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Desenrola: a Zooey Deschanel do Brasil

22/01/2011

Hipster é uma expressão da cultura contemporânea criada nos anos 40 para designar os jovens adultos recém estabelecidos nos centros urbanos, que definiam cada faceta da personalidade pelo interesse em moda, músicas e filmes alternativos. Com o tempo, o desprezo pelo popular e afinidade pelo independente foi perdendo a autenticidade: como toda ramificação social, já não se podia precisar quem estava inserido no grupo por convicção, e quem se encaixou no movimento por conveniência. Talvez, por isso, a palavra tenha aderido um sentido pejorativo e virado mote de chacotas quando reavivada nos anos 90 e 2000 (para só recentemente ganhar força no vocabulário dos brasileiros).

O nacional “Desenrola”, lançado esse ano, surge abarrotado dos espécimes mais hipsters que se pode imaginar. Os personagens estão todos no auge da adolescência, e ao menos a protagonista, Priscilla, parece sugar todas as influências de Zooey Deschanel, a realeza dos hipsters: combina All-Star com meias três-quartos laranjas, ouve músicas do circuito indie em repetição com os fones de ouvido, e sintetiza em sua persona um pouco de menina e de mulher. A estreante Olivia Torres, de 16 anos, escolhida para o papel dentre centenas de testes, também canta uma das músicas compiladas para o filme, e demonstra interesse em prosseguir com ambas as carreiras (muito aos moldes de Zooey, que concilia os trabalhos de atriz ao conjunto musical “She & Him”). Mas a Zooey brasileira, ao contrário da americana, não tem muito mais em essência: tudo o que possui de hipster parece calculado e pouco espontâneo.

Por tabela, é isso que “Desenrola” também sugere. Na trama, Priscilla vivencia uma porção de experiências inéditas: a primeira vez que ficará sozinha em casa, a primeira grande festa a que comparece, a primeira viagem com os amigos para acampar, e, é claro, a primeira transa, que ela tanto espera que aconteça com o irmão mais velho de uma colega (o típico surfista carioca interpretado por Kayky Brito). Mas a premissa, da forma como é desenvolvida, não gera um retrato realista e sensível da juventude atual como foi, por exemplo, “As Melhores Coisas do Mundo”, lançado no ano passado. É, ao invés disso, um produto modelado para parecer sincero e compreensivo, enquanto esconde em seu estrato a preocupação incessante em ser moderninho e descolado.

Porém, escusada a falta de clareza em suas intenções, não dá para anular o filme por completo. O elenco jovem – do qual Kayky é o único famoso – defende-se bem em geral e tem feições bastante humanas. As pontas de atores consagrados – Claudia Ohana, Marcelo Novaes e Leticia Spiller, para citar alguns – são, também, muito adequadas, a ponto de relevar a presença de Pedro Bial, que, no papel de um professor, mais parece reprisar a função de apresentador do “Big Brother”. E o roteiro aborda questões íntimas com que, eventualmente, o público irá se identificar. Por outro lado, os hipsters que consideram Malu Magalhães o epítome do alternativo poderão se relacionar com a mesma facilidade.

.:. Desenrola (Brasil, 2011, Comédia). Cotação: B-

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