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O irresistível Piranhas 3D

20/01/2011

Em 1975, Steven Spielberg fez de “Tubarão” um evento de repercussão extraordinária. Não somente pelo fenômeno de bilheteria, que redefiniu os parâmetros da temporada do verão americano, mas também, e principalmente, pelo excelente uso de um artifício do suspense que, por facilitação e conveniência, vinha sendo ignorado pela indústria: o que não se vê é tão ou mais assustador que aquilo que é mostrado. O tubarão que atacava os banhistas de um arquipélago não era evidenciado, mas sempre sentido. Os planos de câmera e a trilha lancinante de John Williams bastavam para criar o clima de tensão, que atingia o seu ápice quando o vilão aquático era finalmente apresentado aos olhos do público no ato final.

Sob a égide de “Tubarão”, vieram dezenas de pastiches, paródias e imitações, além de continuações eventuais da franquia, das quais Spielberg, sabiamente, desvencilhou-se. Ele sabia, mais do que ninguém, que apenas requentar uma fórmula não garantia sucesso – ainda mais se essa fórmula fosse subvertida pela engrenagem de Hollywood, que prima pela produção padronizada em larga escala acima da artesanal. A série “Piranha” foi concebida graças a esse advento: ao invés de tubarões de água salgada, a ameaça vinha dos peixes carnívoros de água doce, habitualmente encontrados na América do Sul, mas transpostos, para fins fictícios, aos lagos aprazíveis da América do Norte, numa evolução bem mais agressiva da espécie.

Como o suspense, por si só, não se sustentaria, “Piranha” inclinava a trama para a comédia – uma combinação de escopo indissoluvelmente trash, que há décadas servia de base para os chamados slashers. Esses eram os filmes produzidos quase sempre com uma mixaria, caracterizados por uma dose anormal de sangue e por personagens tão fúteis e estereotipados que induziam o público a torcer não por sua sobrevivência, mas por sua defenestração. “Piranha 3D”, rodado no ano passado (sob um título que, realmente, só é adequado para o cinema), segue à risca esses critérios e, dentro da proposta, é de uma diversão desproporcional. De aflitivo, não tem nada – mas de hilaridade (involuntária ou não) está abarrotado.

O filme deve corresponder ao sonho molhado de todo garoto pubescente: tem a maior quantidade de mulheres semi ou totalmente nuas dentre todos os lançamentos recentes, desperdiça metragem com luxúrias no que poderia ser destinado ao desenvolvimento dos personagens, e sua trama é o epítome da simplificação. Basicamente, as piranhas atacam em grupo com ferocidade implacável, e os adolescentes vazios não são poupados: qualquer tipo levemente antipático irá para o fundo do lago e terá os ossos corroídos até a morte em questão de segundos. As centenas (sim, centenas) de fatalidades ainda incluem acidentes com as hélices dos barcos a motor, jovens escalpelados e mulheres gostosas devoradas por seus atributos físicos (se o público as trata como carne, as piranhas levam o desejo à literalidade).

O elenco, obviamente, é o que há de mais inexpressivo, mas vale chamar atenção para a presença de Elisabeth Shue, o exemplo mais recorrente de “boa atriz que não aconteceu” no cinema americano, e para uma ponta de Richard Dreyfuss, numa escalação que os produtores de “Piranha 3D” devem ter achado o supra-sumo das referências (ele foi, afinal, um dos protagonistas de “Tubarão”). Para uma hora e meia de curtição despirocada, esse programa é o que há de melhor!

.:. Piranha 3D (Piranha, Estados Unidos, 2010, Comédia). Cotação: A+

2 Comentários leave one →
  1. 22/01/2011 1:28 am

    afe, esse filme é TUDO NO LITORAL! eu amei.
    é besteirol, é sanguinolência, é Dreyfuss, é Eli Roth morrendo lindamente, aquele podre…

    eu adorei. não adoro o 3D, acho desnecessário. mas esse filme é muito lindo. hahaha.

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