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Séraphine: arte divina

13/01/2011

Em “Séraphine”, a magnífica atriz francesa Yolande Moreau é a personificação da pintora Séraphine de Senlis (1864-1942), desde quando ela era apenas a humilde faxineira Séraphine Louis. Rechonchuda, corcunda, manca e solitária, Séraphine vivia dos trocados dos inúmeros trabalhos de limpeza e lavanderia. Comia quando sobrava dinheiro e atrasava mais prestações do aluguel de seu quartinho do que a senhoria desejava, mas jamais abria mão de suas pinturas. Comprava o material que podia e improvisava no que faltava (o sangue dos animais abatidos, por exemplo, era o ingrediente ideal para se obter um matiz de vermelho).

Sem qualquer instrução ou formação, concebeu obras que impressionavam desde o princípio pela rusticidade e ingenuidade, e que foram aperfeiçoadas com o tempo em peças de inestimável valor artístico. Wilhelm Uhde, crítico de arte e marchand alemão, foi o principal responsável por descobrir essa mulher extraordinária e valorizar o que todos os demais descartavam. Ele a incentivou a continuar pintando durante os períodos mais espinhosos da História do país – os ecos da Primeira Guerra não tardaram a se tornar mais fortes – e lhe proveu as condições para largar a rotina exaustiva e se dedicar à arte somente. O legado de Séraphine, no entanto, jamais a alcançaria em vida: seu atraso mental e fanatismo religioso, ainda que sempre evidentes, foram se acentuando nos anos derradeiros até reduzi-la à catatonia num asilo.

O diretor Martin Provost respeita demais a biografada para fazer pouco caso de sua convicção inabalável de que anjos lhe guiavam a mão enquanto pintava. Quem somos nós, afinal, para dizer que um dom tão autêntico e genuíno não pode ser atribuído ao divino? Em “Séraphine”, o misto de prazer e rejeição em possuir um talento que ninguém está preparado para aceitar é retratado no ritmo específico do cinema francês, sem a obrigatoriedade de oferecer as catarses tão estimadas pelo público americano. Como em todo bom drama europeu, esta também é uma história de classes sociais e aspirações sufocadas. Com a diferença de que, quando superadas as provações, o ganho não será pessoal – será de toda a humanidade.

.:. Séraphine (Idem, França / Bélgica, 2008, Drama / Biografia). Cotação: A-

2 Comentários leave one →
  1. 14/01/2011 1:48 am

    Pelo jeito a atriz principal é o grande destaque do filme, né? A conferir!

    • 14/01/2011 1:02 pm

      Ka, não somente é como ganhou os prêmios dos críticos de Los Angeles e da National Society no ano passado. Se fosse uma performance em língua inglesa, sem dúvidas teria vencido o Oscar!

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