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Em Um Mundo Melhor, vencedor do Oscar de filme estrangeiro

01/03/2011

Como costuma acontecer com os vencedores do Oscar de Filme Estrangeiro, “Em Um Mundo Melhor” não é um retrato indissolúvel de seu país, mas uma abordagem universal de uma situação comum. Na trama, Christian se muda com o pai da Inglaterra para a Dinamarca depois de perder a mãe para o câncer. No processo de adaptação entre a nova casa e a escola, nasce uma amizade instantânea com Elias, um colega de classe franzino e dentuço, vítima de constantes perseguições no colégio. Pela convivência, Christian se torna, ele também, um alvo do bullying – mas, ao contrário de Elias, não vai aturar as provocações de cabeça baixa. Com uma bomba de bicicleta e uma faca, espanca o ameaçador e promete matá-lo caso seja intimidado novamente. Elias presencia o incidente, mas corrobora com a versão amena de Christian para que não hajam indiciações. A partir daí, a cumplicidade entre os dois se torna inabalável. E o que mais esse círculo de confiança poderia encobrir?

O pai de Elias, dividido entre o lar e a África, aonde presta assistência como médico sem fronteira, tenta ensinar ao filho que a violência, ainda que seja o instinto mais urgente, não soluciona nenhum problema. Segundo ele, só recorre à força quem é ignorante o bastante para não resolver as diferenças na base da conversa; revidar um tapa gratuito seria o mesmo que se igualar ao baixo nível de quem o desferiu. Mas como oferecer a outra face e resistir ao impulso de reagir? Esse conceito será posto à prática quando Christian e Elias, junto do irmão caçula do segundo, presenciam o doutor apanhando de um brutamontes, no que começa como a resolução amigável de um conflito entre as crianças no parquinho. O doutor se esforça para permanecer uma referência moral, no papel de um pai responsável disposto a incutir os valores na prole. Christian e Elias, não satisfeitos, passam a investigar o agressor – ora, se a violência botara fim às intimidações na escola, por que não faria o mesmo fora dela?

Como uma bomba-relógio, o enredo de “Em Um Mundo Melhor” parece encaminhar para um desfecho trágico, arrebatador e inevitável. O clima de tensão que advém da relação entre os garotos é palpável, e seus sentimentos de raiva e indignação são facilmente compartilhados pelo espectador. Caso o foco fosse fechado nessa circunstância específica, o filme atingiria uma voltagem irreparável. Mas, em se tratando de um trabalho de Susanne Bier, era de se esperar que muito do potencial ficasse diluído em fórmulas fáceis. Bier é uma das cineastas femininas mais difundidas mundialmente, mas seus projetos – desde os que realizou como integrante do movimento Dogma 95, iniciado por Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, até os mais regrados e convencionais que se sucederam – carecem de sustância.

Afeita ao melodrama e a uma linguagem mais própria das novelas da Globo que do cinema, ela tende a suavizar o que pode e a transformar os desvios narrativos em catarse. Assim, o trauma de Christian pela morte da mãe, o divórcio dos pais de Elias – abordado da perspectiva do casal – e toda a porção africana ganham um peso descomunal que prejudica o ritmo e o impacto da trama central (e as cenas na África soam, ainda, um quanto demagogas). O timbre de Bier é também sentido no desfecho, mas isso não chega a ser desfavorável. Com uma conclusão positiva e bem menos irremediável do que sugeria, a diretora se esquiva do choque e do pessimismo e reforça a sua convicção num certo modelo de humanidade, que o ótimo elenco, e os dois excelentes atores-mirins à frente dele, conseguem ilustrar à perfeição. O resultado é o mais palatável dos finalistas estrangeiros ao Oscar – o que explica sua vitória no último domingo – e o que tem mais facilidade para agradar as plateias internacionais – inclusive a brasileira.

.:. Em Um Mundo Melhor (Haevnen, Dinamarca, 2010, Drama). Cotação: B+

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  1. 01/03/2011 11:06 pm

    Espero ter a chance de conferir este filme.🙂 Beijo!

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