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Conviction: culpado ou inocente?

10/01/2011

Em 1983, a polícia do Massachusetts finalmente reuniu as provas necessárias para incriminar Kenneth “Kenny” Waters pelo assassinato de uma senhora três anos antes. Ele fora o principal suspeito na ocasião, e quem o conhecia na minúscula cidadezinha de Ayer não esboçava surpresa frente às acusações: o temperamento explosivo, o constante envolvimento em brigas, a instabilidade profissional e as detenções rotineiras por contravenções faziam de Kenny o principal estorvo da comunidade. Sua irmã Betty Ann, no entanto, conhecia o homem que cresceu junto dela e sabia que, problemas à parte, ele seria incapaz de tamanha atrocidade. A condenação de Kenny e o eventual enclausuramento levam-na, também, a um tipo de prisão emocional.

Daí em diante, Betty Ann dedica a própria vida a provar a inocência do irmão, uma insistência que arruína seu casamento e compromete a relação com os dois filhos que tenta criar sozinha. Nos anos seguintes, ela estuda para se tornar advogada e, depois de bacharelada, assume a defesa de Kenny, reabre o processo e resgata evidências que os avanços tecnológicos, como o novíssimo teste de DNA, podem ajudar a descartar. O veredito final só seria conhecido em 2001, e o que “Conviction” pretende mostrar é como, nos dezoito anos que decorreram nesse ínterim, Betty Ann conseguiu preservar intacto um amor quase miraculoso pelo irmão. O longa até arranha algumas críticas ao sistema judicial americano, que pode se voltar contra o povo com a mesma eficiência com que o protege – mas, é mesmo o vínculo sentimental que assume o centro da trama e dimensiona os personagens.

Histórias verídicas como esta são um prato cheio para a televisão americana, que tem faro aguçado para dramas de tribunal motivados por emoções humanas. De fato, blocos de filmes com propostas similares são feitos sob encomenda para canais que construíram a reputação em cima de um modelo específico de melodrama. “Conviction” está incluso na minoria a ser rodada em película e a estrear comercialmente nos cinemas. Nem por isso, porém, perde o aspecto pobre, malfadado e chinfrim de uma dramaturgia que não pretende ser nada além. Não que qualquer produto televisivo possa ser menosprezado numa generalização, ainda mais com a qualidade exponencial dos programas atuais. “Conviction” é que se contenta com as técnicas rasteiras que a própria TV já está dispensando, enquanto se reinventa para suplantar levas inteiras de produções cinematográficas.

O diretor Tony Godwyn demonstrara interesse em adaptar o caso para as telas desde que ele tomou a mídia por assalto. Mas os anos de planejamento não se refletem no resultado: a direção é relapsa e apressada, e o roteiro de Pamela Gray tampouco dá oportunidades para feitos mais notáveis. A narrativa não exibe um só vestígio de sofisticação. Sempre que pode, recorre a flashbacks dos irmãos ainda crianças ou a uma época anterior à prisão (um atestado da falta de requintes são as opções da maquiagem, que reduz as mulheres do passado a peruas de cabelo armado com goma e laquê). Os pontos cruciais do enredo, ao invés de fluírem com naturalidade, parecem demasiadamente esquematizados, e a trilha sonora, composta por violino e pianinho, intervém nos momentos-chave para causar “aquele” efeito.

Sem as presenças de Hilary Swank e Sam Rockwell, parece seguro afirmar que “Conviction” não chamaria um décimo da (pouca) atenção que atraiu. A primeira é eternamente vilipendiada por ter levado dois Oscars – um deles, bastante discutível – sem corresponder aos louros com uma carreira sólida. Rockwell é o oposto: tem uma carreira mais regular, participações elogiadas em projetos idem e trabalhos irreparáveis em fitas subestimadas, mas reconhecimento nulo. Ambos são, acima de tudo, bons atores, que desenvolvem uma química afetuosa e dão conta do recado, apesar de disporem de arcos planíssimos. Vale destacar, também, uma ponta marcante de Juliette Lewis, da qual é impossível desviar os olhos quando está em cena. Mas nada – nem mesmo o elenco acima da média – escusa “Conviction” do crime de omitir uma informação elementar. Os letreiros finais ignoram que Kenny morreu num acidente três meses após o fechamento do processo. Triste, mas como encerrar uma fita inspiradora numa nota tão negativa? Antes deixar o público saborear a catarse do que infectar a versão caramelizada com doses letais de realidade.

.:. Conviction (Estados Unidos, 2010, Drama). Cotação: C-

4 Comentários leave one →
  1. 10/01/2011 11:39 pm

    Meu único interesse neste filme é a atuação da Swank e a performance do Rockwell. No mais, concordo que a história é a cara daqueles telefilmes dramalhões…

    • 12/01/2011 12:35 am

      Ka, ô se tem ! O elenco, no entanto, é acima da média e o que compensa mesmo as opções mais mequetrefes.

  2. darlan jorge santos alves permalink
    25/01/2011 3:19 pm

    não sou nenhum crítico de cinema , mas entendo que , mesmo que teja as críticas a parte, em relação ao filme, a história é altamente inspiradora, e incentivadora para quem passa problemas
    e tragédias pessoais no quesito superação.

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