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Black Swan: bitch is crazy!

04/02/2011

Em “Cisne Negro”, o novo e fantástico trabalho de Darren Aronofsky, uma das companhias de ballet mais prestigiadas de Nova York prepara uma remontagem de “O Lago dos Cisnes”, um drama em quatro atos musicado pelo compositor russo Tchaikovsky em 1876 e encenado em infindáveis versões ao longo das décadas. No entanto, a bailarina mais antiga da casa (Winona Ryder), protagonista de todas as suas produções de grande porte, está se aposentando – muito a contragosto, como evidencia ao destruir o camarim num rompante. O diretor do espetáculo (Vincent Cassel), um francês genioso e impetuoso, notório por descobrir, modelar e projetar talentos desconhecidos, anuncia que, como a vaga principal ainda está em aberto, escalará uma das novatas do elenco de apoio para o papel duplo de Rainha dos Cisnes.

Nina (Natalie Portman), uma jovem bailarina contida e precisa que literalmente vive em função da arte, sabe o quanto conseguir esse papel significaria para a carreira. Sabe, também, que não terá outra oportunidade parecida, e sua vontade e motivação para ser aprovada, expressas através dos olhos trêmulos e ansiosos, são palpáveis para o espectador. A dualidade, nesse caso, é clara: Nina possui graça e lirismo de sobra (o que os mais céticos denominavam de frigidez pelas suas costas), de modo que carregaria sem esforço o papel do Cisne Branco (na ficção, uma donzela enfeitiçada que só à frente do amor verdadeiro seria revertida à forma humana). Já a parte do Cisne Negro, a gêmea sombria e mal intencionada da heroína, Nina não conseguiria sustentar. Num extremo oposto, o Cisne Negro exigiria menos técnica e mais garra, selvageria e desapego. Mas como fazer uma garota criada à risca por uma mãe superprotetora (Barbara Hershey) se libertar das amarras que a guiaram durante toda a existência?

O diretor, para quem a linha do profissionalismo é no mínimo tênue, a aconselha a se masturbar “para se soltar um pouco”. Nina até tenta seguir o conselho, com resultado desastroso e hilário, mas acaba descobrindo uma válvula de escape muito mais eficaz: basta intensificar os vínculos com Lily (Mila Kunis), uma bailarina recém-chegada que, por definição, é tudo o que Nina não é, para que ela escape do estupor habitual. Lily, entrosada, livre e desbocada, faz com que Nina abrace pela primeira vez a lugubridade que reprimia nos extratos mais profundos de sua personalidade. É o que confere a “Cisne Negro” o escopo e a força de um suspense psicológico que se equipara aos melhores do gênero – mais claramente, aos que Roman Polanski realizava em sua fase de maior transtorno pessoal e fertilização criativa.

Não é como se o lado tétrico não tivesse tentado burlar a prisão: Nina é assombrada por visões – algumas envolvendo ela mesma vista num corpo exterior -, e mais do que ocasionalmente aparece com machucados que não tem nada a ver com o rigor com que pratica as coreografias. Além dos calos inevitáveis nos pés, tem a cutícula dos dedos das mãos horrivelmente inflamadas e arranhões lhe cobrindo as costas. Para todos os efeitos, os machucados foram causados por ela mesma, que tem o tique de se coçar – costume que a mãe tenta erradicar lhe aparando as unhas com a tesoura. Mas, em outros casos, as feridas acabam se provando puramente imaginárias: basta ela lavar a mão ensangüentada, por exemplo, para que lhe sarem os dedos em carne viva!

Vale dedicar um parágrafo à relação de Nina com a mãe, que constitui um dos pontos mais interessantes e escabrosos do filme: depois que deu à luz, a mulher abdicou da própria carreira no ballet e hoje se converteu numa artista frustrada que tenta atingir os sonhos não-correspondidos através da filha. A rigidez que a garota encontra em casa é evidente, e Nina parece pisar em ovos sempre que na presença da matriarca. Em teoria, é o mesmo tipo de relação fechada, incomum e doentia que a personagem de Isabelle Huppert nutria com a mãe em “A Professora de Piano” – o que pode ou não ser coincidência. “Cisne Negro” é similar ao filme de Michael Haneke em vários aspectos: ambas as protagonistas são comprometidas com a arte, ambas apresentam distúrbios psicológicos, e ambas vivenciam situações cotidianas e banais como se fossem eventos suplicantes e marciais.

Nos dois casos, as atrizes entregam desempenhos sensacionais. Assim como Huppert é uma exímia pianista, Portman é uma bailarina proficiente que convence por completo nas sequências de dança – mas é mesmo no alcance dramático que ela faz a diferença, capaz de transitar da garota inocente e infantilizada do início, cujo quarto é carregado em cor-de-rosa e lotado de bricabraques, até a mulher descontrolada e incapaz de discernir a realidade dos delírios (aliás, nem sempre especificar aonde um começa e o outro termina é um dos maiores acertos do roteiro, escrito a seis mãos por Mark Heyman, Andres Heinz e John McLaughlin). Portman está em cena em cada segundo de projeção, e não desperdiça nenhum deles: quanto mais a história avança, mais intrigante, complexa e matizada se torna a composição – sem, contudo, que a personagem seja decifrada.

Há de se dividir o mérito da atuação com a montagem, a maquiagem, os efeitos visuais e o design de som, cada qual tão imprescindível para a construção de Nina quanto a atriz. São eles, mais a direção norteadora de Darren Aronofsky, que elevam Natalie à potência atingida. Nina sintetiza não só o contraponto óbvio do bom e do mau – índoles que, de acordo com o filme, são intrínsecas nas devidas proporções a todo ser humano –, mas também interpretações complementares que enriquecem o enredo – a perfeição contra a irregularidade, a menina contra a mulher, a placidez contra o caos, o real contra o imaginário. Aronosfky, atento ao plano geral, mune as demais personagens femininas com a mesma estrutura, sugerindo-lhes um passado denso que o público preenche por conta própria. Essa verdadeira conquista vem aliada à estupenda fotografia (nunca escolas de dança pareceram tão competitivas, ameaçadoras e reais) e ao fabuloso roteiro, cujo clímax, ao absorver o libreto de “O Lago dos Cisnes” no conflito interno da heroína, faz uma das coisas mais impressionantes que se vê em termos narrativos nos últimos anos. Somados, esses atributos fazem de “Cisne Negro” o filme mais instigante e plasticamente bonito da temporada. Obrigatório conferir a tempo da disputa pelo Oscar.

.:. Cisne Negro (Black Swan, Estados Unidos, 2010, Suspense). Cotação: A+

7 Comentários leave one →
  1. 04/02/2011 9:20 pm

    Ainda não assisti a este filme. Vejo amanhã e estou com as expectativas nas alturas!!!

  2. Mark permalink
    04/02/2011 10:19 pm

    Esse eu não vi, mas to doido pra ver. Já viu Blue Valentine? É excelente, especialmente porque vivi esse filme nos dois últimos anos. Você precisa ver.

    • 05/02/2011 12:09 am

      Ka, aguardo depois os seus comentários🙂

      Mark, vi sim! Dê uma procurada nos arquivos que já escrevi a respeito😉

  3. Bárbara :) permalink
    05/02/2011 12:29 am

    Eu Louis, acho que ainda não fiz comentários nesse blog:/
    Nossa Black Swan é incrível. Eu vi no PC e segunda estou indo conferir no cinema. A parte em que ela se masturba é constrangedora.

    • 05/02/2011 10:40 pm

      Bárbara, acho que já fez comentários aqui sim ! o/

      O filme é realmente extraordinário, e como você, conferi primeiro no PC, depois no cinema!

  4. 07/02/2011 3:42 pm

    “Arrebatador! Aronofsky usa todos os elementos cinematográficos a seu favor (o som e sua mixagem são formas brilhantes de contar sutilmente detalhes menores da história) e o resultado é encantador. A cena do Cisne Negro é de tirar o fôlego e Portman brilha!!!

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