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Revendo A Rede Social

05/02/2011

Mark Zuckerberg tinha apenas 19 anos quando, em 2003, patenteou o Facebook – então chamado The Facebook – como uma rede social exclusiva para universitários, seleta inicialmente à Harvard, um campus sustentado por tradição e riqueza que ele freqüentava há dois semestres, e depois expandida para outras universidades do mesmo porte e prestígio. É de conhecimento geral que o site cresceu para além de seu propósito inicial. De um continente, passou para dois, depois para três, então para quatro e finalmente para todos os cinco. Sua funcionalidade foi aperfeiçoada, seu público-alvo foi alargado e a intenção de condensar as experiências sociais no meio virtual foi potencializada.

Hoje, mais de 500 milhões de membros estão registrados no domínio, uma porcentagem assombrosa da população mundial. O Facebook em si está avaliado em 25 bilhões de dólares, sete dos quais exclusivos de Zuckerberg, o acionista majoritário e o mais jovem bilionário de que se tem notícia. Acompanhar o processo de criação e a escalada ao sucesso nunca deixa de ser interessante – mas não é especialmente atraente para o espectador leigo testemunhá-lo escrevendo as milhares de linhas de código que compuseram o site, tampouco a sua personalidade retraída possibilita demonstrações efusivas de um estilo de vida luxuoso e excessivo – afinal, ele é compenetrado, anti-social até a raiz dos cabelos, só bebe diante do computador, não usa drogas, despreza festas grandes e não abre mão do moletom folgado e dos chinelos da Adidas.

Que “A Rede Social” tenha encontrado fascínio numa situação tão desfavorável é apenas um dos incontáveis méritos do longa de David Fincher. Adaptado por Aaron Sorkin, roteirista consagrado da televisão americana, a partir de um livro de Ben Mezrich (“Bilionários Por Acaso”, publicado no Brasil pela editora Intrínseca), o filme se posiciona como um registro atual e inebriante da sociedade contemporânea. Aqui, a tecnologia é reconhecida como uma extensão das necessidades das pessoas, e por isso suscetível a vícios e dependências. Para conhecer os que estão por trás dela – aqueles que percebem as tendências antes mesmo delas serem sugeridas e desenvolvem soluções para ampará-las –, Fincher se utiliza dos formatos de crônicas corporativas e dramas de tribunal, mas os subverte numa narrativa engenhosa e diferenciada que, na busca pelo cerne da questão, jamais especifica uma única verdade.

Zuckerberg (Jesse Eisenberg) certamente não teria chegado aonde chegou não fosse pela conjugação felicíssima de oportunidade e inteligência. Porém, de acordo com os gêmeos Tyler e Cameron Winklevoss (ambos interpretados por Armie Hammer, com Josh Pence como dublê de corpo), Mark sequer perceberia essa brecha caso eles, que contratavam programadores para desenvolver uma rede social similar, não tivessem lhe apresentado a ideia. Ambos o conheceram depois que Mark derrubou o servidor de Harvard com a criação de um site chauvinista, no qual as garotas da universidade, cujas fotos foram obtidas ilegalmente por Zuckerberg nos portais dos dormitórios, eram avaliadas pelos seus atributos físicos – detalhe: o site fora construído em questão de horas, enquanto Mark, bêbado e enfurecido por ter sido dispensado pela namorada, direcionava a frustração para o computador. A polêmica da empreitada não transformou Zuckerberg no queridinho do campus – particularmente entre as mulheres, que se sentiam insultadas pelo uso inapropriado da imagem –, mas evidenciou seu potencial para os Winklevoss.

Rapazes atléticos de família podre de rica, eles desconheciam a derrota e a irrealização. Viam o Facebook como roubo de propriedade intelectual, uma afronta inescusável. Para Mark, sua única reunião com os gêmeos não representava nada: via a criação de uma rede social como puro raciocínio lógico e, uma vez que não utilizou nenhum dos códigos que os Winklevoss dispunham, supôs que se precavera de qualquer contravenção. Ledo engano: após a disseminação do Facebook, os Winklevoss, juntos do sócio Divya Narendra, abriram um processo feroz contra Zuckerberg. Mas não seria a única complicação legal que ele enfrentaria. O melhor (e único) amigo, o brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield), que proveu Zuckerberg com o capital inicial e era creditado como co-fundador da empresa, também tomou medidas legais depois que suas ações foram drasticamente reduzidas durante a expansão. A entrada do bon vivant Sean Parker (Justin Timberlake) para o time ajudou a intensificar o mal estar – afinal, mesmo tendo experiência na área (fundara a Napster, que popularizou o download caseiro de músicas e levou as gravadoras à crise irremediável), Sean não era precedido pela melhor das reputações.

É através dos interrogatórios para os dois processos paralelos que “A Rede Social” esquematiza o enredo. As perguntas ecoam nas cenas e elas pendem para a visão de quem as está narrando. Trata-se de um jogo apuradíssimo e de uma conquista coletiva de edição, roteiro e direção: o dinamismo mantém o público interessado e o ritmo fluido e acelerado é adotado inclusive pelos diálogos, esculpidos por Sorkin com rima e elegância ímpares. Os personagens disparam suas falas à velocidade da luz e é por meio delas que eles evocam seus estados de espírito. Da platéia se espera o mesmo nível de sagacidade, e o que se encontra nas sessões são espectadores engajados e agarrados a cada palavra. Ao final, fica claro que não há uma verdade absoluta: cada versão dos fatos é real aos olhos de quem vê. Mas as personalidades de cada um são sólidas, bem definidas e imutáveis, independente do ponto de vista.

Dessas, Zuckerberg é, obviamente, a mais deliciosa de desvendar. O texto é esperto o bastante para enxergá-lo por trás da mítica e deduzi-lo ao seu aspecto elementar: um nerd com problemas de convívio social que se empenha para colocar nos termos que conhece aquilo não possui num plano real. Seu talento excepcional para um nicho, no entanto, não o priva de sentimentos reles e mundanos – vide, por exemplo, a inveja pelo amigo selecionado para se juntar a uma fraternidade, honra de que ele desdenha simplesmente porque não lhe coube. O brilhantismo também não compensa pela imaturidade a tudo mais que lhe diz respeito. A se observar o humor cortante com que se defende, e a maneira como se espelha em Sean Parker para definir seu perfil de empreendedor e homem de negócios, mais a desolação silenciosa quando o colega revela suas cores verdadeiras. Sutilezas como esta são mais sugestivas do que muita construção de personagem didática e mastigada.

Jesse Eisenberg, um ator característico de potencial bruto, atinge uma voltagem surpreendente no papel. Ele responde a uma das oito indicações ao Oscar que o filme recebeu, e a única para um membro do elenco (embora os demais integrantes, pela força coletiva e individual, também sejam dignos de prêmio). A compreensão formidável que Eisenberg, Fincher e Sorkin têm do protagonista e do contexto em que ele está inserido basta para transformar “A Rede Social” num dos grandes filmes do ano. Tudo mais que está incluído no pacote – a trilha minimalista, a fotografia densa, as caracterizações fidelíssimas – alia-se à proposta do trio para garantir que este seja, de fato, o fruto mais notável do cinema americano nessa temporada.

.:. A Rede Social (The Social Network, Estados Unidos, 2010, Drama). Cotação: A+

3 Comentários leave one →
  1. Tiago permalink
    06/02/2011 1:24 am

    Não render o Oscar de melhor filme é pura injustiça! De longe o melhor do ano, e pior do que tudo isso é lá para frente colocarem o filme acima de tudo e de todos, até mesmo do filme que parece querer roubar o prêmio – a.k.a The King’s Speech.

  2. 06/02/2011 8:11 pm

    Adoro esse filme. Acho o ápice do cinema sóbrio e competente do David Fincher. Fora que é um grande estudo de personagem e, claro, um estudo também sobre empreendedorismo, vontade de vencer e pioneirismo – todas características que a sociedade norte-americana valoriza. Tirando a direção do David Fincher, destaco por completo o excelente elenco de atores jovens e, principalmente, o roteiro verborrágico do Aaron Sorkin! Beijo!

    • 07/02/2011 8:29 am

      Tiago, pois é. A crítica e o público estão inconformados com a possível derrota de A Rede Social no Oscar. Caso perca, O Discurso do Rei vai pagar caro, muito caro, e a longo prazo.

      Ka, um comentário que sintetiza perfeitamente o porquê desse filme ser tão emblemático! Fico feliz de vê-la entre os admiradores. Beijo🙂

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