiria a este filme somente por causa do elenco, mas esse teu texto me deixou ainda mais ansiosa. Acho que vejo amanhã!

  4. Quéroul permalink
    30/08/2011 2:38 am

    ah meu deus, que filme é esse?
    fiquei com nó na garganta a projeção toda, e apesar das grandes risadas que as cenas cômicas perfeitas me fizeram soltar, o filme partiu meu coração.

    eu amo Gosling, o mundo sabe, e eu acho que esse menino (uma coisa abusiva de delícia, non?) é sim o melhor da sua geração. mas esse filme é todo, todinho do Carell: ele é incrível, me comoveu demais. me lembrei de seu outro grande papel, o tio da Olive no Little Miss Sunshine.
    aqui ele engole o elenco – que é lindo e azeitado, e que me fez ir no cinema com enxaqueca.

    e a trilha? o que é aquela trilha sonora?

    só achei a Marisa Tomei um tantico quanto deslocada – acho que eu me cansei um pouco dela, não sei nem explicar porque…
    mas enfim, saí sofrendo do cinema porque não me esgoelei de chorar o tempo todo… amei sobremaneira.

    e enfim, seu texto. li inteirinho agora, e olha, Louis, você escreve bem demais, putz grila. você é o Carell dos blogs. hehehe.
    =***

  5. cleber eldridge permalink
    30/08/2011 11:48 pm

    Um elenco interessante, e um Ryan Gosling de outro mundo – comédia romântica para homens … Eu confiro em breve.

    • 01/09/2011 4:47 am

      Quéroul, pois é, entrei nesse filme esperando NADA e fiquei super emocionado em vários momentos, além de ter cascado o bico em vários momentos (Julianne Moore falando mal de Twilight, doesn’t get any funnier than this!!!). Curti bastante a Marisa, apesar de achar que o papel cairia melhor a uma atriz menos conhecida (imaginei que ela voltaria a aparecer mais adiante justamente por ser, bem, a Marisa, e não deu outra)! E eu preciso muito daquela trilha e da canção que toca no fim, que eu não sei qual é mas que eu amei. E fiquei todo-todo com o seu elogio ao meu texto. Comparado ao Carell, quanta honra!🙂

      Caroline, essa definição faz todo sentido. Não perca!

      Ka, espero que tenha gostado. Esperando pelo seu texto…

      Cleber, depois passe aqui pra dizer o que achou😉

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