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Tudo azul? A indigna volta dos Smurfs

06/08/2011

Havia uma boa vontade inegável para com “Os Smurfs”, a transposição para os cinemas das célebres criaturas azuis, criadas pelo cartunista belga Peyo em 1958 e popularizadas em uma saudosa série de animação. Os personagens são carismáticos, pueris, bem intencionados e pregam mensagens de preservação e companheirismo que, frente aos desenhos atuais, podem parecer defasadas, mas continuam representativos para uma geração de adultos que cresceram com eles e que agora desejam que os filhos estabeleçam a mesma conexão.

Bom para as famílias, melhor ainda para o estúdio, que tem a chance de ressuscitar o impacto da franquia e da marca milionária atrelada a ela. Não à toa, em uma das sequências do longa, os Smurfs acabam em uma loja de brinquedos e são perseguidos por crianças ávidas que os confundem por bonecos: oportunamente, as réplicas já estão chegando às prateleiras e foram distribuídas como brindes no cardápio do McDonald’s. A má notícia é que só mesmo as crianças bem pequenas vão desfrutar do resultado. Os pais, pelo contrário, correm o risco de arruinar as lembranças imaculadas diante de uma adaptação inepta e infantilóide.

O filme parte do cenário elementar da obra original. Os Smurfs são introduzidos como um clã estabelecido em uma colina, cada qual vivendo em seu cogumelo e denominado de acordo com uma característica específica de sua personalidade. Já o vilão Gargamel (Hank Azaria, sob uma maquiagem propositalmente artificial) é visto como um sujeito obstinado a capturar as criaturas, em planos executados na companhia do gato Cruel. A perseguição é justificada pela possibilidade do misticismo dos Smurfs ser “extraído” e convertido em fonte inesgotável de poder.

Em fuga, algumas das criaturas são transportadas de sua terra mágica para o Central Park, o coração de Manhattan. Uma vez em Nova York, Papai Smurf, Desastrado, Gênio, Ranzinza, Arrojado e Smurfette chegam por acaso ao apartamento de um casal (Neil Patrick Harris e Jayma Mays), que os acolhem após o choque inicial. O problema é que Gargamel e seu gato os seguiram até a metrópole e, distante de sua vila, o Papai Smurf pode não ser capaz de proteger os seus por muito tempo.

Trazê-los ao mundo real seria o passo mais lógico para uma adaptação cinematográfica: uma regra implícita dita que versões em live-action de personagens animados devem aumentar o escopo em tudo o que for cabível e, logo, a simplista morada dos Smurfs seria irrisória para as propostas da telona. Colocá-los em Nova York, porém, implica em incorporar os percalços dos pequeninos ao ambiente da cidade, o que deixa a frequente impressão de se estar assistindo a um cartão-postal em movimento, tão ou mais escancarado que as paisagens cariocas de “Rio”.

O incômodo seria atenuado se a história fosse desenvolvida com certa coerência. Mas o roteiro não sabe para que lado atira. Para colocar Gargamel na pista dos Smurfs, compromete o seu ritmo e a sua lógica interna. Por um instante, sugere uma aliança entre o vilão e a dona de uma empresa de cosméticos (a colombiana Sofia Vergara), que também calha de ser a chefe do personagem de Harris. Logo em seguida, contudo, essa parceria é ignorada e, sem justificativas plausíveis, o filme dá traços positivos ao papel de Vergara. De fato, o jogo de gato e rato é tão bagunçado que, quando atinge o clímax, o espectador jamais teme por nenhum dos Smurfs, tampouco por Gargamel.

A própria relação entre os personagens é ineficaz. Gargamel é retratado um panaca que se envolve em todas as gags físicas imagináveis – nada muito diferente do que era no desenho, mas ao menos a animação era adequada ao tom de chanchada. O problema maior está nas criaturas do título: os Smurfs do filme são fofos e ocasionalmente irresistíveis, mas inócuos em essência. Teses complexas já foram escritas sobre eles, discorrendo, por exemplo, sobre a sua comunidade de produção coletivista e a sua exarcebada valorização da pureza de sangue. Uma reflexão que em nada que encaixa à proposta do longa, mas que acentua o desmazelo e a superficialidade dessa empreitada.

Jamais fica claro o sistema de castas que rege a existência dos Smurfs. O passado de Smurfette, descrita como uma criação de Gargamel, também não é aprofundado, mesmo sendo a mais interessante das sugestões (no filme, ela é a única Smurf fêmea, ao contrário do original). A personagem, aliás, é dublada pela cantora Katy Perry, o que permite uma ou outra piada interna (“Eu beijei um Smurf e gostei”, ela diz em referência ao single “I Kissed a Girl, I Liked It”). O problema é que essas concessões do roteiro, que perde o amigo, mas não perde a piada, banalizam ainda mais o resultado.

Elogios devem ser feitos à composição das criaturas. Criados em CGI e não em animação tradicional, os Smurfs são tão convincentes quanto o ratinho de “Stuart Little” e certamente mais eficientes que os bichinhos de “Alvin e os Equilos”. Infelizmente, seguiram a moda de “Alvin” em quase todo o resto – inclusive em um gratuito número musical durante uma partida de Guitar Hero, que permite aos personagens cantar encarando a câmera, como se estivessem em um videoclipe. Detalhe: a sequência se passa no meio da projeção, e não no desfecho, como é mais aceitável nesses casos.

O final, por sua vez, utiliza uma colagem de fotos e uma cena extra para amarrar as pontas de que o roteiro não conseguiu se encarregar. O saldo é irônico: “Os Smurfs” angaria uma nova geração de fãs para os personagens, mas não sem sacrificar a consideração dos fãs antigos.

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