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As loucuras de Um Estranho no Ninho

11/01/2011

1975 ficou marcado como um ano excepcional para o Cinema. Foi quando Steven Spielberg redefiniu o suspense com “Tubarão”, quando Robert Altman começou a entrelaçar enredos paralelos em “Nashville”, quando Stanley Kubrick concebeu outro clássico instantâneo com “Barry Lyndon”, quando Sidney Lumet fez uma denúncia social feroz em “Dia de Cão” e, principalmente, quando Milos Forman ganhou a carreira com “Um Estranho no Ninho”. Esses cinco filmes excepcionais compuseram a seleção final do Oscar, numa edição que seria alçada à História por outro motivo ainda: “Um Estranho no Ninho” venceria não apenas na categoria máxima, mas também nas outras quatro de maior importância – Direção, Ator, Atriz e Roteiro –, feito que apenas “Aconteceu Naquela Noite” e “O Silêncio dos Inocentes” conseguiram igualar nos mais de oitenta anos de prêmio.

Comparar uma obra-prima a outra não é tarefa fácil, mas guardadas as nuances de opinião, não dá para discordar de qualquer reconhecimento que “Um Estranho no Ninho” tenha recebido. Forman, cineasta tcheco que já pronunciara o talento incomum na Europa, não perdeu a verve ao cruzar o Atlântico: se o cinema americano prezava pela amenidade, ele não o ofenderia com radicalismos, mas tampouco abriria mão das discussões que queria propor. Os produtores – entre os quais Michael Douglas, antes de se estabelecer como ator de sucesso – estavam cientes da visão diferenciada do diretor, e lhe confiaram um roteiro que, adaptado de um livro e uma peça homônimos, era ideal para transpor barreiras. A trama era, afinal, situada num manicômio, e não há ambiente mais propício que esse para sofismar sobre a degradação humana ou sobre uma destruição metafórica com sequelas reais. Mas a premissa era mais ousada: delineava, também, uma rivalidade titânica entre dois personagens que só seria igualada posteriormente quando o próprio Forman presenteou o mundo com “Amadeus”.

De um lado do ringue, há o vagabundo Randle McMurphy (Jack Nicholson), admitido no hospício depois que os guardas da prisão rural (à qual fora condenado por transar com uma menor de idade) interpretaram o seu temperamento inflamado como sinais concretos de desvios psicológicos. De outro, há a enfermeira, Srta. Ratched (Louise Fletcher), que comanda a ala do hospital com aparente solicitude, embora o tom polido e condescendente para com os pacientes revele o inabalável senso de superioridade de uma mulher inebriada pela autoridade. Para McMurphy, a instituição é o paraíso: restam-lhe menos de três meses da sentença para cumprir, e a companhia dos loucos, mais as mordomias de que dispõe ali, são opções agradabilíssimas para matar esse tempo. O que ele não percebe de imediato é que, uma vez efetivada a transferência, ficará sob custódia integral dos médicos, e poderá ser mantido ali por um período indeterminado, até que eles se dêem por satisfeitos com seu estado mental.

A Enfermeira Ratched saboreia o poder sobre McMurphy. Diz para a junta médica que quer ajudá-lo, mas pela maneira que o roteiro se posiciona, o espectador tem a plena consciência de que ela deseja, ao invés disso, domá-lo e domesticá-lo. Mas McMurphy, acostumado a avacalhar e a jamais dar o braço a torcer, promete não se converter numa vaquinha de presépio e faz de tudo ao seu alcance para contrariá-la. Sua presença vai redefinir a rotina regrada dos internos, e muitos dos comportamentos vistos como anárquicos e prejudiciais são justamente o que tiram do estupor mesmo os casos dados como irremediáveis. Se o caos os corrói, McMurphy lhes ensina a dar o troco em espécie. Ratched não demora a perceber que está perdendo o controle da situação – e isso é simplesmente inaceitável. Os dois medirão forças até o final, e o critério de desempate para essa disputa será o número de homens que conseguiram controlar.

O resultado é formidável em termos técnicos e narrativos: “Um Estranho no Ninho” é teatro filmado da melhor qualidade, cujo jogo cênico é apoiado por interpretações brilhantes e irretocáveis, como se sugadas da vida real (e os desempenhos fantásticos de Nicholson e Fletcher não ofuscam a magnitude dos coadjuvantes). Mesmo vindo ao mundo numa época em que a criatividade vicejava, é impossível não destacar esse exemplar como um dos mais interessantes, representativos e significativos de sua década.

.:. Um Estranho no Ninho (One Flew Over the Cuckoo’s Nest, Estados Unidos, 1975, Drama). Cotação: A+

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