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O aguardado Bravura Indômita

07/01/2011

Alguns se recordam de “Bravura Indômita” como o faroeste que, em 1969, finalmente deu o Oscar de Melhor Ator ao maior representante do gênero, John Wayne. O filme homônimo que os irmãos Coen lançam agora não se trata de uma refilmagem íntegra daquele exemplar. É, na verdade, uma nova adaptação do mesmo livro que o inspirou, escrito por Charles Portis em 1968. Na trama, Mattie Ross (aqui interpretada por Hailee Steinfeld) relembra o período mais marcante de sua vida, quando, aos 14 anos de idade, desafiou as normas e conveniências que regiam a vida das mulheres no Arkansas de 1877, para cair na estrada junto de dois caçadores de recompensa.

O pai de Mattie fora morto por conta de dois cavalos e dois broches de ouro, e como ela percebe que o status desse crime é insignificante aos olhos do xerife, sai em busca do assassino por conta própria. Com desenvoltura e perspicácia, negocia os animais que herdara por um preço razoável e oferece parte do dinheiro como pagamento ao velho Rooster Cogburn (Jeff Bridges), que mesmo caolho e barrigudo, ainda possuía a melhor média de perseguições e capturas de fugitivos na região. No entanto, ela insiste em acompanhá-lo na missão, para garantir que não seja lograda. Troca os vestidos pesados por sobretudo, bota e chapéu (que estofa por dentro com jornal para que não lhe cubra os olhos), e vai à luta.

Rooster não é receptivo à presença de uma garota inexperiente (faz mais de uma tentativa de deixá-la para trás), mas é inútil contra-atacar suas imposições e raciocínio afiado. À medida que os personagens se aproximam, Mattie vai se moldando numa figura filial, embora só ao final o filme assuma o paralelo entre Cogburn e o pai verdadeiro, o que morreu. Entrementes, o oficial LaBoeuf (Matt Damon), que os acompanha na peregrinação, tem interesse em levar o foragido à justiça, mas no estado do Texas, aonde é procurado por outro crime e o preço por sua cabeça é mais adocicado. Enquanto avançam pelos terrenos áridos e escuros, registrados magnificamente pela fotografia de Roger Deakins, o trio vai solidificando as relações frente ao perigo crescente – dos coadjuvantes pitorescos com quem cruzam pelo caminho até a gangue de foras da lei liderada pelo personagem de Barry Pepper, da qual faz parte o bandido que motiva a ação (Josh Brolin).

Dizer que “Bravura Indômita” é um autêntico western não implica numa diminuição. O gênero já foi dado como morto, mas, volta e meia, alguns cineastas dão indícios de que não desistiram de desfibrilá-lo. Nos anos 50 e 60, essa era uma das fontes de lucro e diversão mais garantidas de Hollywood e, contrário à percepção popular, a fácil apreciação não correspondia à falta de profundidade. Em sua era de ouro, os faroestes eram o reduto de discussões universais, ideais para ponderar os limites da justiça legal e da pessoal, ou da civilização e da falta dela. Inseridas as devidas proporções de drama, eram também teses perfeitas sobre a amargura e a gânancia do homem, e sobre como elas se contrapõem à crueza do ambiente. Mais uma pitada de aventura e tem-se aí um programa infalível.

Nada disso passa despercebido a Joel e Ethan Coen, que já utilizaram os mesmos argumentos, com maior ou menor ênfase, em sua filmografia (de maneira melhor delineada em “Onde os Fracos Não Têm Vez”, que lhes consagrou com o Oscar há alguns anos). Como os exímios artífices que são, não há plano que não seja bem construído e posicionamento de câmera que não impressione. Mas, é o domínio de ambos ao contar uma história que faz a diferença. Em “Bravura Indômita”, as mensagens estão bem posicionadas, mas os personagens, ao invés de meras representações desses pontos de vista, são matizados e cumprem seus arcos dramáticos. A produção também é de um capricho ímpar: não apenas a mencionada fotografia deve receber uma menção da Academia, mas também os figurinos, a direção de arte, a maquiagem e a confecção de som são intocáveis e dignos de prêmio, tal como a formidável trilha sonora de Carter Burwell, esta inelegível na competição.

Também se espera indicações para Jeff Bridges, no mesmo papel que rendeu à estatueta à John Wayne, e para a novata Steinfeld. O primeiro, não resta dúvidas, é um grande ator. Seu Rooster Cogburn é em muito parecido com o cantor country de “Coração Louco” pelo qual recebeu todas as glórias no ano passado: alguém que bebe demais e tem expectativas de menos, e que não aceita de bom grado que a idade está lhe esvaindo as virtudes. Só que, dessa vez, a composição está menos econômica e mais histriônica, muito apoiada na voz gutural e em enunciações que mais parecem rosnados. Já Hailee, por estratégia do estúdio, está sendo vendida como coadjuvante, quando não poderia ser mais protagonista: sua personagem aparece em todas as cenas e dá mote aos acontecimentos. Ela é certamente expressiva, mas nem sempre natural. É quem dispara a maior parte dos diálogos rebuscados, e as palavras já arcaicas e obsoletas acabam soando decoradas e ensaiadas, e não projetadas como se fossem pensadas no momento. Não era de se esperar, mas são justamente as atuações que impedem “Bravura Indômita” de atingir o excelente. Às vezes, na vida, temos de nos contentar com o muito bom.

.:. Bravura Indômita (True Grit, Estados Unidos, 2010, Faroeste / Drama / Aventura). Cotação: A-

2 Comentários leave one →
  1. 07/01/2011 10:15 pm

    Tô curiosa em relação a este filme. Especialmente porque é dos irmãos Coen, diretores com quem mantenho uma certa relação de amor e ódio! rsrsrsrsrs Beijo!

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