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Cópia Fiel é a melhor atuação de Juliette Binoche

24/02/2011

Poucas atrizes transbordam de um encanto tão genuíno como a francesa Juliette Binoche. Aos 46 anos, dona de uma beleza cândida que só tem maturado com a idade e de um perfil indissoluvelmente europeu, ela se firmou como uma das artistas mais interessantes de sua geração e continente. Com “Cópia Fiel”, foi eleita a Melhor Atriz no Festival de Cannes do ano passado, completando a trinca dos festivais mais importantes do mundo (tinha sido premiada anteriormente em Veneza por “A Liberdade É Azul” e em Berlim por “O Paciente Inglês”, que posteriormente lhe renderia o Oscar). “Cópia Fiel” é, também, a sua performance mais emblemática – o que, em se tratando dela, não é pouco.

Não é, porém, um trabalho exibicionista, calculado friamente para chegar ao radar das premiações. É, ao contrário disso, um desenvolvimento inteligente e perspicaz de uma personagem inserida numa trama nem sempre convencional. A princípio, o filme parece repetir as fórmulas de “Antes do Amanhecer” e “Antes do Pôr-do-Sol”, os romances poéticos de Richard Linklater, nos quais Ethan Hawke e Julie Delpy passeavam por cenários fotogênicos trocando filosofias de vida. Assim como aqueles, “Cópia Fiel” apresenta uma troca constante de diálogos entre dois personagens que se identificam e se estranham pela maneira que encaram o mundo – Binoche como uma francesa radicada na Itália, e William Shimell, consagrado cantor de ópera na vida real, como um ensaísta que a fascina e a desafia intelectualmente.

Os dois se conhecem numa sessão de autógrafos do novo livro dele, que pondera os limites entre a arte original e o pastiche, e marcam um passeio pela vila de Lucignano, aonde visitam museus e apreciam a paisagem. Mas o roteiro reserva uma reviravolta: confundidos por marido e mulher em certo ponto do dia, os dois não desfazem o engano e passam a agir como um casal de longa data, corroído pelas decepções dos muitos anos de uma relação estagnada. Durante as horas restantes na companhia um do outro, ambos tentarão recuperar o afeto mútuo através de pequenos gestos e atitudes. Naturalmente, quando o enredo envereda por esse caminho surrealista, o espectador é acometido por uma sensação de estranheza – inclusive porque nada antecipava essa decisão.

No entanto, considerando os temas de autenticidade e falsificação que ponderam o encontro, esse artifício narrativo se prova funcional e enriquecedor. Como um casal fictício, os dois são mais reais que seus “eus” de verdade, quando escondem suas intenções num véu de formalidades. Shimell, para a pouca experiência que tinha como ator, é uma grata surpresa. Já Binoche, potencializando o vasto repertório e os trejeitos mais marcantes de sua personalidade, atinge o sublime. O resultado é um desses casos raros em que uma grande performance vem atrelada a um filme que é, também ele, grande. Nada se sobrepõe: todos trabalham em conjunto para extrair da história a sua essência primordial.

.:. Cópia Fiel (Copie Conforme, França, 2010, Romance). Cotação: A+

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  1. 24/02/2011 10:46 pm

    ADORO Juliette!! Veria este filme somente por causa dela, mas com estes seus comentários, fico mais animada!🙂

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