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Centenário: Todo mundo ama Lucille Ball

06/08/2011

A atriz e roteirista Tina Fey, considerada um dos grandes nomes do humor americano contemporâneo, declarou em certa ocasião que, em sua percepção, as mulheres sempre foram a força motivacional da comédia na televisão. Para comprovar seu ponto de vista, citou como exemplo os trabalhos icônicos de Mary Tyler Moore, Betty White e, principalmente, Lucille Ball, cuja sitcom “I Love Lucy” é recordada como um dos shows mais emblemáticos dos anos 1950, predecessor do formato que vigoraria na TV pelas décadas seguintes.

Neste 6 de agosto de 2011, Ball completaria o seu centenário. A atriz faleceu em 1989, aos 77 anos, em decorrência de problemas cardíacos. O seu legado, porém, já havia sido imaculado. Não houve na televisão americana mulher tão querida quanto Lucille. De 1951 a 1957, quando “I Love Lucy” estava no ar, mesmo as estrelas do cinema perdiam para ela em termos de popularidade. O programa foi, durante todos os seus anos no ar, o líder de audiência – e o primeiro a encerrar ainda no topo -, e continuou a angariar devotos durante os anos de incontáveis reprises (inclusive, para celebrar os 100 anos de Lucy, as emissoras estão resgatando mais uma vez as cópias da atração).

Tomando o sucesso de “I Love Lucy” como parâmetro, é difícil acreditar que Ball sofreu o ostracismo de Hollywood durante quase duas décadas antes de emplacar. No início dos anos 1930, experimentou a carreira de modelo. Partiu então para comédias musicais, descolando papeis minúsculos em filmes de Fred Astaire e Ginger Rogers. No sistema de classificação dos estúdios, Ball era catalogada como uma atriz do segundo escalação, da “lista-B”. E, ainda, assim, uma das prolíficas. Segundo a biógrafa Kathleen Brady, autora de “Lucille: The Life of Lucille Ball”, “ela foi uma das atrizes que mais trabalhou duro em Hollywood”. “A certo ponto, fazia 10 filmes de uma vez, mas nunca se elevou ao padrão de estrela”, refletiu Brady.

Mulheres com inclinação à comédia não eram a prioridade da indústria no momento – e mesmo as próprias estrelas se distanciavam desse estigma, buscando a reputação de grandes rainhas do drama. Eis, então, que a televisão surgiu, se disseminou pelo território americano e possibilitou aos talentos menosprezados do cinema encontrar um lugar ao sol. “I Love Lucy” surgiu quando essa indústria em ascenção ainda tomava forma e ajudou a moldar os padrões. Foi o primeiro show rodado diante de uma plateia, com cenários e câmeras fixas – estrutura que se tornaria regra sagrada das sitcoms.

Ball, já uma mulher madura de  vívidos olhos azuis e cabelos ruivos inconfundíveis mesmo pela transmissão em preto e branco, esteve no centro disso tudo. Lucy, uma dona de casa hiperativa e com tendência a se meter em confusões, era uma extensão da personalidade da atriz, um papel que lhe permitia exercitar o timing cômico e o humor físico puxado ao pastelão. Desi Arnaz, marido de Ball na vida real, era também seu marido na ficção, um músico cubano de sotaque carregado. Na trama, o casal vivia em Nova York, com interferências constantes dos melhores amigos e arrendatários, intepretados por Fred Mertz e Ethel Mertz.

O sucesso foi tamanho que, a certo ponto, não havia cidadão americano que não amasse Lucy. Era o show que as famílias se reuniam diante da TV para assistir em conjunto – engraçado, espirituoso, pueril. Foi quase graças a ele que o Emmy, o Oscar da televisão, definiu as categorias que existem hoje: em 1952, quando Lucille e “I Love Lucy” perderam em Melhor Comediante e Melhor Série de Comédia, o escândalo foi tão grande que o vencedor, Red Skelton, disse em seu discurso que sentia que “a estatueta deveria ter ido para Lucille Ball”. No ano seguinte, a Academia da TV optou por separar homens e mulheres em categorias diferentes. Lucille foi finalmente premiada – o primeiro dos seus 5 Emmys, incluindo um Honorário -, e “I Love Lucy” também venceu na categoria principal.

Além de atriz exímia, Ball se provou também uma mulher de negócios de mãos cheias. A CBS, emissora que veiculava “I Love Lucy”, concedeu a Lucille e ao esposo os direitos do show, que eles em parte financiavam. Com essa commodity, os dois fundaram o Desilu Studios, que se tornaria uma potência em Hollywood e lar de outras séries de sucesso, como “The Dick Van Dyke Show”, “Missão: Impossível”, “I Spy” e até mesmo “Star Trek”, hoje uma franquia que dispensa introduções. Em 1962, Ball assumiu o cargo de presidente do Desilu, tornando-se a primeira mulher a ocupar tão alto posto na indústria do entretenimento.

Curiosamente, a parceria profissional de Lucy com o marido foi bem mais sucedida do que a pessoal. O casamento com Arnaz ruía no mesmo ritmo que seus personagens em “I Love Lucy” ficavam mais e mais engraçados. Eles estavam juntos desde 1940, mas passaram a primeira década do matrimônio praticamente separados – Lucy na Califórnia, cumprindo contrato com a Columbia Pictures, e Arnaz viajando pelo país com sua orquestra. Atuarem juntos no show significou passarem uma quantidade maior de tempo juntos – o que, por ironia do destino, acabou os afastando ainda mais. A pressão gerada pela série e a inconfundível ambição de Lucy são apontadas como decisórias para o término do casamento em 1960.

O público não teve porque lamentar o divórcio: a essa altura, “I Love Lucy” já havia encerrado a produção e Lucille continuava sob os holofotes. Nas décadas seguintes, estrelou produções da Broadway, foi para os cinemas com o destaque que outrora lhe fora negado – seus filmes incluem “Os Seus, os Meus, os Nossos” (1968) e o musical “Mame” (1974) -, e estrelou mais duas sitcoms duradouras, “The Lucy Show” (1962-1968), que lhe rendeu mais dois prêmios Emmy, e “Here’s Lucy” (1968-1974), que contou com a participação de seus dois filhos com Arnaz. À altura da década de 1980, Lucille Ball já adquirira o status de lenda.

“Deus queria que o mundo risse, então Ele inventou você”, discursou Sammy Davis Jr. em um dos muitos tributos apresentados a Lucy. Além do Emmy honorário, ela recebeu o Cecil B. DeMille Award na cerimônia dos Globos de Ouro de 1979 e prêmios pela carreira da Associação de Críticos de Televisão e do American Comedy Awards. O carinho do público, porém, é o maior indicativo de êxito – e a comoção gerada por seu centário comprova que o prestígio de Lucille Ball ainda não prescreveu. E jamais prescreverá: por trás de cada sucesso da comédia feminina, como o filme “Missão: Madrinha de Casamento”, um dos blockbusters dessa temporada, está uma trapalhada de Lucy que tornou isso possível.

3 Comentários leave one →
  1. Quéroul permalink
    07/08/2011 7:54 am

    eu amava. me lembro de ainda morar em SP, no começo da década de 80, e passava sei lá em que canal reprises e mais reprises dos seriados, em p&b e colorido.
    me lembro desse episódio em que Lucy e a amiga vão fazer um bolo, um jantar, não sei, e correm no mercado comprar os ingredientes. mas todos os caixas tão com filas gigantes e elas precisam correr porque tão atrasadas.
    descobrem que se tiverem apenas um produto, o caixa deixa elas passarem na frente, e começa uma sequência DOIDA dessas mulheres pegando um produto por um no carrinho, gritando ‘só tenho esse’, ‘é só a banana’, ‘é só o leite’, passando na frente dos outros clientes, pagando, dando a volta, pegando outro produto e começando de novo.
    eu tinha uns 4 ou 5 anos, e eu ria tanto, TANTO. nunca esqueci.

    e anos, milênios depois, começou Will and Grace.
    e eu bati o olho na Grace e vi a Lucille Ball ali na minha frente de novo. acho que eu gostei tanto do seriado porque a Debra Messing é mais uma dessas ‘filhas’ da Lucille Ball.

    que saudade, queria ver tudo de novo.

    e que saudade, Louis. Nosso café expirou???
    beijão

  2. 07/08/2011 10:35 pm

    Excelente homenagem a um dos maiores nomes da comédia norte-americana. A Lucille Ball abriu as portas para Mary Tyler Moore, Tina Fey e cia. limitada! Beijo!

    • 10/08/2011 10:25 am

      Querol, sua linda! Que saudades… Claro que nosso café ainda tá de pé. Tô me esfolando com o TCC, mas o trabalho tá mais tranquilo, então é só você marcar uma tarde que estarei lá, pra discutirmos Lucille Ball e tudo mais que existe no nosso repertório fantástico😀

      Ka, obrigado! O legado da Lucy é mesmo imensurável. Beijos

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