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Rio: Bravo!

09/04/2011

Na animação “Rio”, projeto que o carioca Carlos Saldanha (diretor da trilogia “A Era do Gelo”) nutria há décadas, tudo se converte em homenagem à Cidade Maravilhosa – mesmo os aspectos não tão maravilhosos assim. Entende-se a opção de equipe em limar das praias os vendedores ambulantes, em extinguir das calçadas as rachaduras e em aumentar o fio-dental dos biquinis – opções parecidas à de Jean-Pierre Jeunet ao desaparecer com todas as mazelas de Paris para que a capital francesa não exalasse nada além de charme em “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”.

No caso de “Rio”, a romantização da pobreza e da criminalidade, que também ganham contornos simpáticos e bonitinhos, talvez pudesse ser repensada. Mas não é a intenção do filme fazer justiça social – e nem deveria ser. O roteiro, aliás, se esquiva de uma demagogia que parecia inevitável, mesmo que os protagonistas sejam um casal de pássaros ameaçados de extinção, um convite irresistível para que se levante a bandeira das causas ecológicas. A intenção primordial é honrar a cidade e aquilo que ela e o país têm de mais particular e indissolúvel. E isso o desenho faz muito bem: para os brasileiros, é um deleite; para os estrangeiros, é um cartão-postal em película, que diverte e entretém ao mesmo tempo em que desperta o desejo de viajar para o destino o mais breve possível.

Na trama, a arara Blu (voz de Jesse Eisenberg no original), o último macho de sua espécie, é contrabandeado do Rio para os Estados Unidos ainda filhote, e criado como ave doméstica pela carinhosa Linda (Leslie Mann). A sintonia entre a humana e o bicho de estimação é tanta, e o conforto de um lar aquecido na enevoada Minessota é tão familiar, que Blu nunca sentiu a necessidade de algo mais. Essa percepção vai ser contestada quando o excêntrico veterinário Tulio (dublado por Rodrigo Santoro em inglês e em português) convida-os para uma visita ao Brasil, para que Blu possa acasalar com a última arara azul fêmea de que se tem registro.

Três poréns: primeiro, a domesticação de Blu impediu que ele aprendesse a voar; segundo, a fêmea, Jade (Anne Hathaway), é independente e desapegada, e nem um pouco interessada nas neuroses de seu macho-alfa; e terceiro, um grupo de traficantes de pássaros raros sitiado numa favela está muito interessado nesse par de araras preciosíssimo. A premissa se desdobra a partir daí com uma série de pequenas aventuras (a narrativa é um tanto truncada e nem sempre fluída), culminando num clímax inevitável e muito prazeroso durante o desfile de Carnaval. Há, também, uma quantidade expressiva de coadjuvantes pitorescos – muitos animais, de tucanos a micos, até a cacatua australiana que se compactua com os bandidos (voz de Jemaine Clement), e outros tantos humanos (destaque para um garotinho órfão que substancia as desigualdades).

Não se pode acusar “Rio” de não ter o coração no lugar: a admiração de Saldanha por sua terra ganha forma em cores e texturas de encher os olhos, realçadas por um 3D muitíssimo bem empregado. Trata-se de um salto considerável na qualidade dos trabalhos da Blue Sky, o departamento de animação da Fox – e, a princípio, tem-se a sensação de estar assistindo a um exemplar da Pixar, com um timbre levemente disneyficado. Ainda que o arco central seja plano e previsível, abusando do clichê do casal que se espezinha antes de se entender e se apoiar, percebe-se uma certa originalidade no processo. A novidade, inclusive, estaria garantida só pelo fato do filme ser realizado nessa fase das animações, mais propícia a continuações do que a histórias fresquinhas.

A trilha musical do britânico John Powell, recém-indicado ao Oscar pelo trabalho fenomenal em “Como Treinar Seu Dragão”, tenta amenizar os ritmos brasileiros para torná-los mais digeríveis aos ouvidos desacostumados, e a colaboração do lendário Sérgio Mendes surte um efeito perceptível. A beleza das faixas instrumentais, porém, não se reflete nas letras: apesar de um número de abertura vibrante, no qual pássaros exóticos e saturados de cores recebem um novo dia com samba e cantoria, “Rio” jamais se posiciona como um musical. Por isso, quando o pássaro-vilão entoa uma canção sobre a sua crueldade lá pela meia hora de projeção, o público não pode deixar de sentir estranheza, como se a lógica interna do filme fosse quebrada. A música composta pelo britânico Taio Cruz, ouvida durante uma espécie de rave para pássaros, também destoa do ritmo e tem contra si uma letra fraquíssima.

É a maior crítica que se pode fazer a “Rio”. De resto, quase tudo é desfrutável e honesto, e o final pode ser verdadeiramente emocionante. O mais bacana, no entanto, é a sensação de que a cidade, retratada com um desvelo palpável, é explorada com dois olhares diferentes: o de um estrangeiro que a descobre pela primeira vez e o de um brasileiro que já a conhece e a ama de peito aberto. O cinema hollywoodiano tem seus representantes do primeiro caso, em especial nos filmes de Carmen Miranda, lusitana naturalizada brasileira que transformou sua própria persona em personagem, e no Zé Carioca, que Walt Disney concebeu em nome da política da boa vizinhança. O olhar interno de Saldanha, porém, é inédito e irresistível. Ele se aproveita dessas referências já existentes, mas não se apoia demais nelas. O trabalho foi pesado – e o resultado se vê na tela.

.:. Rio (Estados Unidos, 2011, Animação). Cotação: B+

3 Comentários leave one →
  1. 10/04/2011 4:34 am

    Não me parece ser um salto tão grande, nem técnica muito menos narrativamente, da Blue Sky no histórico de suas produções, muito menos no ramo geral de animações. No entanto, é inegável que há muitas sequências divertidas, fluidas e muito bem ‘dirigidas’ (talvez as aspas não se apliquem mesmo) em RIO. A recriação geográfica e a concepção de ambientes só arrebata quando captada em planos gerais, já que a animação se dedica a contornos leves e pouco rebuscados, o que até chega a funcionar, mas que pouco acrescenta em técnica de animação — nos últimos anos, que eu me lembre, só WALL-E, COMO TREINAR O SEU DRAGÃO e agora RANGO conseguiram esse feito. O arco narrativo é mesmo previsível, simplificado e raso, mas ganha na simpatia dos personagens. O deslumbre do realizador frente ao seu projeto é notável, e talvez isso seja o mais bonito no filme. 6/10

  2. cleber eldridge permalink
    13/04/2011 1:14 pm

    Rs, verei hoje com a minha irmã 8)

  3. 13/04/2011 11:05 pm

    Ainda não assisti a este filme, mas as expectativas estão altas, especialmente por se tratar da primeira grande animação do ano a estrear. Beijo!

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