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127 Horas em 90 minutos

08/01/2011

Salvo os exageros, “Enterrado Vivo”, lançado ano passado no Brasil, era um drama de personagem extremamente claustrofóbico que conseguia situar a ação num único cenário – o caixão no qual o protagonista é sepultado – sem qualquer recurso externo e variação. Dentro de sua proposta, “127 Horas”, o primeiro trabalho de Danny Boyle após a consagração por “Quem Quer Ser Um Milionário?”, feito por quase integralmente a mesma equipe do anterior, tinha condições de corresponder a tudo isso em grau maior.

O filme se inspira num livro autobiográfico para retratar os cinco dias que Aron Ralston, engenheiro por formação e aventureiro por vocação, passou soterrado num cânion em Utah, durante uma de suas expedições independentes. Enquanto descia por um precipício, uma rocha de uma tonelada se deslocou e esmagou seu braço direito. Aron não avisara nenhum amigo ou familiar sobre o passeio; não havia ninguém por perto num raio de quilômetros, e ele estava há metros da superfície, impossibilitado de se mover e, conforme as horas avançavam, passos mais próximo da morte por inanição. As discussões que o conflito evoca nunca perdem o valor: acidentes assim são a tese perfeita sobre como o instinto de sobrevivência modifica o ser humano em circunstâncias desesperadoras, e o tipo de história que obriga o espectador a se colocar na posição do personagem e ponderar se seria capaz de agir do mesmo modo se preciso.

O roteirista Simon Beaufoy, também premiado pelo “Milionário”, é muito feliz na colocação desses argumentos. No caso de Aron, a aflição é tão densa que por pouco não se materializa num segundo personagem: ele tenta mover a pedra com tanta força que seus órgãos internos parecem prestes a explodir; quando percebe que isso é inútil, tenta esfolar as extremidades da rocha para escapar; quando a água que raciona finalmente chega ao fim, bebe a própria urina para permanecer hidratado. Do equipamento que trazia consigo, só conseguia fazer uso da lanterna e do canivete, e mesmo este era dos mais reles, feito na China, e não na Suíça. Gradualmente, vem a compreensão de que não é a rocha que precisa ser removida – é o braço. Mas, supondo que a ideia de automutilação fosse assimilada e não faltasse coragem para realizá-la, como fazê-lo com uma lâmina não mais afiada que uma faca de cozinha? Aron, em sua capacidade admirável de preservar a sobriedade e a racionalidade diante de opções nada agradáveis, também não sabe – mas vai aprender na prática.

A trama, nesses critérios, tem um desenvolvimento adequado em termos narrativos e estéticos. O público se preocupa com Aron no nível de tensão crescente que deveria. A fotografia de Anthony Dod Mantle e Enrique Chediak é nunca menos que magistral ao capturar o espaço minúsculo entre as rochas por ângulos inimagináveis. É, também, a solução ideal para as invencionices visuais que Boyle tem tornado mais sugestivas a cada filme. Hiperativo demais para acomodar a câmera no tripé, ele a faz alçar voo, assenta-a em objetos cenográficos (como quando a coloca dentro da garrafa térmica e dá ao espectador uma visão privilegiada de Aron tentando absorver uma última gota d’água) e recorre a efeitos lelouchianos (de Charles Lelouch, famoso pelo uso da teleobjetiva). Incapaz de deixar cada imagem quieta em seu lugar, Boyle as combina aos montes, resgatando inclusive materiais de arquivo e, por vezes, dividindo a tela em três pólos diferentes, que o montador Jon Harris consegue harmonizar mesmo quando prevalece o excesso.

O que poderia se tornar um videoclipe bagunçado – ao que se pesa a trilha vibrante, mas demasiadamente eletrônica do compositor indiano A. R. Rahman – é, numa análise geral, necessário para contar a história como o diretor, em sua plenitude profissional, pretendia. O exercício seria em vão, porém, se não contasse com um intérprete do talento de James Franco para manter a consistência no que é, basicamente, o show de um homem só. Com a performance mais nuançada de uma carreira marcada por ousadias, Franco deixa de ser considerado uma promessa para se unir aos grandes atores americanos em atividade. Nele se vê a garra e a entrega que muitos veteranos consolidados jamais demonstraram possuir. Não é o caso de dizer que a atuação é maior que o filme em que se encontra, mas é certo que, aqui e ali, a atuação absorve o filme em si.

O maior problema de “127 Horas” advém, ironicamente, de boa intenção. Diretor e roteirista não reduzem Aron ao acidente que o tornou célebre. Sabem que ele tem um passado e uma vida a que retornar – e sem essas peças no lugar, a luta pela sobrevivência soaria estéril e autocentrada. E é aí que fogem do escopo a que “Enterrado Vivo” conseguiu se ater: não encontram uma maneira de ilustrar esse repertório pessoal sem escapar do cenário principal. Apelam, então, para flashbacks, mas sempre que inseridas, as intervenções comprometem a fluidez do enredo, tornando-o truncado. Tampouco explicam com naturalidade o que podem cobrir de didatismo – o auge vem na cena em que Aaron, já à beira do delírio, fala consigo mesmo como se estivesse num programa de auditório, instante que serve mais para esclarecer as eventuais dúvidas do espectador do que para atestar o estado de espírito do personagem.

Em outros momentos, recorrem às hipóteses que Aron formula em seu isolamento: “e se” ele tivesse falado no telefone com a mãe antes de partir para a aventura; “e se” houvesse uma enchente que o arrastasse para longe dali; “e se” ele ainda tivesse chances com a moça que amava. Não bastasse a fragilidade desses artifícios, eles são mostrados ocasionalmente como se estivessem acontecendo de fato, para que só depois fique claro que se tratam de fantasias – mas o público embarca no longa já conhecendo o caso real, que não é negado nem mesmo na sinopse oficial, e percebe a pegadinha que está sendo orquestrada antes que ela chegue ao seu ponto nevrálgico. Os defeitos não chegam a comprometer o impacto de um filme que termina em nota alta e transborda positivismo no que poderia pender para o choque e o mau gosto. Garantem, no entanto, que o time vencedor de “Quem Quer Ser o Milionário?” se contente em aplaudir os concorrentes dessa vez.

.:. 127 Horas (127 Hours, Estados Unidos / Reino Unido, 2010, Drama / Aventura). Cotação: B+

4 Comentários leave one →
  1. 08/01/2011 1:13 pm

    hoje eu sou amiga do Franco, por causa de Milk.
    eu crio essas ‘inimizades’ baseadas em absolutamente nada, só no ‘não fui com a cara’, e passei anos torcendo o nariz pra qualquer coisa onde o guri aparecesse. dormi em Pinaple Express só porque ele tava lá (e o filme nem é tão bom assim mesmo), e quase quase desisti de Milk (apesar que o contrapeso era pesado demais: Penn + Brolin + Hirsch = excesso de amor).
    mas deu um plim no meu coração um dia, e eu já quis ver o 127 horas menos pela história, menos pelo Boyle, menos pelas cenas e muito mais pelo Franco.
    nem entendi.

    enfim, quero ver muito mesmo. achei o trailer tão bonito…😉

    • 09/01/2011 8:43 pm

      Quéroul, posso te assegurar que está no caminho certo: Franco é mesmo o maior incentivo para se assistir a 127 Hours. Já estava “growing on me” com o tempo (embora sempre tivesse minha simpatia, pois participou da maravilhosa série Freaks and Geeks e é da trupe do Judd Apatow), mas agora, realmente, atingiu a maturidade – na vida e no meu coração!

      Beijo🙂

  2. Tiago permalink
    10/01/2011 12:56 am

    Eu tbm torcia o nariz para o James Franco, mas eu achei ele fantastico nesse e me rendi. Acho que o Danny Boyle mais uma vez fez um filme duro com aquele fim a lá Milionario, dando aquela sensação boa que eu até gostei e me senti emocionado graças a trilha. Bom e James Franco me surpreendeu que as vezes ele nem precisava falar com a camera, quando ele tinha aqueles momentos tensos sem soltar uma palavrinha sequer mostrava o ator que ele realmente é. gostei viu. E queria ele levando o Oscar até. (:

    • 10/01/2011 10:16 am

      Tiago, acho difícil Franco tirar o Oscar do favoritíssimo Colin Firth, que ainda não assisti para comparar. Mas, independente do prêmio, esse desempenho sempre será visto como um divisor de águas na carreira dele. Brilhante !! E também fiquei emocionado ao final. Combinação perfeita de direção, trilha, atuação, fotografia.

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