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Biutiful é beleza pura

20/01/2011

Javier Bardem talvez seja o ator de língua espanhola que se encontra na fase de maior prosperidade criativa. Ele e a esposa Penélope Cruz – também ela uma atriz consumada – são uns dos poucos estrangeiros a constituir carreiras bem estruturadas no cinema americano, sem dispensar as que já tinham solidificado no país natal, Espanha, responsáveis por suas primeiras projeções internacionais. Conciliar projetos interessantes nos dois lados do Atlântico não é tarefa fácil, mas no que muitos falharam, ambos vêm confirmando que, para atores focados e empenhados, nunca há de faltar bom trabalho. Trabalho, por exemplo, como “Biutiful”, película que rendeu a Bardem o prêmio de atuação no Festival de Cannes do ano passado.

“Biutiful” – a grafia fonética e incorreta da palavra “bonito” em inglês – foi uma co-produção entre Espanha e México. Da primeira, veio o protagonista. Do segundo, o diretor, Alejandro González Iñárritu, um dos componentes da atual santíssima trindade dos cineastas mexicanos. Os outros dois são Alfonso Cuarón e Guillermo Del Toro, que, como Iñárritu, foram muito bem sucedidos ao cruzar a fronteira: mesmo em filmes feito aos moldes hollywoodianos, eles não deixaram de imprimir o toque autoral que os tornara notórios a priori. A repercussão de Iñárritu no exterior se deve, em grande parte, à sua trilogia do sofrimento, iniciada com “Amores Brutos”, rodado em sua terra, e completada por “21 Gramas”, filmado nos Estados Unidos, e “Babel”, feito em três continentes. O esquema similar dos três longas – personagens modificados por tragédias pessoais vão sendo intercalados por uma montagem não-linear – foi se provando menos eficaz a cada volume, para atingir seu ponto crítico no último, do qual o diretor saiu em maus termos com o roteirista Guillermo Arriaga.

Com o novo lançamento, Iñárritu retorna à função depois de quatro anos inanes, preenchidos somente pela direção de um segmento para um filme de múltiplos realizadores. O enredo de “Biutiful”, ao contrário dos anteriores, não introduz histórias paralelas – mas, apesar do personagem principal ser claramente definido, alguns coadjuvantes se sobressaem de acordo com a ocasião, com direito a cenas isoladas e autosuficientes. A câmera já não é mantida integralmente em mãos, mas ainda deixa a impressão de que está captando os atores por seus ângulos mais íntimos e vulneráveis, e a fotografia já não é granulada, mas tampouco tem fins puramente estéticos – é ela que constrói a identidade de Barcelona não como a cidade de arquitetura elegante que o público está acostumado a ver, mas como um centro urbano caótico, cujos pardieiros remetem aos de um país do terceiro mundo. Não que o roteiro seja demagogo: jamais transforma seus personagens em peões de uma causa, mesmo aonde caberiam denúncias e críticas sociais. Se o ambiente parece inóspito, é porque é assim que o protagonista o percebe, e é negado ao espectador o privilégio de observar com os próprios olhos.

Sempre que Bardem está em cena, os acontecimentos são narrados da perspectiva dele. Se titubeia, a imagem perde a definição; se está num estado de desnorteamento, a câmera treme; e se enxerga coisas que não deveriam estar ali, o público também as vê (por exemplo, seu reflexo no espelho e sua sombra parecem terrivelmente inconstantes, nem sempre em sintonia com os movimentos do seu corpo). Isso porque seu personagem, Uxbal, é sensitivo. Vislumbra espíritos e, caso os familiares desembolsem o preço certo, ajuda os recém-falecidos a fazerem a passagem para o outro plano. Mas “Biutiful” está longe de ser uma recauchutagem de “Chico Xavier”, e esse dom paranormal é um detalhe que não corresponde ao sujeito em sua totalidade. Além do contato com os mortos, ele está envolvido até o pescoço em atividades ilegais, servindo como intermediário entre imigrantes irregulares e serviços clandestinos (seus feitos incluem colocar africanos nas ruas para servir ao tráfico e realocar um grupo de chineses, que segue uma rotina espartana numa fábrica, para um abrigo em péssimas condições).

Em nenhum momento, porém, Uxbal é desumanizado. Em contrapartida, é o pai dedicado – ainda que com pavio curto – de dois filhos pequenos, um menino de sete anos e uma garota de onze, que a ex-mulher não ajuda a criar porque não resiste à bebida e à companhia de outros homens. Como se não bastasse, Uxbal descobre um câncer de próstata em estágio de metástase, que os médicos não têm a esperança de curar. É a deixa para que ele reavalie a paternidade (a sua e a de seu pai, do qual não se recorda), o casamento, os crimes e, é claro, sua estreitíssima relação com o pós-vida, que gera as sequências de maior plasticidade do filme. Uxbal, enfim, condensa conflitos demais numa só persona, e é coerente que o filme leve duas horas e meia para expurgar tantos demônios. O excepcional elenco – Bardem à frente -, mais Alejandro González Iñárritu em grande forma, fazem de “Biutiful” um drama de personagem rico e fascinante, e uma presença garantida entre os estrangeiros indicados ao Oscar.

.:. Biutiful (Idem, México / Espanha, 2010, Drama). Cotação: A-

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