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De bom a melhor: Um Dia de Cão

13/01/2011

Em 22 de agosto de 1972, John Wojtowicz e Salvatore Naturile conduziram um roubo à mão armada a um banco do Brooklyn que acabou se convertendo numa situação de reféns com a chegada da polícia e num espetáculo de proporções nacionais com a chegada da mídia, que transformou os assaltantes em peões das causas sociais que assolavam os Estados Unidos naquela época. Três anos depois, a versão dramatizada desses acontecimentos chegaria às telas pelas mãos de Sidney Lumet em “Um Dia do Cão”.

John, rebatizado de Sonny pelo roteiro e interpretado por Al Pacino, servira no Vietnã durante a guerra que ainda transcorria e não possuía passagens pela polícia, mas assim que o cerco começa a se fechar, assume o controle da situação e se volta contra as autoridades com ferocidade e lucidez espantosas. Quando indagado porque recorria ao crime, responde que não se vive dignamente sem um bom emprego, e que não se arruma um bom emprego sem fazer parte de um sindicato. O salário semanal de um serviço não-sindicalizado não bastava para sustentar a mulher e os dois filhos pequenos, que dependiam da previdência, muito menos para quitar a cirurgia de mudança de sexo do transexual com quem era envolvido (e quando as inclinações homossexuais de Sonny são esclarecidas, o espectador terá de absorver esse dado acerca do personagem para aderir novos significados aos seus gestos).

Romantizado pela imprensa em tempo real, Sonny ganha a simpatia imediata da população – ou, ao menos, da parcela que faz plantão diante do banco, acompanhando o armar do circo. Afinal, as pessoas comuns partilhavam das mesmas frustrações e de um descontentamento tremendo para com o governo, e viam o que engoliam em seco serem bradados por Sonny em alto e bom som. Para muitos, o crime não passava de um inofensivo ato de rebeldia, e certos instantes do filme são tão espontaneamente hilários – as balconistas feitas reféns, por exemplo, parecem vivenciar a maior diversão de suas vidas – que seria condizente se o assalto fosse mesmo reduzido a um rompante sem atenuantes. Mas, a densidade vai aflorando de pontos inesperados, Lumet vai refinando a narrativa com as intenções sempre em evidência, e Pacino vai adicionando novas camadas à interpretação mais emblemática de sua carreira. Ao final, há tanto a processar e absorver de “Um Dia de Cão” que uma revisão – ou duas, ou vinte – se faz necessária.

.:. Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, Estados Unidos, 1975, Crime / Drama). Cotação: A+

2 Comentários leave one →
  1. 13/01/2011 3:28 pm

    eu achei o filme liiiindo. assisti há pouco tempo, tem partes que me escapam, mas eu sei que gostei pra caramba. até do Al Pacino, que ainda não era o ator-gritador que me irritou tanto de uns tempos pra cá.

    quero rever.😉

    • 14/01/2011 1:03 pm

      Quéroul, essa é a minha atuação favorita do Pacino e uma das melhores que eu já vi em qualquer tela. Linda e bem construída. E o filme, com certeza, não é pra ver uma vez só !

      Beijo.

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