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Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas

21/01/2011

Sob um júri presidido por Tim Burton, o Festival de Cannes do ano passado optou por conceder a honraria máxima, a Palma de Ouro, a um filme tailandês co-produzido por França e Inglaterra. Trata-se de “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, já em cartaz em salas selecionadas do Brasil. É muito difícil dar qualquer parecer sobre a obra. É diferente, esquisita, pouco acessível, por vezes perturbadora e certamente para um público fechado.

O personagem título, tio Boonmee, é um camponês que sofre de falência nos rins. Já à beira da morte, com amigos e familiares ao seu lado na casa em que nasceu, vai receber a visita de alguns fantasmas do passado. É o caso da esposa, que faleceu aos 42 anos e que reaparece num espectro para ajudá-lo a cuidar da saúde, e de seu filho, que tinha se embrenhado na floresta para nunca mais ser visto e agora retorna transformado num macaco de olhos vermelhos, porque teria copulado com uma das criaturas lendárias que habitam as matas!

Entrementes, tio Boonmee terá vislumbres de algumas de suas vidas passadas – primeiro, na forma de um búfalo, e depois como uma princesa que faz um acordo com um peixe para ficar eternizada no reflexo juvenil que enxerga nas águas. Todas essas excentricidades são recebidas com naturalidade pelos personagens, como se cada ocorrido fosse rotineiro e normal. Não é apenas um reflexo óbvio da religião budista, que acredita que as almas possam ser transmigradas (inclusive entre humanos e animais), mas também um retrato das anedotas que povoam a imaginação daquela cultura específica. Numa região carregada de história e tradição, é extremamente pertinente as observações do diretor Apichatpong Weerasethakul. Seu nome, impronunciável aos ocidentais, costuma ser simplificado como Joe em conversas e entrevistas. Mas essa é uma das poucas concessões que faz para se tornar palatável.

Se seu filme sabe ser leve e bem-humorado, ao mesmo tempo é arrastado, silencioso e contemplativo. E se a apreciação do resultado depende das experiências em que o público está acostumado a embarcar, ao menos é indiscutível que o diretor reserva o maior respeito à trama que desenvolveu – que prega que as crendices podem ser reais para aqueles que encontram sentido nelas – e aos elementos de seu país que foram absorvidos por ela – há menções, inclusive, à situação política da Tailândia e à imigração dos laosianos, e os próprios atores são, em sua grande maioria, moradores locais sem qualquer instrução profissional. São uns dos poucos raciocínios concretos a extrair dali – de restante, as sensações provocadas por “Tio Boonmee” entram no terreno da subjetividade.

Talvez por isso seja rejeitado com mais facilidade que apreciado. A Academia, por exemplo, já o deixou de fora da lista de pré-finalistas ao Oscar de Filme Estrangeiro. Não há nada de surpreendente nessa decisão. Na sua terra, o longa pode ser visto com a melhor das intenções, mas não há como negar que, nos outros países – e muito particularmente no Brasil – chegará com a chancela de um produto cult para plateias alternativas e pensantes. O que é mais que se pode dizer, por exemplo, de “Lula – O Filho do Brasil”, excluído da mesma seleção academista por um motivo diferente: não ser um filme bom.

.:. Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives, Tailândia / França / Inglaterra, 2010, Comédia / Fantasia). Cotação: A-

3 Comentários leave one →
  1. 21/01/2011 10:46 pm

    Nunca assisti nada do cinema tailandês, então acho que essa seria uma boa obra para começar!🙂

    • 22/01/2011 7:28 pm

      Ka, minha experiência com o cinema do país era quase nula, também. E aprovei muito o resultado😉

  2. 27/01/2011 12:40 pm

    Não tinha visto o seu texto sobre Tio Boonmee😦
    Minhas experiência com o cinema tailandês é pouquíssima, mais venho acompanhando Apichatpong desde Sud pralad. Ele é um diretor que vale a pena acompanhar de perto, sempre olho oq ele anda fazendo.
    É sensacional como o sobrenatural é tão normal dentro do filme, é tratado sem alardes. A experiência é muito diferente, você não assiste o filme, você medita. Sensacional.
    Triste é ver críticas como a Rubens Ewald Filho sobre o filme.

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