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Wagner Moura volta aos cinemas em VIPs

25/03/2011

Wagner Moura tem lugar garantido na história do cinema nacional pelo papel do Capitão Nascimento, um baluarte da direita que deliciava as plateias de “Tropa de Elite” 1 e 2 com as tiradas impagáveis e a intolerância acentuada. Mas, sob esse tipo marcante, está um ator versátil e muito ciente de suas pretensões – alguém, por exemplo, que recusa ofertas atraentes de emissoras de TV em prol de projetos que considera mais interessantes. Projetos como “VIPs”, que estreia agora nos cinemas brasileiros.

No filme de Toniko Melo – consumado diretor de videoclipes e comerciais, mas estreante no comando de longa-metragens -, Wagner está em cena em quase todos os segundos da projeção, e em todos eles está dentro do momento. O que, em se considerando que o personagem é um estelionatário que incorpora identidades alheias ou as cria do zero, não é pouca coisa. Talvez ele já não tenha condições de sustentar o protagonista no auge da juventude – e um infeliz corte de cabelo também não o favorece -, mas é louvável como consegue manter uma unidade na composição, mesmo aonde poderia exagerar e desmunhecar.

A trama foi adaptada de um livro de Mariana Caltabiano, que por sua vez foi escrito numa tentativa de desvendar o presidiário Marcelo Nascimento da Rocha. Durante seus anos na criminalidade, Marcelo foi conhecido por mais de uma dúzia de nomes diferentes. Para sustentar a obsessão por pilotar aeronaves, ele se envolveu com o narcotráfico, e numa sucessão de golpes dissimulados, passou a perna em autoridades, famosos e desconhecidos. Em seu golpe definitivo, se passou pelo filho do dono da companhia aérea Gol e, sob essa égide, festejou o Carnaval em Recife entre ricaços e celebridades, chegando ao cúmulo de ser entrevistado pelo telecolunista Amaury Jr. em rede nacional.

A intenção de “VIPs” não é ser um relato fiel das desventuras de um criminoso, mas um drama de personagem com arco dramático lógico e coerente. Nisso, o filme erra e acerta. Ao se distanciar da realidade, perde a chance de explorar um caso conhecido em todo o seu potencial, desperdiçando as discussões de cunho social, cultural e psicológico inerentes a ele. As nuances fictícias aproximam o enredo do lugar comum e das fórmulas já conhecidas que o roteiro de Bráulio Mantovani, indicado ao Oscar por “Cidade de Deus”, apenas requenta.

Em compensação, o Marcelo do filme tem textura e consistência impossíveis de extrair do Marcelo real, com seus lapsos de memória, testemunhos tendenciosos e narrações espaçadas. É acertada, também, a decisão de rodear o protagonista de cúmplices que, mesmo involuntariamente, são um reflexo transparente dele. O Marcelo que Wagner interpreta construiu sua vida sobre camadas e mais camadas de farsas (o longa tenta preservar algumas surpresas, nem sempre especificando aonde a invenção começa e a verdade termina, mas o artifício não é muito sutil e pode ser antevisto pelos espectadores mais atentos). Mas não é preciso ser mitômano, tampouco recorrer à ilegalidade, para construir um personagem e assumi-lo para si: que o digam os coadjuvantes que disfarçam hipocrisias com sorrisos e conversas rasas.

Chegar a essa compreensão e encontrar um ponto de relação com Marcelo implica numa inevitável humanização dessa figura, mas não a ponto de escusar seus delitos. Trata-se uma reflexão para o público levar consigo. E aqueles que não encontrarem tanto sentido no conteúdo – porque nem sempre o filme quer dizer alguma coisa -, ao menos podem considerar “VIPs” uma diversão de bom tamanho.

.:. VIPs (Brasil, 2010, Thriller). Cotação: B-

One Comment leave one →
  1. 25/03/2011 10:37 pm

    Vou assistir a este filme neste final de semana. Acho curiosa a premissa, o que transforma este filme numa espécie de “Prenda-me se for capaz” nacional. Só não acho que o resultado obtido aqui tenha sido parecido com o do delicioso filme do Spielberg, né???

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