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Minhas Mães e Meu Pai: as crianças vão bem

05/01/2011

Em vinte anos de união, Nic e Jules constituíram a família perfeita. A primeira é uma obstetra bem-sucedida e a segunda, depois de inúmeros desencontros profissionais, descobriu a vocação para o paisagismo e está começando um negócio autônomo. Todos no círculo privado do casal aceitam e respeitam o lesbianismo. Os filhos, que cada uma gestou com a ajuda do banco de esperma, são bonitos e educados. Joni, de dezoito anos, se formou com honras no colégio e está indo para a universidade; Laser, de quinze, faz o tipo atlético e integra o time de futebol e de basquete. Pelo visto, as coisas não poderiam estar melhores – mas vão piorar logo mais, para que a diretora Lisa Cholodenko ateste seu ponto de vista em “Minhas Mães e Meu Pai”.

Os indícios de que aquele núcleo não protagoniza um comercial de margarina são plantados desde o início. Laser, ao invés de um rapaz exemplar, é um garoto imaturo e influenciável que está andando em má companhia. Joni exala doçura, mas é tão retraída e insegura que, contrastada à uma amiga espevitada, indica que nunca teve uma relação sexual. Nic e Jules, enquanto carinhosas e comunicativas, enfrentam – ainda que não admitam – a estagnação do relacionamento. O casamento não vem nem vai: ficou empacado entre o amor e a amizade, com os prós e contras de ambos, num ponto em que as qualidades de uma pessoa já se tornaram tão corriqueiras para a outra que esta sequer tira um momento para apreciá-las.

O filme não carrega nas cores e jamais leva as situações ao extremo – porém, sem perder a leveza e o tom solar característicos do cinema independente americano, conduz todos os seus conflitos a um tipo de rompante. Um elemento externo e desconhecido servirá como reagente: Paul, doador do esperma com que Nic e Jules foram inseminadas, é procurado pelas crianças num ato de curiosidade. Sua presença na família, de início formal e desconfortável, vai se tornando mais íntima e frequente, e ocasiona uma divisão de forças entre as mulheres. Jules é favorável a esse novo vínculo, que considera saudável para os filhos e para ela mesma (tem em Paul seu primeiro cliente pagante, quando ele demonstra interesse em remodelar o quintal); Nic, ao contrário, o vê como o intruso que compromete uma equação que já estava balanceada.

O roteiro, co-assinado por Cholodenko e Stuart Blumberg, nunca dá a razão a nenhuma delas. Sugere, no lugar, que cada qual está um pouco certa e um pouco errada. Os anos de coisas não-ditas as predispuseram uma contra a outra e anuviaram o senso de julgamento. Jules está acostumada, por exemplo, a interpretar os silêncios de Nic como recriminação velada, e Nic não enche uma taça de vinho (e são muitas as que entorna por dia) sem se perguntar se Jules a estaria policiando à distância. Falta, enfim, um ponto de contato entre as duas, um tipo de problema inescapável a qualquer união, hétero ou homossexual (aliás, o fator gay é acoplado com tanta naturalidade que as ponderações, se existirem, serão geradas pelos pré-conceitos do espectador).

Paul está longe de ser o responsável por essas divergências. É, no máximo, álcool atirado à fogueira: não teria atiçado as labaredas se o fogo já não estivesse acesso. Tampouco é um sujeito mal intencionado. Pode ter abandonado a faculdade e conservado alguns hábitos de adolescente que Nic despreza, mas é gente finíssima, tem os pés no chão e encontrou estabilidade fazendo o que gosta (cultivando alimentos orgânicos e servindo-os no próprio restaurante). As magníficas interpretações de Annette Bening e Julianne Moore – Nic e Jules, respectivamente – complementam a afabilidade com que Mark Ruffalo recheia Paul. São eles, mais os jovens e talentosos Mia Wasikowska e Josh Hutcherson, que potencializam a energia do filme, conferem a dimensão necessária aos personagens e transformam “Minhas Mães e Meu Pai” numa comédia dramática da melhor estirpe.

Vale mencionar que o título nacional é pouco expressivo perto do original, “The Kids Are All Right”. Este, a uma primeira leitura, apenas indica que as crianças estão bem, resposta-padrão dos pais quando indagados sobre seus filhos. Mas, contextualizando na trama, com os pais sendo duas mães, dizer que as crianças estão bem é afirmar muito mais. É dizer que casais homossexuais não submetem crianças a sequelas ou distúrbios na condição de pais. Joni e Laser não foram em nada prejudicados por virem de uma união lésbica. Têm problemas típicos da idade, mas são bem ajustados e amparados por uma estrutura que muitos jovens não possuem. Como contraponto, o amigo desvirtuado de Laser tem uma presença masculina em casa, mas esta apenas incentiva os seus desvios de comportamento. Não há psicologia reversa aí, ou a intenção de afirmar que casais heterossexuais exercem efeito negativo na prole. Diz apenas que cada caso é único, e que só quem vive nas quatro paredes de um lar pode entender o que dá certo e o que não dá ali dentro. Olhares superficiais vindos de fora nunca farão justiça – felizmente, Lisa Cholodenko, lésbica assumida na vida real, sabe se camuflar na casa de Nic e Jules e observar, sem interferir, o que se passa lá.

.:. Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right, Estados Unidos, 2010, Comédia Dramática). Cotação: A-

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