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Rango: uma graça

02/04/2011

Logo no início da animação “Rango”, um quarteto de corujas prenuncia a morte do personagem-título. Durante toda a projeção, portanto, o espectador acompanha a peregrinação do camaleão Rango já consciente de que ele se encaminha para o calvário. A história, porém, tem muito mais a ver com uma morte simbólica do que com a real – e, aqui, a metáfora “chegar ao outro lado” vai assumir o sentido literal.

É essa reflexão, junta de tantas outras, que torna o primeiro longa animado da companhia de efeitos digitais Industrial Light & Magic tão ou mais aprazível aos adultos quanto é para as crianças. Aos cinéfilos, chega a ser um deleite: as identidades visuais dos reptéis e anfíbios que povoam a narrativa são quase integralmente sugadas de ícones do faroeste, gênero que “Rango” homenageia e subverte, e identificá-las no decorrer da trama é um prazer à parte. Johnny Depp, que dubla o herói no original, é um incentivo adicional, mas a dublagem em português também impressiona pelo nível de profissionalismo. Tudo colabora, enfim, para que o produto final seja de um charme e uma inteligência ímpares.

No enredo, um camaleão criado em cativeiro e metido a filosofices tem o seu mundo virado literalmente de cabeça para baixo quando, num solavanco, seu aquário minúsculo é arremessado pelo porta-malas do carro de seus donos. Sob o sol escaldante da Califórnia, ele vai se afastar da rodovia e se embrenhar no deserto – um ambiente seco e inóspito que já condenou à morte camaleões muito mais experientes. Durante a jornada, o anti-herói se depara com um vilarejo devastado pela falta de água, e graças a uma combinação de sorte e talentos dramáticos, é confundido com um réptil de fibra e promovido a xerife do local. As ameaças, que já não eram poucas, triplicam a partir daí, aumentando a sombra da morte prevista no início.

Em todas as suas opções, a direção de Gore Verbisnki (de “Piratas do Caribe”, fazendo sua estreia no comando de uma animação) é acertada, sensível e humana nas proporções exatas e nos momentos adequados. Da mesma maneira, o roteiro é muito ciente de suas intenções e perfeitamente equilibrado entre uma aventura criativa e um drama intimista de personagem. Tomando o filme por qualquer um desses parâmetros, ele já corresponde a bem mais do que se propôs.

.:. Rango (Estados Unidos, 2011, Animação). Cotação: A-

3 Comentários leave one →
  1. 02/04/2011 7:20 am

    É no centro da procura de RANGO por sua identidade, em buscar ser realmente o protagonista de sua história, que o filme alcança outros níveis em narrativa. O momento em que cruza a estrada, quando a música de Zimmer larga a homenagem à Morricone e busca acordes suaves que lembram o intimismo de Santaolalla, é algo arrebatador. Um caso único de faroeste místicos em animação. Uma jóia.

  2. 03/04/2011 4:01 pm

    achei bem super-estimado, tem umas sacadas muito boas e tal, mas essa onda de Community elevou o filme pra um patamar que ele não é, né? Mesmo assim a trilha sonora é lock pro Oscar e esse talvez seja o representante de animação na categoria de melhor filme, a crítica gostou bastante.

  3. 03/04/2011 9:06 pm

    “Rango” é uma animação muito bem executada, mas eu achei que ela foi feita mais para os adultos do que para as crianças. Em tudo, no roteiro acelerado demais e nas referências. Beijo!

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