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Quebrando o Tabu: A polêmica que não veio

06/06/2011

Quando um documentário se propõe a debulhar um tema, deve analisá-lo por todas as vertentes possíveis, para que as nuances de uma opinião específica não tornem o relato parcial e para que os espectadores não sejam direcionados em sua interpretação. O público, pelo contrário, deve ser munido de informação para que possa extrair o seu próprio raciocínio. Uma reflexão tendenciosa só é cabível quando o cineasta pretende utilizar o seu poder de persuasão para provocar, cutucar e incomodar – Michael Moore, o polêmico diretor de “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 11/9”, é o principal exemplo disso.

“Quebrando o Tabu”, documentário no qual o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso considera as opções políticas sobre as drogas e seus usuários, deixa claro desde o princípio a sua opinião sobre o assunto – mas, com todas as diplomacias que cabem à FHC, não tem a chance de ser transgressor e contundente em relação àquilo que se opõe. Em linhas gerais, o filme é favorável a repensar as implicações legais do uso da droga, em especial a maconha, que serve como refrão para a discussão. Tomando como base os dados de outros países e depoimentos de autoridades e estudiosos, o filme defende, ora velada ora assumidamente, a descriminalização do uso da maconha, se não a sua legalização.

As opiniões contrárias, porém, não são ouvidas. Não há espaço para a acusação, apenas uma sucessão de argumentos da defesa – alguns deles, facilmente atacáveis. Os exemplos citados em que a maior tolerância à maconha teve resultado positivo são, basicamente, restritos aos países europeus, de território estreito e população unificada. A realidade brasileira é outra, e o documentário mostra-se ciente disso quando o ex-Presidente, que faz a vez de anfitrião, menciona que pretende, antes de mais nada, propor a discussão, para estudar como as políticas externas sobre as drogas poderiam se encaixar no nosso país.

“Quebrando o Tabu”, porém, não dá um pontapé inicial nessa discussão. Aliás, sequer começa a se enveredar por ela. O diretor Fernando Grostein Andrade (“Coração Vagabundo”) percorreu junto do ex-Presidente 18 cidades de 8 países diferentes. Distanciou-se tanto de casa que se esqueceu de olhar dentro dela. Não pesa nessa equação a infraestrutura da população atual e o suporte que o governo brasileiro é capaz de oferecer aos cidadãos. Prega que o viciado, depois de irreversivelmente corrompido pela droga, deve ser tratado como um doente, e não como um criminoso, mas não faz qualquer análise da saúde pública brasileira para cogitar a viabilidade desse plano. E a percepção de muitos dos depoentes sobre o tema, como as impressões do médico Dráuzio Varella e do escritor Paulo Coelho, soa mais como palpites em um assunto de foro íntimo do que de foro de lei.

Como cinema, “Quebrando o Tabu” também é discutível. A sequência inicial, na qual FHC é confrontado por repórteres sobre o tema, peca pela obviedade – e a falta de reação do presidente diante das câmeras, provocada pela edição marota, sugere erroneamente que um encontro desconfortável com a imprensa motivou o envolvimento do ex-Presidente na pesquisa, Com 1h10 de duração, o filme poderia ser facilmente encaixado na programação de um canal à cabo e exibido como um documentário feito para TV – destino que possivelmente teria, caso FHC não tivesse vestido a camisa do projeto. As vinhetas que cortam os testemunhos e ligam um pólo da discussão a outro estimulam os moldes da televisão, conferindo ao projeto um tom de amadorismo que não cabe a um longa-metragem. É inspirado, contudo, o uso da animação para ilustrar um ou outro caso.

Entretanto, o fato mais irônico de “Quebrando o Tabu” é que o documentário, com sua proposta de extrapolar o assunto, apenas deu cabeçadas nos mesmos pontos comuns. É o que ocorre quando se fala sobre drogas e sobre qualquer outro tema polêmico: quanto mais se tenta quebrar o tabu, mais ele se realimenta.

.:. Quebrando o Tabu (Brasil, 2011, Documentário). Cotação: D+

One Comment leave one →
  1. 06/06/2011 11:45 pm

    Nossa!! Um texto que contém uma opinião bem diferente da que ando lendo por aí! Eu confesso que estou bastante curiosa para conferir este documentário!!

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