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Além da Vida é quase o Nosso Lar americano

16/01/2011

À princípio, “Além da Vida”, o novo trabalho de Clint Eastwood, se assemelha a uma versão do brasileiro “Nosso Lar” feita com as técnicas e recursos do cinema americano. Logo na primeira cena, uma jornalista francesa de férias na Tailândia presencia o fatídico tsunami em posição privilegiada. Ela está passeando pelas ruas quando o desastre acontece, e é carregada pela correnteza junto dos demais pedestres, carros e barracas. Salva-se, mas é por pouco: o incidente a deixa seriamente machucada, e por breves instantes, faz com que tenha vislumbres do pós-vida antes de recobrar a consciência. No além, as imagens são pouco definidas, mas ela percebe que os que partiram experimentam um certo tipo de paz. Impressionada com que viu e sentiu, a mulher se afasta do serviço e se dedica à pesquisa de outras experiências de quase morte para a elaboração de um livro.

Conforme a trama avança, o escopo de “Nosso Lar” vai se dissipando – para o bem da plateia, as sequências fora do plano físico são limitadas -, mas “Além da Vida” permanece irregular até a conclusão. Isso porque o enredo da jornalista corresponde a apenas um terço do filme: os outros dois apresentam histórias paralelas, uma delas protagonizada por um garotinho inglês que viu o irmão gêmeo morrer atropelado, e a segunda por um vidente americano que tenta ignorar o dom de se comunicar com os mortos. O personagem, interpretado por Matt Damon, é de longe o menos interessante do terceto, mas a deficiência não pode ser atribuída a ele. Ela parte do roteiro de Peter Morgan, que, quando o introduz, afirma categoricamente que as visões que o atormentam (que chegam involuntariamente em flashs, sempre que ele toca as pessoas) são reais. Afinal, todos os seus palpites se provam acertados e há um esforço evidente em não pintá-lo como charlatão, mas como um sujeito bem intencionado, dono de uma alma lírica e leitor ávido de Charles Dickens. Para o ser humano, sofismar sobre o pós-vida é uma necessidade, e jamais obter respostas concretas para uma infinidade de perguntas é justamente o que constitui o mistério. Ainda que não tome partido de religiões, “Além da Vida” reconhece, pelo papel de Damon, a plena existência de um plano espiritual. É, enfim, uma visão tão intransigente quanto o ateísmo ferrenho, e só não arruina o filme por completo porque as demais histórias o colorem com tons de cinza.

É de se espantar que Morgan, um roteirista e dramaturgo voltado a causas políticas (foi ele quem escreveu “O Último Rei da Escócia”, “A Rainha” e “Frost/Nixon”, só para citar alguns), tenha optado por abordar um tema como este. Há indícios, inclusive, de que ele condensa na jornalista várias de suas convicções pessoais – ela, também especializada em reportagens politizadas, é rejeitada no meio editorial quando decide escrever um livro voltado a outro nicho. Também não é um filme que se associaria à Clint Eastwood, que, como de praxe, assina a direção, a produção e a trilha sonora. Ele é bom no que faz, mas, dessa vez, imprime pouco de sua marca pessoal: se geralmente preza por cenas econômicas e enxutas, aqui as concebe infladas, emotivas e estendidas além da conta. Rende-se, ainda, a um final convencional que tem um tantinho de covarde e um bocado de cafona. Dessas duas coisas, “Nosso Lar”, ao menos, tinha apenas a cafonice.

.:. Além da Vida (Hereafter, Estados Unidos, 2010, Drama). Cotação: C-

2 Comentários leave one →
  1. 16/01/2011 10:10 pm

    Eu acho que vou ser minoria em relação a este filme. Adorei “Além da Vida”. Acho que o filme tem uma trama que toca muito e a divisão entre as três linhas narrativas funcionou muito bem comigo. Para mim, o melhor filme do Clint Eastwood desde “Cartas de Iwo Jima”.

    • 16/01/2011 10:39 pm

      Ka, acho que Além da Vida é o tipo de filme que pode ser tão tocante para certas pessoas que seus defeitos são irrelevantes para elas. Fico feliz que tenha conseguido absorver a obra tão bem assim. Pena que não aconteceu comigo…

      Beijo !

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