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Where’s the glory?: Uma Manhã Gloriosa

02/04/2011

Não que haja algo errado em “Uma Manhã Gloriosa” se contentar em ser apenas uma comédia romântica suave e caramelizada, mas escusa-se o público por imaginar que poderia esperar algo mais. Afinal, a mocinha Rachel McAdams é sempre agradável de se ver em cena, a simples presença dos veteranos Harrison Ford e Diane Keaton confere uma nota de credibilidade ao projeto, o diretor Roger Michell (“Um Lugar Chamado Notting Hill”) tem um timbre empático muito forte, e todos os materiais de divulgação pareciam sugerir um programa revigorante e o tipo de filme que os americanos chamam de “uplifting”. Ledo engano: não há um sopro maior de inspiração e um mínimo de esforço para escapar das fórmulas já conhecidas, ou ao mesmo vertê-las conforme a situação requeria.

Na trama, uma jovem produtora (McAdams) empenhada em fazer carreira nos shows matinais da América tem sua grande chance ao ser contratada para levantar a moral de um dos programas mais caídos da categoria. Entre lidar com o executivo da emissora (Jeff Goldblum) e massagear o ego da âncora da atração (Keaton), ela consegue trazer ao programa um jornalista ranzinza, prepotente e multi-premiado (Ford), que é forçado a aceitar o cargo por obrigações contratuais. Enquanto o novo co-âncora contraria cada decisão da equipe, a heroína vai se sobressaindo no emprego e, é claro, descobrindo o amor (Patrick Wilson fica com o papel do interesse romântico).

Há um problema, a princípio, na personalidade da protagonista: ora competente e segura de si, ora atrapalhada e imatura, ela jamais consegue encontrar uma estabilidade, e McAdams, geralmente encantadora, passa o filme todo brigando com o papel sem nunca chegar a um acordo. Mas perdoaria-se esse arco inconstante se tudo o que o rodeasse tivesse um mínimo de consistência – o que também não acontece.

O protagonista masculino carece igualmente de substância, alternando-se entre a completa intransigência e um inesperado calor – e não faz sentido que ele altere o comportamento de uma cena para outra sem justificativas plausíveis, o que faz supor que muitas das decisões foram tomadas não durante a elaboração do roteiro, mas na sala de edição. A única semelhança de Ford com o personagem seria o fato de ele parecer se considerar muito acima do projeto, assim como o jornalista se sente superior às baboseiras e trivialidades pautadas no programa.

Vale a pena dedicar um parágrafo à montagem. Não bastasse transitar entre as cenas utilizando musiquinhas-chave como muletas narrativas, fica a impressão de que as sequências foram filmadas sem um ritmo lógico e inseridas no momento que parecia mais conveniente. Os pequenos quadros do programa, que sempre introduzem Keaton ou o metereologista em situações inusitadas, são o exemplo mais evidente disso: estruturar cenas corriqueiras e jogar trilha por cima é um artifício preguiçoso e digno das séries de TV mais displicentes. E a lógica interna do filme também sai prejudicada em meio a tanta banalidade – vide os instantes isolados em câmera lenta ou câmera acelerada, que soam como um capricho desnecessário e mequetrefe do diretor.

Acordar pela manhã de cara amassada e mau humor é uma das tarefas mais desgastantes do cotidiano de qualquer um. Um filme sobre um programa matutino que encoraja os espectadores a levantarem da cama com o pé direito poderia, portanto, ser uma celebração à vida e ao prazer das pequenas coisas. Mas para quê enveredar por outros caminhos, se o já conhecido é muito mais fácil e seguro? Certo? Errado! “Uma Manhã Gloriosa” foi um fiasco de público e crítica nos Estados Unidos, e não deve alçar vôos maiores no Brasil – inclusive porque a premissa se utiliza de muitos elementos indissoluvelmente americanos. Dessa vez, a sabotagem foi interna.

.:. Uma Manhã Gloriosa (Morning Glory, Estados Unidos, 2010, Comédia). Cotação: D+

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  1. 21/04/2011 4:24 am

    Chega a ser preocupante o descuido e amadorismo em certos (muitos!) pontos do filme. Além da montagem e das canções explodindo na tela sem muita coerência (o aspecto sonoro do filme é irregular, para dizer o mínimo), a direção é totalmente equivocada em estabelecer planos inclinados sem nunca ter qualquer significado, além das escolhas em câmera lenta ou rápida, sempre desnecessárias. E os atores, pobres pessoas: pegaram um rascunho de script no qual basear suas composições. MacAdams não está detestável porque tem carisma, pois, a depender de sua atuação cheia de tiques e exageros, o filme seria intragável. Ah, são tantos problemas… 4/10

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