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Um Lugar Qualquer, de Sofia Coppola

30/01/2011

“Um Lugar Qualquer” é mais um trabalho de Sofia Coppola a possuir requintes autobiográficos. Como diretora, ela já havia provado seu talento em fitas como “Virgens Suicidas”, “Maria Antonieta” e principalmente “Encontros e Desencontros”, que atestava a sua capacidade de sugar acontecimentos da própria vida e de condensar essas experiências nos personagens (no filme, a garota estagnada e introspectiva interpretada por Scarlett Johansson seria o seu alter-ego, assim como o papel do marido indiferente era uma alusão clara ao ex Spike Jonze).

É fácil explicar porque “Encontros e Desencontros” se tornou um cult instantâneo: com sua visão delicada de menina-moça, Sofia observava os protagonistas preenchendo os vazios existenciais um do outro. E o fazia com sutileza, através de olhares que significavam mais do que sugeriam e de conversas francas que exprimiam em palavras sentimentos que todos conhecem, mas nem sempre sabem definir. “Um Lugar Qualquer” tinha potencial para corresponder a tudo isso em grau maior – dessa vez, com a história de um sujeito infeliz que é revigorado pela presença da filha pré-adolescente. O personagem em questão é Johnny Marco, um astro de cinema que tem tudo de mãos beijadas e vive no icônico Chateau Marmont, hotel na Sunset Strip notório pela tolerância aos caprichos e excessos das estrelas.

A oportunidade parecia ideal para Sofia desfiar as lembranças de sua própria criação em meio aos luxos e às loucuras de Hollywood, aos quais teve acesso desde muito cedo através do pai, o cineasta Francis Ford Coppola. Aliás, o timbre intimista da Coppola-filha permitiria inclusive que a relação paternal se tornasse objeto de estudo. As projeções deixariam de ser interessantes, porém, caso se tornassem maiores que a trama em que estão inseridas. A ênfase se volta, portanto, para Johnny preso à rotina de festas e mulheres interessadas em sexo casual. O que seria o oásis para um homem qualquer representa para ele uma profusão de dias confusos e embaçados. Somente a presença da filha que ele raramente vê consegue lhe provocar reações meramente humanas – e quando a garota vem passar alguns dias em sua companhia, esse laço afetivo se estreita para levar Johnny à iluminação.

A transformação do personagem é gradual: chega sem alardes, deixa poucos vestígios e não rende uma catarse escancarada, mas, em essência, é muito coerente. Para quem não via propósito na própria existência, descobrir-se responsável pela existência de um outro ser humano – e uma menina tão pura, meiga e amorosa – é revigorante e esclarecedor. Ajuda que Stephen Dorff e Elle Fanning tenham conseguido estabelecer uma química deliciosa como essas figuras – o primeiro tem o melhor momento de uma carreira não muito notável, e ela, mais fotogênica que a irmã Dakota, é a luz do filme (as cenas em que aparece chegam a ser mais coloridas e menos soturnas que as anteriores).

A narrativa segue o estilo da diretora, apoiada em simbologias simples, mas elegantes, e na observação de uma cultura desconhecida aos olhos estrangeiros (não só muitos hábitos hollywoodianos podem parecer excêntricos a quem nunca viu um episódio de “Entourage”, mas também o fascínio mundial pelas celebridades é resumido à sua forma elementar: caóticas coletivas de imprensa, corriqueiras viagens internacionais e participações em eventos que beiram ao ridículo). Mas, não vai muito além daí. O filme é mais seco e menos caloroso do que pode parecer, e o corte final deixa muita gordura a enxugar (vide as tomadas que se estendem além da conta, apesar de cumprirem sua função em poucos segundos).

Um drama por definição, “Um Lugar Qualquer” também passa, em alguns momentos, por uma comédia involuntária, mas Sofia já não extrai humor com a mesma naturalidade e fluidez (uma sequência em particular, envolvendo um massagista pelado, chega a ser constrangedora). Também há um problema bastante apontado no final: uma metáfora mal planejada que substancia a redenção do protagonista num ato risível e infantil. Por outro lado, há cenas de grande inspiração, como aquela em que pai e filha tomam sol lado a lado, e o ângulo vai se abrindo para mostrar que ambos não estão tão isolados quanto pareciam estar.

Essa inconstância não anula “Um Lugar Qualquer” por completo, mas certamente compromete o resultado. Numa visão geral, passa por uma fita bonitinha, mas ordinária, e a conquista do Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado foi mesmo equivocada. Acusam Quentin Tarantino, presidente do júri e ex-namorado de Sofia, de ter sido parcial na decisão. Quem sabe ele não pensaria diferente se Coppola optasse por debulhá-lo no próximo projeto?

.:. Um Lugar Qualquer (Somewhere, Estados Unidos, 2010, Drama). Cotação: B-

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