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Santuário: Seria o 3D um blefe?

12/02/2011

No ano passado, Roger Ebert, o crítico de cinema mais influente dos Estados Unidos, escreveu um manifesto contra o uso de 3D nos lançamentos comerciais – não pela banalização da tecnologia, que vinha sendo empregada pelos estúdios em fitas que não requeriam esse suporte apenas para engrossar o custo dos ingressos, e sim pelo fato de que ela em nada favorecia o tratamento da imagem. A Ebert se juntaram outros profissionais de renome – incluindo diretores de fotografia, as sumidades no assunto – alegando que o espectador estava (e ainda está) sendo logrado: paga mais caro para ver um filme em qualidade inferior. Obviamente, a indústria quer reprimir o backlash de qualquer maneira. O 3D é, afinal, a sua arma mais concreta contra a pirataria – aquela sensação exclusiva das salas de espetáculo, que não pode ser reproduzida em casa numa cópia de baixa definição.

Para a defesa, a técnica é necessária para alçar filmes à condição de experiência. Se a acusação carecia de provas para estruturar seu caso, porém, tem uma evidência ideal em “Santuário”, em cartaz nas salas brasileiras desde sexta-feira passada. Tridimensionar essa aventura submarina é quase um desrespeito ao público pagante. Há alguns truques básicos de objetos avançando para a plateia e sequências que ganham textura, mas, em geral, a apreciação fica comprometida: algumas cenas escuras se tornam quase indistinguíveis com os óculos, e outras resultam embaçadas a ponto de não se conseguir delinear o que está sendo filmado. Mesmo nas salas IMAX, alardeadas como a maior definição do mundo, o 3D não surte efeito. Apenas distrai do desenvolvimento da trama, que não é lá muito elaborada para começo de conversa: exploradores são soterrados a centenas de metros da superfície durante uma expedição nas cavernas de Papua Nova Guiné – algumas tão profundas que permanecem desconhecidas.

Os personagens são arquétipos – há um pai e um filho que se desentendem e também um casal de namorados – e o roteiro não os incrementa a ponto da plateia se importar com seus destinos. Mas a indiferença não se estende à claustrofobia. Os herois tentam orquestrar uma fuga pelo subterrâneo estreito e labiríntico, mergulhando por espaços escuros e apertados com luz e tanques de oxigênio cada vez mais escassos, enquanto lutam intimamente para controlar o pânico e o desespero. Naturalmente, acompanhar uma jornada nessas condições provocaria tensão e sufoco a qualquer um. O 3D, em sua capacidade de trazer o filme para o espectador e englobá-lo por completo, deveria potencializar essa impressão – mas não o faz.

Ironicamente, James Cameron, louvado por levar a tecnologia ao ápice com “Avatar”, empresta o nome e o prestígio ao projeto, realizado inteiramente na Austrália, com diretor e elenco desconhecidos (o único moderadamente famoso é Ioan Gruffudd, de “Quarteto Fantástico”). As mesmas câmeras criadas sob medida para “Avatar” foram reempregadas aqui, com sucesso bem mais discutível. Talvez a inexperiência da equipe deva ser levada em consideração, mas, para os detratores do 3D, “Santuário” é o exemplo que eles aguardavam para desacreditar de uma vez por todas essa inovação cinematográfica.

.:. Santuário (Sanctum, Austrália, 2011, Aventura). Cotação: C-

5 Comentários leave one →
  1. 12/02/2011 5:36 am

    Eu considero esse problema na qualidade da imagem exibida em filmes capturados em 3D (porque são esses que importam, não os convertidos) o principal dos que são apontados pelos contrários à técnica. Aliás, AVATAR inclusive sofreu com isso (reflexos, falta de foco, cenas mais escuras). Ou isso melhora ou a ‘experiência’ se resumirá a objetos avançando na plateia como forma de diversão.

  2. 12/02/2011 10:51 am

    falei que 3D é uma bosta.

  3. 15/02/2011 2:36 am

    Este filme, definitivamente, funcionaria melhor em 2D. Achei que, com 3D, a caverna ficou superdimensionada e não causou o efeito claustrofóbico que a história pedia… Mas, “Santuário” até que é um filme sólido!

  4. 22/02/2011 6:39 am

    Assisti em 2D e, Deus!, dublado. A trama é rasa como se esperaria, mas há alguns momentos razoáveis ali. Certas cenas parecem chupadas, em estilo, de AVATAR. Até a trilha sonora, para mim a melhor coisa do filme, lembra as composições de James Horner para o filme de Cameron. Ser produtor não deveria significar isso. Enfim, dei 4/10.

  5. Lucas Alves permalink
    23/02/2011 6:57 pm

    Oi Louis!

    Então… Eu sou muito leigo para opiniar a respeito do 3D. Mas, parece que é uma tendência inevitável.

    Mudando de assunto… Você pretende postar suas apostas para os vencedores do Oscar? Bem, será legal se você postar.

    Abraços!

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