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Estreia o excelente Enrolados

07/01/2011

Sai ano e entra ano, as princesas continuam sendo o carro-chefe dos estúdios Disney, seja pelo impulso que conferem aos filmes nas bilheterias, seja por protagonizarem atrações de sucesso nos parques temáticos, seja ainda pelos rentáveis produtos que elas inspiram, de castelos em miniatura a bonecas de silhuetas macérrimas que nunca perdem o apelo entre as meninas. Tem sido assim desde o primeiro filme de animação, quando Branca de Neve foi resgatada pelo Príncipe Encantado e viveu feliz para sempre em seu castelo; o mesmo aconteceria com Cinderela, Aurora (de “A Bela Adormecida”, esta princesa por nascimento), Ariel (“Pequena Sereia”), Bela (“A Bela e a Fera”) e Jasmine (“Aladdin”) – embora, conforme soprassem os ventos do feminismo, elas fossem perdendo a passividade das sílfides indefesas para assumir papel mais ativo no cumprimento de seus destinos.

No entanto, depois que a Disney cortou os vínculos com Jeffrey Katzenberg, supervisor responsável pelo período de fertilização criativa da primeira metade dos anos 90, e mais especificamente, depois que a animação tradicional perdeu espaço para a digital, ficou difícil adicionar novas cabeças coroadas à coleção. “Mulan”, por exemplo, frustrou as expectativas; “Encantada” só fez sucesso porque se propôs a subverter os clichês do gênero e abandonou o desenho em favor do live-action após os minutos iniciais; “A Princesa e o Sapo”, apesar de apelar para a memória cada vez mais nostálgica das animações tradicionais e do marketing por trazer a primeira heroína negra do estúdio, teve aceitação medíocre. Felizmente, nenhum desses maus se abate sobre “Enrolados”, a versão disneyficada do conto de Rapunzel, um dos poucos dos irmãos Grimm ainda inexplorados pelo cinema.

Esta é a primeira princesa a vir ao mundo em formato digital e 3D – o que, considerando que a safra recente utiliza a tecnologia para inflar o preço dos ingressos e não para fazer jus ao potencial criativo, não quer dizer muito. Mas, mesmo isso é bem explorado. John Lasseter, animador que ajudou a colocar a Pixar no patamar que está hoje e um dos executivos mais influentes da Disney após a fusão entre os estúdios, não mediu esforços para que tudo saísse no mais alto padrão de qualidade: o orçamento original foi quase dobrado depois que sequências inteiras já concluídas não receberam aprovação, o roteiro de Dan Fogelman (o mesmo de “Bolt – Supercão”) teve de ser reajustado aqui e ali, e celebridades contratadas para a dublagem foram limadas sem cerimônia caso seus personagens destoassem das novas diretrizes do enredo.

Da dupla de diretores, Byron Howard tinha feito “Bolt” – simpático, mas esquecível – e Nathan Greno, colaborador de longa data do estúdio, faz sua estreia. Esse trabalho, porém, basta para lhes ganhar as carreiras. “Enrolados” é tão inesquecível quanto os filmes da Disney que sobreviveram ao tempo, o melhor do estúdio em pelo menos uma década, e certamente o mais engraçado desde “A Nova Onda do Imperador”. O que é mais curioso: as piadas descartam por completo o senso pop e paródico que se tornou uma verdadeira tendência depois de “Shrek” e que ainda ditam o tom das animações da DreamWorks. A trama é desenvolvida com graça genuína, sem que a narrativa soe antiquada e sacal – mesmo as gags com dois personagens mudos, um cavalo e um camaleão, conseguem divertir sem incomodar pela obviedade, a ponto de se tornarem o ápice do filme. A própria Rapunzel é cheia de carisma e não empalidece frente aos coadjuvantes, além de estabelecer uma química deliciosa com o charmoso par romântico.

Num processo de pasteurização, os diretores selecionaram o que deu certo e o que não deu em todas as obras de princesa que os precediam. Aqui, só ficaram os elementos vencedores. A começar pelo envolvimento de Alan Menken, cujas trilhas e canções são o que há de melhor no repertório musical da Disney. Trabalhando em parceria com o letrista Glenn Slater, Menken desenvolve melodias leves e sutis, com mais staccato do que legato, e chega ao nível de suas composições mais inspiradas. No original, as músicas são interpretadas pelos dubladores oficiais de Rapunzel e seu amado Flynn, Mandy Moore e Zachary Levi, que têm vozes muito agradáveis. Na versão nacional, tem boa tradução por Sylvia Salustti e Raphael Rosato (este último, porém, serve apenas como voz de canto: o herói é dublado por Luciano Huck, numa jogada comercial mequetrefe e desnecessária, já que suas péssimas entonação e dicção comprometem o resultado).

Abstraindo o que é devido, pode-se desfrutar por completo dessa fita doce, sincera e não raro belíssima. A premissa do conto original é mantida: Rapunzel é trancafiada numa torre, e lá passa anos a fio enquanto os cabelos crescem em proporções extraordinárias. Mas, quase todos os desdobramentos da trama são pensados do zero. Na verdade, Rapunzel é uma princesa que só veio ao mundo depois que sua mãe, desfalecendo pela gravidez de risco, tomou um remédio caseiro feito com uma flor mágica – a mesma que, durante séculos, foi mantida em segredo por uma velha traiçoeira, que usufruía dos poderes da planta para permanecer eternamente jovem. Os poderes dessa flor foram realocados para os cabelos da garotinha, que crescem sempre que o encantamento é entoado – mas, como só a anciã tem consciência disso, rapta Rapunzel ainda bebê e a deixa fora do alcance de todos na torre, aonde pode se alimentar à vontade daquela fonte de juventude.

Rapunzel cresce conhecendo o mundo apenas pelo que a vilã – que ela pensa ser sua mãe verdadeira – lhe conta. E esse retrato de mundo não é um que ela queira conhecer. Exceto que, depois de anos de solidão, ela chega à conclusão de que, pior do que as coisas estão ali, não podem ficar lá fora. Depois que Flynn Riley, um ladrão de muita lábia, encontra a torre numa de suas fugas dos guardas imperiais, Rapunzel vê no estranho o seu passaporte para a liberdade: toma Flynn como seu guia ao mundo exterior, papel que ele aceita a desgrado, porque ela escondera um de seus furtos mais valiosos – um diadema real – e só concordaria em devolvê-lo nessas condições. Daí em diante, há as soluções costumeiras, mas tão bem narradas que parecem inéditas. O casal sem afinidade vai se espezinhar antes de descobrir uma identificação, e suas peripécias serão seguidas de perto pela vilania. A certa altura, a história chegará a uma bifurcação e, quando atinge seu ponto crítico, as coisas darão errado até demais. Podemos supor que a conclusão será alegre e edificante – mas, dentro das convenções das princesas, “Enrolados” é tão fresco e atual que um final infeliz, para variar, parece inteiramente plausível. Era justamente desse fôlego que a Disney precisava para dar continuidade ao seu império de donzelas.

.:. Enrolados (Tangled, Estados Unidos, 2010, Animação / Comédia / Aventura). Cotação: A+

4 Comentários leave one →
  1. 07/01/2011 5:23 am

    Realmente é um filme formidável. Tirará fácil as vagas de Megamente e Shrek Para Sempre do Oscar 2011. Abraço🙂

    • 07/01/2011 7:54 pm

      Jeniss, concordo, até porque Tangled é MUITO melhor que esses dois. Mas a verdadeira competição que encontrará pela vaga no Oscar vem da animação francesa O Ilusionista (isto é, tomando que Toy Story 3 e Como Treinar Seu Dragão ocupem as outras vagas). Abraço !

  2. 09/01/2011 7:48 pm

    o texto me motivou legal. vou ve ro filme na quarta.

    bom saber que ele será tão épico quanto eu imaginava quando ele foi divulgado(fiquei mais descontente depois com o passar do tempo, pelo filme ser feito em CGI, ser mais cômico e etc..), só uma pena ele não ter recebido o título apenas de Rapunzel.

    • 11/01/2011 9:46 am

      Jonathan, volte aqui depois de assistir pra deixar suas impressões definitivas ! Mas acho que você não vai se decepcionar. Pouca coisa dá errado ali😉

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