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O Franco Atirador, obra-prima dos anos 70

12/01/2011

A Guerra do Vietnã mal chegara ao seu crepúsculo quando Hollywood concebeu a versão definitiva do conflito em “O Franco Atirador”. O diretor e co-roteirista Michael Cimino não pretendia fazer um retrato da guerra, e sim dos guerreiros – aqueles que têm de lidar com as conseqüências morais, físicas e psicológicas por muito tempo depois de assinados os tratados de paz. Foi o mesmo tipo de abordagem que diferenciou o recente “Guerra ao Terror”, de Kathryn Bigelow, das demais contemplações da Guerra do Iraque, e nada mais natural que o filme de Cimino, oportuno como nenhum outro de sua época, tenha recebido amplo reconhecimento da Academia (venceu, além das estatuetas de Filme e Direção, as de Som, Edição e Ator Coadjuvante para Christopher Walken, além de indicações para Roteiro, Fotografia, Ator – Robert De Niro – e Atriz Coadjuvante – Meryl Streep, na primeiríssima menção da carreira).

Revendo hoje em dia, porém, o prestígio não parece fazer jus à grandiosidade da empreitada. Trata-se de um dos maiores filmes da década de 70, se não o maior, e um dos mais arrasadores que este redator já encontrou em seus anos de admiração pelo Cinema. A trama é esculpida em três atos distintos e bem delineados. No primeiro, a celebração de um casamento se encarrega de apresentar os personagens e seus estilos de vida. A ocasião também serve como a despedida de três amigos – entre eles, o noivo –, que partem para o Vietnã em poucos dias, deixando para trás famílias, namoradas e o emprego como soldadores. Não levam uma vida ruim, ali. São felizes com o pouco que tem, acostumados a se reunir no bar depois do expediente e a dirigir pela cidade fazendo arruaça depois de entornar canecões sucessivos de cerveja. Às vezes, nos finais de semana, rumam para as montanhas para caçar veados, e essa experiência com o rifle é tudo o que eles – inclusive os convocados para a guerra – possuem em termos de armamento.

No ato seguinte, cortado abruptamente para o caos do combate, os três são feitos prisioneiros por vietcongues e forçados a ingressar num traumático jogo de roleta russa. E na terceira parte, os sobreviventes retornam ao lar com um turbilhão de sentimentos que não sabem administrar. A guerra fora responsável pela morte de cada um, seja real ou simbólica, e a partir daí, já não é possível que eles se integrem à vida que conheciam. Voltaram modificados, mas as coisas continuam as mesmas, como se co-existissem num compasso diferente. A narrativa não perde a densidade por um único instante, mesmo nas cenas que primam pela lentidão e que podem testar, obstinadamente, a paciência do espectador. Como resultado, “O Franco Atirador” é longo, mas nem por isso excessivo e abarrotado. Não há um só momento descartável, que não hipnotize pela construção realista e pelas atuações que transcendem o limite da ficção (o roteiro, em respeito a todos os personagens, distribui o foco com harmonia entre eles – o que explica porque, a princípio, De Niro aparece contido e retraído, camuflado no grupo a ponto de não evidenciar sua presença). Poucas vezes um filme americano foi tão desolador ao olhar para a própria cultura e para o cidadão comum que a compõe.

.:. O Franco Atirador (The Deer Hunter, Estados Unidos, 1978, Drama / Guerra). Cotação: A+

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