Skip to content

O Discurso do Rei: Oscarizável da cabeça aos pés

17/01/2011

Ao assistir a um drama de época da estirpe de “O Discurso do Rei”, é fácil prever o que vai acontecer com ele: toneladas de indicações ao Oscar, elogios rasgados do crítico americano Roger Ebert e comoção de grande parte do público pela combinação de artefatos históricos e nuances fictícias. Destino similar, aliás, ao de muitas outras obras de confeitaria do cinema britânico, caracterizadas como saborosas, mas de teor nutritivo discutível. A essa receita, “O Discurso do Rei” adiciona membros da família real, personalidades marcantes e ecos de uma guerra mundial, elementos muito caros ao patriotismo inglês.

Pela noção atual, a realeza britânica é alvo de escândalos consecutivos, revelados pela cobertura excessiva e imediatista da mídia. Obviamente, não foi sempre assim. Antes, as figuras públicas e privadas não se confundiam numa só. O cânone era preservado pela inexistência de meios de massa ou pela possibilidade de convertê-los em favor de uma causa. Houve um tempo em que a nobreza nada tinha de fazer aos olhos do público além de posar para retratos e fotografias. Mas, com a invasão dos rádios nos domicílios, os discursos e pronunciamentos seletos tiveram a chance, para não dizer a obrigação, de chegar à toda nação, e o que “O Discurso do Rei” pretende fazer é mostrar como o Rei George VI, pai da Rainha vigente Elisabeth II, acompanhou essa transição e se tornou o orador que confortou os súditos durante períodos espinhosos da História do país.

George (Colin Firth), que assumiu o trono depois que o pai pereceu de demência e o irmão mais próximo da linha de sucessão abdicou do dever, sofria desde criança de uma gagueira persistente, a qual os médicos mais renomados não conseguiram atenuar. Sua mulher (Helena Bonham Carter), numa última tentativa de ajudá-lo, recorre a um terapeuta precedido por uma excelente reputação. Lionel Logue (Geoffrey Rush) não era, na realidade, fonoaudiólogo por formação – era um ator fracassado que, na improbabilidade de conseguir um papel, abriu um consultório para exercer o que aprendera na prática. Mesmo assim, foi ele que apresentou à George – ou Bertie, como o rei era chamado na intimidade – as técnicas e métodos de aprendizado que o ajudaram a amenizar o problema na fala. Por não seguir protocolos, não se intimidava diante da pompa e prepotência do monarca e se recusava a ser tratado como subalterno durante as sessões conjuntas, por vezes se excedendo nas imposições. Lionel tinha o temperamento necessário para rebater a falta de disciplina de George, e o rei fica mais propenso a se abrir sobre assuntos pessoais depois que passa a respeitá-lo como um igual (tanto que, para rastrear a raiz da tartamudez, ambos se embrenham por questões de cunho psicoanalítico).

Os atores, Firth e Rush, são fenomenais. O primeiro está na fase mais próspera de sua carreira – foi indicado ao Oscar por “Direito de Amar” no ano passado e deve repetir o feito por este filme, com chances reais de levar a estatueta – e o segundo, já consagrado no cinema e no teatro, também está em seu melhor. Não restam dúvidas quanto ao quilate da produção: adjetivos não fazem justiça à direção de arte e aos figurinos, outros que devem emplacar na seleção da Academia, e a trilha de Alexandre Desplat é um reflexo do compositor em sua plenitude. Tom Hooper, o diretor, construiu currículo na televisão e assinou algumas das minisséries mais premiadas dos últimos tempos. Se merece reconhecimento por esse trabalho, deve-o em grande parte à dupla central e às performances que arrancou dela. O roteiro de David Seidler, por sua vez, se deparou com um material rico e não-lapidado, e estruturou-o nos moldes de uma fita inspiradora, flertando ocasionalmente com clichês.

Curiosamente, “O Discurso do Rei” é muito parecido em temática e abordagem com o clássico do cinema americano “O Milagre de Anne Sullivan”, também baseado numa história verídica e com duas protagonistas soberbas (Anne Bancroft e Patty Duke, vencedoras do Oscar de principal e coadjuvante em 1963). Esse último acompanha os esforços de Anne Sullivan em alfabetizar a cega, surda e muda Helen Keller, apesar da resistência da garota, mimada e sem modos, em aprender alguma coisa. Os dois filmes discutem dificuldades de comunicação e a falta que fazem as palavras aos que não sabem articulá-las. Para Sullivan, ensinar uma letra a Keller é o mesmo que lhe abrir o mundo inteiro, e para Lionel, cada sílaba que George pronuncia sem hesitação é uma conquista a ser celebrada. É irônico, porém, que eles possuam uma falha idêntica: defendem a importância da linguagem, mas são muito mais eficientes quando a descartam por completo. Em “O Milagre de Anne Sullivan”, as sequências mais antológicas foram aquelas em que Bancroft e Duke se atracavam durante vários minutos sem emitir um único som. Em “O Discurso do Rei”, quanto mais travada é a enunciação do protagonista, mais tocante é a experiência. Que isso aconteça num filme que prega justamente o oposto não é um defeito pequeno.

.:. O Discurso do Rei (The King’s Speech, Reino Unido / Austrália, 2010, Drama). Cotação: B+

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: