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O brasileiro Malu de Bicicleta

08/02/2011

Em entrevista à Playboy na época do lançamento de seu livro “Malu de Bicicleta”, Marcelo Rubens Paiva comentou que, depois de atingir a marca dos 40 anos – idade em que, segundo ele, os autores celebrados conceberam suas obras mais superlativas -, sentia-se preparado para adentrar numa fase de fortalecimento criativo. “Malu” serviria como o pontapé inicial. No romance, Luiz é um mulherengo convicto que, após uma coleção de conquistas amorosas, adquiriu o tom de “ouvir” o que as zonas erógenas femininas têm a dizer. Entre a sucessão de peitos, bundas e vaginas falantes, porém, vem a descoberta de uma paixão avassaladora.

Ele, um paulista de férias no Rio, é atropelado por Malu, uma carioca desinibida que pedala diariamente pelo Calçadão. O encontro acidental se transforma em conversa, em chamegos e finalmente em sexo. A assimilação de que os dois necessitam da presença um do outro e a eventual mudança da moça para São Paulo para ficar junto dele vêm em ritmo acelerado. Mas, para Luiz, que nunca cultivara sequer um namoro, passar direto ao casamento sem uma experiência intermediária não será tarefa fácil. Seu amor por Malu é incondicional e indiscutível, mas vem atrelado a um turbilhão de sentimentos conflitantes que ele desconhece. Como nunca estivera num relacionamento, não desenvolvera um filtro interior para admoestar o ciúme e a possessividade. Logo, suas suspeitas e paranoias levarão o casal a um ponto crítico.

Transformado em filme pelo cineasta Flávio Ramos Tambellini, “Malu de Bicicleta” funciona a priori como um veículo para seus atores, Marcelo Serrado e Fernanda de Freitas. Ambos podem não ter grandes oportunidades na televisão (ela tem o agravante de ser parecida com Débora Secco), mas exercitaram o talento no teatro por tempo o suficiente e agora, munidos de bons personagens no cinema, tem a chance ideal de brilhar. Apesar da situação não ser inédita, é tão familiar e ambientada num cenário tão próximo do público – em especial, aos que vivem se deslocando pelo eixo Rio-SP – que acaba por conquistar. Afinal, quem nunca se afligiu pelas mesmas angústias? Quem jamais renunciou a aspectos de si mesmo em pró de uma relação?

O amadurecimento do protagonista não é estranho a Rubens Paiva: seu livro mais famoso, “Feliz Ano Velho”, era uma reflexão bem humorada sobre as sequelas irremediáveis de sua adolescência inconsequente, sendo a mais grave delas o acidente que o deixou paraplégico. Essa fatalidade, ao invés de destruí-lo, ajudou-o a se construir. Para Luiz, o processo de humanização também virá às duras penas: ele é uma cria dos centros urbanos, aonde os adultos crescem a passos de cágado, demoram a perder os hábitos juvenis e chegam aos 40 com a mesma mentalidade dos 20. Recuperar o tempo perdido é difícil e doloroso, mas, a custo de alguns sacrifícios pessoais, perfeitamente possível. O filme, roteirizado pelo próprio Marcelo e embrenhado na essência do autor, é daqueles que merece ser visto e, em seguida, vivido.

.:. Malu de Bicicleta (Brasil, 2011, Comédia / Romance). Cotação: A-

5 Comentários leave one →
  1. 10/02/2011 12:59 am

    Vivido? Deus me livre! Dei-me conta ao longo do filme que sou uma espécie de Luiz e fiquei desesperado.
    Não curti muito o filme, apesar de ser agradável. Não gostei como as coisas se deram no último ato – quase implausível aquele último acontecimento – e acontecimentos como aquele cara que chega falando que foi traído pela mulher por causa do Luiz e tal também não agradaram, soa bobo, desnecessário. E isso é bobagem, mas usarem locações no Rio – como o cinema e o espaço utilizado pelo personagem para seu negócio – como se estivessem em São Paulo me incomodou horrores.

    Daria C+.

    []s!

    • 10/02/2011 1:52 am

      Jeff, sim, vivido! Você se identificou com Luiz e certamente não foi o único. Os personagens são tão palpáveis e verdadeiros que seus dilemas serão vividos eventualmente pelo público – que, se fizer bom proveito do filme, pode aprender algumas lições para empregar na sua vida pessoal (embora a função do roteiro não seja pregar o padre-nosso). Sobre os rumos do roteiro, não vejo problemas gritantes. Acho louvável os paralelos que traça com Dom Casmurro, obra que Machado de Assis escreveu numa fase similar a de Marcelo Rubens Paiva: narrativa pela perspectiva do homem paranoico e ciumento, a figura feminina com um quê de mistério e várias lacunas que não são preenchidas. Porém, esse aqui termina numa nota mais positiva e num timbre bastante empático. Em relação ao marido traído, a sua reaparição próxima ao final impede que a sua cena seja gratuita e isolada, além de justificar a existência de uma outra personagem e de servir como um ponto marcante da catarse de Luiz. Sobre as locações, não vejo porque filmar internas numa cidade ou outra faria diferença😉

      Abraço!

      • 13/02/2011 1:28 pm

        Então eu diria que o filme não merece ser vivido, mas poderá ser – e certamente será, porque também o acho bastante humano e verdadeiro – vivido. É sério, rapaz, se dar conta de sua semelhança com o Luiz não é um trunfo para pessoa de ninguém. Engraçado que pelo trailer, sabe lá por quê, eu jurava que ela havia traído ele e fiquei esperando isso no filme. Quando terminou, veio a luz.
        O que não gosto muito do final é a relação que rapidamente se estabelece entre o Luiz e o personagem da Marjorie, por mais que a situação fosse propícia. Ela liga, diz que quer conversar com ele sobre a Malu – o que não acontece -, e pimba, chega na casa com flores e tudo. Se eles tivessem falado algo mais que “Você tem fogo?” ao longo da projeção, o final poderia melhor que em “História de Amor Duram Apenas 90 Minutos”, valorizado ainda por um personagem que mal – mal não, simplesmente não – conhece o amor e o relacionamento.
        Sim, entendo a função daquele personagem, mas mesmo o filme não sendo longo, me senti às vezes casado, então eu tenho que inventar maneiras de diminuir o tempo. xD Sem contar que… Você suspeitou que a Malu estivesse com ele? Isso não passa pela cabeça de ninguém. Mas é importante para o conflito do Luiz, reconheço.
        Eu avisei que o problema com as locações seria pura bobagem. hehe E é, não nego. Mas eu sou do Rio, estava vendo o filme no cinema que aparece na tela! E eles lá, como se estivessem em São Paulo. Não torna o filme pior, foi apenas um incômodo.

        []s!

      • 15/02/2011 2:45 am

        Jeff, disse que o filme merece ser vivido porque, por mais que a situação não seja agradável, ela impulsiona um amadurecimento a duras penas. E não é passando por essas coisas que nós saímos enriquecidos? Abs.

  2. 27/03/2011 5:54 am

    Gostei do filme — da atuação da Fernanda de Freitas, especialmente –, mas também concordo com as ressalvas que o Jeff expôs sobre as artimanhas do roteiro lá pelo terceiro ato. É um filme pequeno e simples em produção, mas simpático e envolvente. E, mais uma vez, nunca é demais elogiar seus textos maravilhosos.😀

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