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Eu Sou o Amor

06/02/2011

Na sequência inicial de “Io Sono L’Amore”, o patriarca de uma família calcada em tradição celebra o aniversário ao lado de esposa, filhos, noras, genros e netos. O fato de que são italianos não se reflete numa festa alegre, efusiva e barulhenta, como costuma acontecer nos retratos habituais desse tipo de clã. Trata-se, pelo contrário, de um jantar quieto e formal, que os Recchi, gente podre de rica, encaram com o decoro que parecem ter cultivado durante toda a existência. Em algum ponto da noite, o Recchi-pai, magnata da indústria têxtil que se esquivou da aposentadoria até o limite do possível, irá nomear seu sucessor. Não se esperava, no entanto, que ele fosse dividir o cargo máximo de seu império igualitariamente entre o filho e o neto – apesar desse último estar mais interessado em abrir um restaurante com o amigo, um chef bastante promissor.

A ênfase oscila entre os personagens durante todo o primeiro ato, indicando uma trama de múltiplas perspectivas. A partir do segundo, contudo, o foco vai se endireitar em um deles: Emma, mulher e mãe dos dois herdeiros, respectivamente. Russa naturalizada na Itália (e interpretada pela inglesa Tilda Swinton, que compensa a barreira do idioma com expressividade ímpar), Emma divide seu tempo entre passeios, visitas de cortesia e eventos sociais. Culta e elegante, a personagem é, na superfície, o símbolo imaculado daquele cânone: por fora, é o epítome da sofisticação; por dentro, é tão oca e vazia quanto os aposentos altos e enormes que a rodeiam. Em seus estratos, conserva também uma fome por novos prazeres e sensações. Quando conhece o cozinheiro sócio de seu filho e percebe que ambos se desejam mutuamente – um interesse sugerido pela culinária e concretizado pela alcova –, Emma se entrega a uma paixão bucólica, sem prever que o caso propulsionaria uma degradação intensa do núcleo familiar.

Luca Guadagnino, diretor, roteirista e produtor do filme, é um auteur no sentido literal da palavra – aquele cineasta que converte todas as facetas do processo em pró de sua visão criativa. A fotografia, por exemplo, enquadra tanto a arquitetura glamurosa de Milão quanto os campos aprazíveis de Nice como se emoldurasse a serenidade e a ordem da Itália católica, valores que o roteiro, amparado por uma trilha sonora crescente, contesta ferozmente. Aqui, as ideias que se têm da própria sociedade, expostas no começo comportado e silencioso, não condizem com as atitudes dos personagens e com o desfecho auricular e arrebatador que elas ocasionam. O amor do título, em sua voltagem indissoluvelmente italiana, é um ponto de referência pertinente. Como preservar uma fachada depois de comedido pelo mais letal e irracional dos sentimentos? Guadagnino não sabe. O público, muito menos – mas vai levar a reflexão consigo.

.:. Io Sono L’Amore (Itália, 2009, Romance). Cotação: A+

2 Comentários leave one →
  1. 07/02/2011 11:13 pm

    Quero muito assistir! Só leio elogios!! Beijo!

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