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O gélido Inverno da Alma

01/02/2011

Ree tem dezessete anos, pele sedosa e olhos azuis cristalinos. Com o encaminhamento certo, poderia estampar capas de revista e fazer fortuna como modelo. Mas essa não é sua ambição: assim que possível, ela pretende se juntar ao Exército e sustentar a família com o salário que receber. As coisas não vão bem. Ree cria sozinha os dois irmãos caçulas, desde que a mãe sofreu um derrame e o pai, traficante de metanfetamina de quinta categoria, tornou-se foragido da justiça. São pobres como ratos e vivem numa comunidade rural do Missouri, num casebre sem calefação que Ree mantém aquecido durante os invernos rigorosos cortando lenha e reunindo todos em volta da lareira ou do fogão. Para piorar, a residência fora penhorada pelo patriarca para cobrir a fiança de uma de suas detenções. O oficial de justiça é categórico: ou ele se reporta à prisão até uma data específica, ou a casa será tomada pelo banco. Sem recursos e nada além da motivação, a jovem parte pelas montanhas Ozark em busca do pai, cruzando com personagens tão gélidos e não-convidativos quanto a temperatura ambiente. Vários parentes estão espalhados por lá, todos em péssimas condições de vida e alguns oferecendo maior perigo do que aparentam.

As privações e sofrimentos da protagonista de “Inverno da Alma”, um dos finalistas ao Oscar de Melhor Filme, faz com que a plateia deseje nunca mais reclamar da vida. Aparentemente, o filme penou tanto quanto Ree para encontrar seu lugar ao sol: das filmagens apressadas, com percalços de mais e recursos de menos, até o festival de Sundance no ano passado, do qual saiu com o Grande Prêmio do Júri, foram meses de indefinição. Afinal, não se trata de uma fita positiva, colorida e divertida como os frutos do cinema independente americano que costumam cair nas graças do público – como foram “Pequena Miss Sunshine”, “Juno” e “500 Dias Com Ela”. Trata-se de um drama intimista e humano, de ritmo pausado, dosado para que nunca atinja o exagero e perfeitamente calcado num terreno sóbrio e verossímil. O tipo de filme que o espectador pode não digerir com facilidade, enfim. Porém, com uma equipe empenhada em levar a história ao ponto em que ela deve chegar, o resultado é bastante degustável.

A começar por Jennifer Lawrence, de vinte anos, que assume o papel principal com garra e acerto. Ela corresponde ao maior número de indicações de “Inverno da Alma” nas premiações, culminando na de Melhor Atriz no Oscar. A Academia também se lembrou do excelente John Hawkes, que interpreta um tio hostil, como coadjuvante (um ator de currículo extenso, mas que nunca tinha sido reconhecido), e do roteiro, adaptado de um romance homônimo por Anne Rossellini e pela diretora Debra Granik. É o comando de Granik que faz a diferença: ao invés de contemplar a miséria, ela se infiltra naquele meio e encara os personagens sem nunca diminuí-los. Filmado em locações, com fotografia soturna e um elenco que sempre convence pela autenticidade (são todos passíveis por cidadãos rústicos, brutalizados e pouco instruídos), o filme é capaz de inserir os espectadores num cenário desconhecido e ameaçador que, por alguma razão, soa incrivelmente realista e familiar. Vale conhecer.

.:. Inverno da Alma (Winter’s Bone, Estados Unidos, 2010, Drama). Cotação: A-

3 Comentários leave one →
  1. 01/02/2011 9:57 pm

    Tô doida para assistir a este filme. Adoro longas independentes com personagens femininas fortes.

  2. Dudu permalink
    22/02/2011 1:29 pm

    Essa atriz é linda!!!

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