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Em O Turista, o luxo é um tédio

28/01/2011

Dizem que os consumidores de salsicha só são capazes de degustar o alimento porque desconhecem as etapas de fabricação. O mesmo vale para o cinema. O espectador leigo, com conhecimento limitado do processo criativo e, principalmente, da engrenagem comercial, é mais propício a embarcar por completo numa obra do que aqueles munidos de informação sobre a sua execução. Quem sabe, por exemplo, que Angelina Jolie só topou participar de “O Turista” porque as filmagens seriam rápidas e as exigências seriam mínimas já questiona o comprometimento da atriz com o projeto. O mesmo acontece quando se descobre que Florian Henckel von Donnesmarch, alemão premiado com o Oscar de Filme Estrangeiro por “A Vida dos Outros”, afastou-se do cargo de diretor por diferenças criativas, para só retomá-lo após renegociações com o estúdio.

Picuinhas são inevitáveis e jamais impediram que filmes superlativos fossem realizados enquanto os responsáveis se espezinhavam nos bastidores. Às vezes, essa é a única maneira de extrair o máximo de cada um e de harmonizar métodos de trabalho distintos. Mas o efeito pode ser inverso: quando o resultado é tão insosso como em “O Turista”, é fácil apontar essas intrigas como a causa de tudo o que deu errado. E como deu! Refilmagem do francês “Anthony Zimmer – A Caçada” – cuja a premissa era mais interessante do que o desenvolvimento -, “O Turista” tem roteiro do próprio Florian em parceira com outros premiados pela Academia, Julian Fellowes (“Gosford Park”) e Christopher McQuarrie (“Os Suspeitos”). Ao invés de potencializar a trama de que dispunham, porém, os três a banalizaram ainda mais. Ambientaram-na em Veneza – após uma introdução apressada em Paris – e, como quem dispõe de um gordo orçamento de 100 milhões de dólares, exploraram a cidade pelo que ela tem de mais luxuoso e atraente.

Angelina, com a silhueta delineada por figurinos deslumbrantes e os lábios proeminentes carregados de batom, desfila pelo cenário como se fosse integrada a ele (um reflexo de sua performance estéril, de quem posa ao invés de atuar). Johnny Depp, escalado para o protagonista masculino durante os estágios mais indefinidos da produção (Tom Cruise e Sam Worthington tinham se engajado e se desvencilhado do papel, respectivamente), surge envolto no mesmo estupor, como se as gravações acontecessem em meio a uma crise de sonambulismo. Na trama, a personagem de Angelina é instruída pelo amante, um estelionatário procurado tanto pelas autoridades inglesas quanto pela máfia russa, a partir para a Itália e, no caminho, procurar um alvo fácil para despistar os perseguidores. No trem para Veneza, ela se aproxima de um turista americano (Depp), que todos deduzem se tratar do criminoso (afinal, corria um boato de que o foragido se submetera a uma bateria de cirurgias plásticas para se fazer irreconhecível).

As desventuras provocadas por esse mal-entendido são narradas em leve tom humorístico, o que permitiu que os votantes do Globo de Ouro, num de seus surtos habituais, indicassem “O Turista” em três categorias de Comédia – Filme, Ator e Atriz. Obviamente, não há nada que o credencie a ser listado com méritos entre os melhores exemplares do ano: o enredo é rasteiro, o ritmo é sonolento, as reviravoltas são tolas e o clímax é tedioso. Mas, contrariando o fiasco de público e crítica, tampouco é vergonhoso para ser incluído numa seleção de piores da temporada. É apenas medíocre, esquecível e insignificante. O que, para os talentos envolvidos, é uma tremenda decepção, e uma lembrança geral de que a falta de comunicação e afinidade atrás das câmeras pode ser absorvida no que se vê à frente delas. Resta uma dúvida, no entanto: será que os astros se importaram com o filme o suficiente para tirar proveito da lição?

.:. O Turista (The Tourist, Estados Unidos, 2010, Thriller). Cotação: C-

8 Comentários leave one →
  1. Tiago permalink
    28/01/2011 12:05 pm

    quando soube do filme, o que menos me agradou foi Jhonny Deep eu ainda não entendo e não sei porque (tem muita gente por sinal) que gostou dele como Chapeleiro Maluco em Alice que odiei e peguei um birra dele, e enfim entre outros motivos eu não tinha expectativa nenhuma para este filme kkkk e acho que vou demorar para assisti-lo.

    • 28/01/2011 12:10 pm

      Tiago, te entendo. Depp é extremamente superestimado !!! Mas sempre vai haver quem se derrame por ele em tudo o que faz – ainda mais quando se junta com o Tim Burton.

  2. 28/01/2011 12:15 pm

    Texto perfeito (novamente). É uma pena mesmo que o “trabalho” de tanta gente competente tenha se transformado em tão inerte trabalho. 4/10

    • 28/01/2011 12:17 pm

      Ih, repeti a palavra trabalho. Considere “obra”, no final.

      • 28/01/2011 12:21 pm

        Hahaha Mateus, você é tão perfeccionista quanto eu! Nunca me dou por satisfeito com o que escrevo e sempre acho coisa pra corrigir em coisa que botei no papel há cinco minutos🙂

  3. 28/01/2011 11:14 pm

    Eu não gostei desse filme. Dá para ver claramente que a Angelina dominou todos os homens da produção. Me parece que “O Turista” foi feito para massagear o ego dela!

  4. annastesia permalink
    31/01/2011 2:23 am

    Nesse caso, não é um tédio. É uma tosqueira completa.

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