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Ryan Gosling e Michelle Williams brilham em Blue Valentine

19/01/2011

Ryan Gosling e Michelle Williams têm 30 anos e estão no grupo dos atores mais talentosos de sua geração. Os dois começaram no ramo ainda jovens – Gosling, no Clube do Mickey Mouse, de onde saíram as estrelas da música Christina Aguilera, Britney Spears e Justin Timberlake, entre tantos outros que caíram no anonimato, e Williams, em participações em séries de TV, antes de descolar um seriado próprio, “Dawson’s Creek”. Ambos têm uma indicação ao Oscar na bagagem – ele por interpretar um professor viciado em “Encurralados” e ela pelo papel de uma esposa resignada em “O Segredo de Brokeback Mountain” -, e ambos ganharam a mídia por romances com colegas de profissão – o primeiro noivou com Rachel McAdams, que conheceu no set de “Diários de Uma Paixão”, e a segunda teve filha com Heath Ledger, seu parceiro em “Brokeback” (embora não estivessem mais envolvidos na época da morte do ator). Têm em comum, ainda, a propensão a trabalhar em produções independentes, aonde encontram os personagens mais desafiadores, e a habilidade de emitir com esses personagens uma franqueza devastadora. São, portanto, profissionais de credibilidade, além espécimes maravilhosos da raça (das feições sem adornos de Gosling à feminilidade em essência de Williams).

Com tantos pontos em comum nessas trajetórias, era de se esperar que, eventualmente, seus rumos fossem se cruzar. Mas, nem o currículo que os precedia poderia antecipar as proporções titânicas desse encontro. “Namorados Para Sempre”, o projeto que torna isso possível (e que eles viabilizaram assinando a produção executiva), é um divisor de águas em ambas as carreiras. As performances que eles entregam aqui brigam com todas as outras pelo posto de melhores do ano. E o que é mais especial: só atingem essas dimensões porque se complementam. Gosling torna a interpretação de Williams exequível e vice-versa, por vezes num dueto afinadíssimo, por vezes numa equilibrada partida de tênis. Ajuda que o roteiro, co-escrito pelo diretor Derek Cianfrance com Cami Delavigne e Joey Curtis, lhes dê todas as oportunidades de brilhar. A trama acompanha o casal Dean e Cindy em sua rotina habitual: ele, que não tem diploma, trabalha como pintor, entre outros bicos como braçal, e ela é técnica de ultrassom numa clínica da cidadezinha. Ambos têm uma filha pequena e nutrem sentimentos conflitantes pela garota. Dean é amoroso e brincalhão, em parte porque tem muito de moleque ainda em si (apesar do cabelo estar rareando e das entradas estarem aparentes). Cindy, por outro lado, frequentemente tem a impressão de que precisa pajear duas crianças ao invés de uma. A filha e Dean lhe sugam as poucas energias que restam no final do dia, e à medida que o casamento avança, com mais clareza ela vê as próprias insatisfações projetadas no marido.

Não é novidade observar esse tipo de desgaste numa relação, mas é novo, e totalmente fresco, o posicionamento que “Namorados Para Sempre” dá à história. Sem aviso prévio, o filme retrocede alguns anos para momentos distintos da vida dos dois. A montagem, ao invés de truncar a ação, estabelece uma simetria harmoniosa entre passado e presente, e caberá ao espectador entender como os jovens vívidos e cheios de afinidade chegaram a um estágio de completo desagrado – um com o outro e consigo mesmos. Antes de se conhecerem, Dean não planejava se casar e ter filhos; vivia no Brooklyn, trabalhava para uma firma de mudanças, era desapegado da família e bem resolvido com a vida. Cindy, por sua vez, estava tomando aulas preparatórias para cursar medicina, não saíra de casa, estava acostumada aos rompantes constantes do pai na mesa do jantar, e ia e voltava com o namorado possessivo (um entre os mais de vinte parceiros sexuais que ela acumulava desde que perdera a virgindade, aos treze anos de idade). Depois que o casal se encontra, seguem os passos lógicos de aproximação: divertem-se em intermináveis conversas, usam moteis como alcova e se abrem intimamente. Como essa paixão começa a ser narrada pelo seu ponto nevrálgico, o público já sabe que, em função dela, os protagonistas terão de rever seus planos e sacrificar alguns sonhos – mas, como eles chegam de um extremo ao outro só é explicado no decorrer do enredo. É espantosa a verve com que Goslin e Williams sustentam esses arcos dramáticos, e é basicamente no ombro deles que Cianfrance deposita o filme. As antológicas atuações, alinhadas a um texto precioso, ponderam as situações com detalhes ricos e verossímeis. O resultado é indiscutível: poucas vezes o que há de mais avassalador num relacionamento foi retratado com tamanha sensibilidade e verdade.

.:. Namorados Para Sempre (Blue Valentine, Estados Unidos, 2010, Drama). Cotação: A+

11 Comentários leave one →
  1. 19/01/2011 3:50 am

    toldjá!
    dá pra confiar a vida em Gosling, não dá? e Michelle é uma fofa, eu amo amo ela também.
    amei seu texto, só me deu mais DESESPERO pra assistir logo.

    seu primeiro parágrafo me trouxe umas borboletinhas no nariz, viu…

    e vou dizer: eu não suporto a ideia de Half Nelson se chamar ‘Encurralados’. o que vai ter de fã de filme de ação pegando essa lindeza pra ver e não gostando porque não tem uma explosãozinha sequer… que bobagem fazer isso com um título perfeito…
    🙂

    • 19/01/2011 4:57 am

      Quéroul, dá e não dá pra confiar: dias antes vi All Good Things, no qual ele se sai bem, mas não compensa pela bobagem que o filme é. Aqui, certamente, Mr. Gosling está em seu melhor. Que bom que gostou do texto. Tenho certeza que vai se encantar com o filme e tudo dentro dele🙂

      E também DETESTO o título nacional de Half Nelson !

  2. Lucy permalink
    19/01/2011 6:06 am

    Não li nada, mas não resisti e fui ver a nota que vc deu ao filme… Tô com ele no computador pra ver – assim como The King’s Speech – e não vejo a hora! Só não vi hj pq tinha umas séries pra assistir – série acabando antes da hora, coração na mão pra saber se o final seria justo, não consegui não assistir… Mas bom saber q vc gostou – como os gostos são parecidos, acredito que eu vá gostar tb…

    (confesso q sou tão fã dos dois q nem sei como poderia não gostar… hehehe)

  3. 19/01/2011 11:12 pm

    Tô curiosa para assistir a este filme. Colocar juntos Ryan Gosling e Michelle Williams era o sonho de qualquer indie… rsrsrsrsrs

    • 20/01/2011 2:59 pm

      Lucy, é virtualmente impossível desgostar desse filme. Passe por aqui pra deixar suas impressões depois de assistir🙂

      Ka, é um wet dream dos indies, isso sim hahaha ! Que, felizmente, ambos correspondem. Beijo !

  4. Lucy permalink
    22/01/2011 1:20 am

    Como sempre, você falou tudo e falou bem, Louis. Como comentei no meu outro comentário, sou fã dos dois desde os seus inícios e quando fiquei sabendo da existência de um projeto juntos não podia deixar de coloca-lo na lista dos mais aguardados. E, apesar de ter certeza que eu adoraria o filme, não sabia o quanto.

    Tudo no filme soa verdadeiro e acho que isso é o que o torna o que é. De uma forma não grosseira, eles contam uma história real e os flashes do passado só servem para ilustrar as mudanças que as pessoas sofrem no decorrer da vida. A gente vê o antes e o depois entrelaçados e é essencial e ilustrativo. (exemplo disso é o final do filme, quando assistimos ao começo e ao fim do casamento, ao mesmo tempo, no mesmo fôlego)

    Já entrou na lista dos meus favoritos e tá no topo das minhas recomendações pros amigos que eu sei que tb vão adorar…

    • 22/01/2011 7:31 pm

      Lucy, seu comentário sintetizou perfeitamente o que eu achei da obra e das interpretações. Já é um dos filmes da minha vida, sem dúvida.

  5. 03/02/2011 2:45 am

    Concordo absolutamente com seu post. Acabei de assistir ao filme e estou estarrecida. Azul. assim.

  6. Mark permalink
    18/02/2011 1:39 pm

    Texto incrivel assim como o filme.😀

  7. 15/07/2011 10:38 am

    Louis,

    O Filme é incrível e mostra como o amor pode se desgastar. Dê uma passada e veja o que eu achei do filme.

    http://filosofismas.wordpress.com/2011/07/12/blue-valentine-%e2%80%93-a-degradacao-do-amor/

    Abraços.

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