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Woody Allen em Paris, à meia-noite

25/06/2011

O encantamento de Woody Allen por Paris fica evidente antes que “Meia Noite em Paris”, o novo filme do cineasta, se inicie propriamente. Precedendo os créditos já tradicionais dos trabalhos do diretor – sóbrios, em fundo preto, fonte branca serifada e elenco listado em ordem alfabética -, há uma colagem de imagens da capital francesa, sob um chuvisco que, ao invés de lhe esvair o charme, apenas potencializa a sua unicidade. Ao fundo, a canção “Si tu vois ma mère”, de Sidney Bechet, com a qualidade de vinil antigo, traduz em acordes o que palavras não conseguiriam exprimir.

O deslumbramento traz consigo o risco de anuviar a percepção dos criadores em relação à sua criação. Nesse caso, ocorre o contrário: a admiração pelo cenário é não apenas a força motriz de “Meia Noite em Paris”, mas também um dos pontos cruciais do eixo narrativo. O que Allen discutirá, aqui, é a impressão – equivocada – de que a felicidade está em algum lugar, tempo ou circunstância distante daquele em que vivemos.

Para o americano Gil (Owen Wilson, funcionando como o alter ego de Allen nas falas pontuadas e nos trejeitos neuróticos), o paraíso está em Paris. Mas não na Paris contemporânea que visita com a noiva (Rachel McAdams). Admira, sim, a Paris de 1920, pela qual desfilavam seus ídolos em um período de extrema fertilização artística – um ambiente ao qual o personagem, um roteirista de Hollywood que cansou de se sentir como uma engrenagem do “sistema” e almeja se tornar romancista, daria um rim para fazer parte.

O seu sonho, afinal, não é tão inconcebível assim. Perambulando sozinho por Paris enquanto a noiva, que não partilha do seu idealismo, está dançando com um casal de amigos pedantes, Gil irá embarcar em um “moderníssimo” calhambeque para uma viagem no tempo. O carro, que passa para apanhá-lo pontualmente à meia-noite, conduz o protagonista para a Paris fervilhante da década de 20.

Em festas e eventos, ele é apresentado com intimidade a Scott (Fitzgerald) e sua esposa Zelda; troca palavras com Ernest (Hemingway); presencia uma canja de Cole (Porter) no piano; dá sugestões para trabalhos que Luis (Buñuel) ainda não concebeu; cruza com Pablo (Picasso) na casa de Gertrude (Stein), e submete seu livro incompleto para a avaliação da poetisa. Pelos próximos dias, Gil continua maleando o tempo, sempre a partir da meia-noite, e materializando-se no passado. Até que conhece Adriana, interpretada pela vivíssima Marion Cotillard, e, ludibriado por tamanha beleza e candura, fica tentado a não mais retornar para o presente.

A ligação da moça com a boemia é no máximo tangencial: sempre alternando-se na condição de amante, de um artista a um escritor, de um pintor a um cineasta. Sua insatisfação, porém, nem mesmo Gil, uma rajada de ar fresco entre os homens de sua época, poderia saciar. Os anos 20 não bastavam para Adriana. Para ela, o ápice criativo de Paris havia sido no século anterior, durante a Belle Époque. A certa altura, a trama dá mais uma guinada e conduz Gil e Adriana em mais um retrocesso – mas os ícones da revolução cultural de 1870 são, também, versões mal resolvidas de si mesmos, saudosistas pela Renascença que não chegaram a testemunhar.

Com uma cajadada, Allen se encarrega de dois elementos constantes em sua filmografia: o terreno fantasioso, aqui coberto com a mesma precisão do indiscutível “A Rosa Púrpura do Cairo”, e a, digamos, ignorância humana diante de sua própria condição. Para o diretor, muitos dos grandes problemas da vida poderiam ser poupados se as pessoas não se apegassem demais às suas expectativas ou visões pré-concebidas. Em “Meia Noite em Paris”, a tese é defendida com relativos encanto e paixão – e o enredo, como era de se esperar, ganha fôlego após o início frio, para atingir o ponto quando a fantasia se estabelece. É fácil supor que, dentre os filmes recentes do cineasta, que mantém a média invejável de um lançamento por ano, este será um dos mais ressonantes em um plano geral.

.:. Meia Noite em Paris (Midnight in Paris, França / Estados Unidos, 2011, Fantasia). Cotação: B+

5 Comentários leave one →
  1. 26/06/2011 11:05 pm

    Muita gente tem comparado “Meia Noite em Paris” com “A Rosa Púrpura do Cairo”. Como eu não assisti a este filme, fico com a comparação com “Todos Dizem Eu Te Amo”, especialmente porque “Meia-Noite” e “Todos Dizem” possuem uma aura nostálgica e que fala do amor dessa forma romântica, idealizada, tendo Paris ao pano de fundo.

    Eu, particularmente, gostei bastante de “Meia Noite em Paris”. Achei um ótimo filme e muito melhor que “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”.

  2. 27/06/2011 7:09 pm

    Eu sai satisfeito do cinema.

  3. 11/07/2011 2:58 am

    Gostei do texto.

    Woody é d+

    abraço

  4. Iara permalink
    11/07/2011 4:18 am

    o que você recomenda ver no Festival Latino Americano ???

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