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Duas experiências, dois resultados

18/01/2011

Em agosto de 1971, uma experiência foi conduzida na Universidade de Stanford com 24 estudantes recrutados ao acaso. Ela consistia em colocar pessoas comuns, sem ficha policial e histórico de violência, em cargos de poder e submissão num ambiente de prisão simulada para demonstrar como a obediência, guarnecida por uma ideologia pré-definida e por apoio institucional, triunfava sobre qualquer outro instinto humano. O resultado seria conhecido mundialmente: os doze alunos na posição de guardas se embeveceram pela autoridade com rapidez alarmante, e os doze designados como prisioneiros se tornaram mais e mais sucetíveis a aturar ordens e humilhações.

As duas semanas que o experimento deveria durar foram encurtadas para apenas seis dias quando os doutores encarregados perceberam que a situação atingira o seu limite. Sua repercussão, porém, dura até hoje. O filme alemão “A Experiência”, rodado em 2001, é fracamente baseado nesse estudo. Parte da mesma premissa, mas com consequências bem mais sérias e irreversíveis: afinal, transpor a ação para o país que foi o berço do nazismo abre margens para discussões políticas desconfortáveis e análises psicológicas dolorosas. Sabe-se, por exemplo, que os guardas encarregados dos campos de concentração não eram contratados com base no anti-semitismo, e sim pela capacidade de obedecer regras e regulamentos e de colocá-los acima das convicções pessoais.

A experiência em Stanford e o filme são relevantes justamente por provar que os horrores da Segunda Guerra, se hoje parecem inconcebíveis, são perfeitamente possíveis num plano atual caso as circunstâncias sejam favoráveis. Era uma questão de tempo até que Hollywood refizesse essa produção alemã, laureada em festivais de ambos os lados do Atlântico. E não era difícil prever, com base nas outras adaptações de filmes estrangeiros para os moldes americanos, que o resultado não atingiria a mesma voltagem. Mas, nada antecipava a bomba catastrófica que estava por vir.

“Detenção” é protagonizado por Forest Whitaker e Adrien Brody, dois vencedores do Oscar, e escrito e dirigido por Paul Scheuring, criador da série de TV “Prison Break” e familiarizado, portanto, com a mise-en-scène. O padrão de qualidade, porém, não equivale sequer ao de uma reles fita B. Foi tão grande o desmazelo em torno do projeto que nem mesmo um lançamento limitado lhe foi permitido: chegou diretamente em vídeo nos Estados Unidos e teve o mesmo destino em outros países, incluindo o Brasil. Não se trata de injustiça. “Detenção” passa em branco por méritos (ou deméritos) próprios: ao invés de um thriller tenso, instigante e de emoções recônditas, é uma fita opaca, banal e motivada por personagens estereotipados que evidenciam a transformação que sofrerão desde o instante em que dão as caras.

O interesse romântico de Brody (uma ativista pacifista que deseja morar na Índia para meditar!), como manda o cinema americano, ganha contornos mais evidentes, entre outras opções para açucarar o que, por definição, deveria ser amargo ou agridoce. Aguentar uma hora e meia de diálogos artificiais, construções de cena irrisórias e atuações canastronas (dos sofríveis coadjuvantes aos Oscarizados) é quase um suplício. Também o era passar por “A Experiência”, o infinitamente superior filme alemão, disponível em DVD no Brasil. Mas, por outra razão: este propunha uma reflexão de embrulhar o estômago. Algo que “Detenção” não chega nem perto de fazer.

.:. A Experiência (Das Experiment, Alemanha, 2001, Thriller). Cotação: A-

.:. Detenção (The Experiment, Estados Unidos, 2010, Thriller). Cotação: E+

5 Comentários leave one →
  1. 18/01/2011 6:42 pm

    A experiência alemã é um filmaço, amei demais.
    mas nem sabia que tinha uma refilmagem… e Forest Whitaker é um purgante pra mim. e sofro em dizer que nem Adrien Brody me faz ver esse filme, porque eu não sou mais amiga dele hoje em dia.:/

    • 18/01/2011 8:04 pm

      Quéroul, te amo por já ter visto o filme alemão🙂

      Mas nem perca seu tempo com essa refilmagem ridícula. Whitaker é, certamente, um ator superestimadíssimo. Brody, quando acerta, é um dos melhores atores do mundo. Quando falha, é dos piores:/

  2. 18/01/2011 11:08 pm

    Excelente texto, Louis! Gosto da ideia de colocar duas perspectivas diferentes sobre filmes de mesmo tema!🙂

  3. 18/01/2011 11:24 pm

    alou, li seu tweet ali hein, hein.
    Blue Valentine, filme da vida?
    CONTA LOGOOOO! =***

    • 19/01/2011 3:13 am

      Ka, obrigado ! Fico feliz que tenha gostado do texto🙂

      Quéroul, acabo de fazer e publicar, minha linda. Leia já !

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