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Um elefante emociona muita gente

14/01/2011

Quando a sociedade era nivelada por baixo e as idiossincrasias reprimidas no íntimo de cada um, as aberrações – aqueles que, por convicção ou falta de opção, escapuliam dos padrões de normalidade – eram relegadas às tendas de circo e expostas ao público pagante como atrações de primeiríssima grandeza. Trata-se de uma nódoa vergonhosa da cultura européia e americana, que permitiu a submissão de seres humanos a episódios de degradação e humilhação em nome do lucro pessoal de poucos e do entretenimento de muitos.

Joseph Merrick (1862-1890) estava destinado a passar a vida inteira como uma dessas cobaias: devido a um defeito congênito, calosidades enormes lhe cresceram no lado esquerdo do corpo e da face e lhe valeram o apelido de Homem Elefante. Não havia registros de uma deformidade física tão avantajada, e ninguém na velha Londres vitoriana estava preparado para aceitá-la. Se haviam recursos disponíveis para estudar a doença, Merrick, tratado no chicote pelo dono do circo com que se apresentava, certamente não teria condições de usufruí-los. Isto é, até o médico e pesquisador Frederick Treves descobrí-lo num carnaval. Fascinado pelo caso, ele encaminhou Merrick ao hospital para análises aprofundadas – mas, à medida que a convivência entre os dois se intensificava, Treves foi deixando de se interessar pela estrutura óssea para prestar atenção no homem por baixo dela (que, ao contrário do diagnóstico inicial, não era mentalmente incapacitado, mas lúcido e dono de uma imaginação fertilíssima).

Essa relação curiosa entre os dois é o tema de “O Homem Elefante”, o filme mais tocante e emotivo da carreira de David Lynch. Foi o produtor Mel Brooks quem lhe confiou a direção, quando Lynch tinha no currículo apenas uma série de curtas e o longa “Eraserhead”, que antecipavam a sua inclinação ao nonsense e ao bizarro. Mas, aqui, o que há de estranho é mais que um exercício de estilo: é funcional à narrativa e à construção do pesadelo que envolve o protagonista. A fotografia em preto-e-branco, a trilha incidental e a edição dependente da tela preta não conferem somente a identidade da semi-biografia, mas também do biografado.

Para compor Joseph Merrick, o formidável John Hurt se camuflou sob quilos e mais quilos de maquiagem, que só não foi premiada com o Oscar porque a categoria não fora criada na época da produção. A expressividade é resumida a voz e aos movimentos corporais, e é através deles, e apenas deles, que Hurt sustenta a transformação de Merrick de um animal afogado na autocomiseração em um homem civilizado que descobre o amor próprio. Além dele, toda a equipe rodeia o filme de circunspecção – o que faz com que “O Homem Elefante” corresponda à sua proposta e que o espectador, tomado pela emoção, escuse as topadas ocasionais do roteiro. Motivos mais do que nobres para que a obra sobreviva ao tempo.

.:. O Homem Elefante (The Elephant Man, Estados Unidos, 1980, Drama). Cotação: B+

2 Comentários leave one →
  1. 15/01/2011 3:48 pm

    eu assisti esse filme pela primeira vez quando era muito pequena, e eu sempre, sempre, seeeempre jurei que era um filme muito velho.
    muitos anos depois, já adulta, eu descobri que o filme nem era tão velho assim, que eu já era uma menininha e tudo quando ele foi lançado. foi reassistindo que vi o Anthony Hopkins todo pimpão nele; fiquei begíssima, e aí fui atrás das informações.

    outro que gostaria de rever. muito bonito, muito triste.

    • 15/01/2011 5:38 pm

      Quéroul, o seu engano é muuito comum. O filme realmente remete a uma época bem mais distante ! Essa foi só a segunda vez que eu vi. Não gosto tanto assim, mas respeito certas opções e admiro outras. Dica: o TeleCine Cult o reprisa ocasionalmente. Fica de olho !😉

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