Skip to content

Um Novo Despertar: A reconstrução de Mel Gibson

29/05/2011

Nos últimos anos, Mel Gibson só saiu da fortaleza de sua mansão em Beverly Hills para protagonizar escândalos nada lisonjeiros. Entre dirigir embriagado, proferir xingamentos antisemitas e agredir a ex-namorada, não havia no público americano qualquer disposição para conferir um novo trabalho do ator, nem confiança entre os estúdios para investir em uma persona non grata. Eis que Jodie Foster, amiga de longa data de Gibson, lhe dá uma oportunidade de ouro em “Um Novo Despertar”, filme que ela dirige com base no roteiro de Kyle Killen.

Como era de se esperar, essa produção independente fracassou nas bilheterias americanas e pode não ter fôlego para maiores resultados nos mercados internacionais. Durante exibição no Festival de Cinema de Cannes, porém, o filme foi extremamente prestigiado pelos espectadores (exigentes) do evento, o que indica a possibilidade de ser descoberto a longo prazo, tornando-se um cult de proporções modestas.

“Um Novo Despertar” é, de fato, um bom momento para os dois. Para Jodie, uma diretora bissexta, trata-se de uma ligeira evolução frente ao que demonstrara em trabalhos irregulares como “Mentes Que Brilham” (1991) e “Feriados em Família” (1995). Gibson, por outro lado, nunca foi uma referência em atuação  – ao contrário de Jodie, uma atriz excepcional, ele se saiu melhor atrás das câmeras, dirigindo filmes como “Coração Valente” (1995) e “A Paixão de Cristo” (2004). Dessa vez, porém, ele encontra o tom mais adequado possível para o personagem. Mesmo que um personagem tão difícil e esquisito.

Gibson interpreta Walter Black, um pai de família em estágio avançado de depressão, que passou os últimos dois anos em ponto morto, não conseguiu encontrar sentido na terapia e arrastou o restante da família para o buraco negro. A esposa (Jodie) foi levada ao esgotamento emocional e parece estar sempre lutando contra um ataque de nervos silencioso. O filho mais velho (Anton Yelchin) está tão apavorado com as chances de se tornar como o pai que mapeia todos os seus comportamentos similares para se policiar – e, quando frustrado, bate a cabeça contra a parede com tanta força que está prestes a perfurá-la. O filho caçula (Riley Thomas Stewart) também se fechou em um casulo e tem como meta de vida se tornar invísivel – o que, ironicamente, o transforma em alvo de perseguicões constantes na escola.

Quando a esposa decide dar um basta na situação e o expulsa de casa, Walter percebe que, do jeito que as coisas estão, ele já foi até onde poderia ter ido. Mas o suicídio também não lhe convém: não consegue se enforcar com a gravata no banheiro, nem pular da sacada do seu quarto de hotel. Quando tudo parecia perdido, eis que o fantoche de um castor, que Walter encontrou em uma lixeira, assume o controle da situação. Com o boneco na mão esquerda, Walter passa a se comunicar em um pesado sotaque britânico, vivo e articulado como nunca antes esteve. Do sujeito inseguro e catatônico, molda-se em um homem caloroso e confiante, ainda que excêntrico.

Para as pessoas ao redor, é complicado se acostumar com um fantoche que se comunica durante as 24 horas do dia – mas, como supostamente o castor era um artifício terapêutico para ajudar Walter a se expressar, e como ele parece tão ajustado à situação, a família e os colegas de trabalho fazem o possível para se acomodar. De fato, a fábrica de brinquedos que Walter herdou do pai, outrora à beira da falência, volta ao topo com força total depois que ele formula um kit de construção infantil do Senhor Castor.

A esposa lhe permite voltar para casa. O filho caçula adora se comunicar com o fantoche e, através dele, se torna muito mais sociável. Só o mais velho, porém, resiste desde o início a se aproximar do boneco, fechado em seu próprio drama pessoal, em um caso mal resolvido com uma líder de torcida (Jennifer Lawrence, recém-indicada ao Oscar por “Inverno da Alma”). Não demora, contudo, para que o espectador de “Um Novo Despertar” e as pessoas ao redor de Walter percebam que ele, como homem, começou a esvair, e que o castor está tomando gradualmente o seu lugar. De um recurso benéfico, o fantoche passa a uma mania prejudicial e perigosa, com consequências mais sérias do que a premissa levemente irreverente parecia indicar.

Às vezes, parece que o roteiro chega a esses extremos com soluções falsas e nada convincentes. O sucesso estratosférico da empresa de Walter e a sua súbita celebridade, por exemplo, soam forçados – em especial, porque o tempo em que a narrativa se transcorre nunca é bem definido (geralmente, uma edição apressada sintetiza a evolução de Walter no serviço e no lar em um punhado de dias, mas, ao voltar para a subtrama do filho, retomada do exato ponto em que fora deixada, fica a impressão de que se trata simplesmente do dia seguinte).

Mel Gibson é o que atenua a aparente confusão do enredo. Não apenas por sua interpretação correta e matizada, mas também pelo fato do personagem – ou seria personagens? – lhe cair como uma luva. O castor, como explicitou Jodie Foster, é um animal que constrói as coisas e depois as destrói, só para construí-las novamente. Gibson, como homem e como profissional, almejava há muito esse tipo de reconstrução. Não que os erros passados devam ser esquecidos. No caso do protagonista de “Um Novo Despertar”, as cicatrizes não podem ser ignoradas. Mas, da completa destruição, nasce uma nota de otimismo de que, talvez, as coisas não estejam perdidas. Como Jennifer Hudson em “Dreamgirls” (2006) e Mickey Rourke em “O Lutador” (2008), este foi o papel certo na hora certa – e Gibson sequer parece interpretar uma variação de si mesmo.

.:. Um Novo Despertar (The Beaver, Estados Unidos, 2011, Drama). Cotação: B-

One Comment leave one →
  1. 30/05/2011 1:29 am

    Tô muito curiosa para assistir a este filme, não somente por causa do Mel Gibson, mas porque a Jodie Foster é uma diretora interessante.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: