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O belo Fim de Caso

04/01/2011

Sentado diante da máquina de escrever, o novelista Maurice Bendrix datilografa uma carta carregada de ódio, endereçada, ao que se sabe, a Deus. Como agnóstico, Maurice não é apegado aos dogmas religiosos, mas Sarah Miles, esposa de um amigo que fora sua amante durante os anos em que a Inglaterra padecia na Segunda Guerra, era convicta na existência de um ser superior, com quem se comunicava através de orações. Sarah se torna a razão de viver de Maurice no tempo que passaram juntos – até que, certo dia, leva o caso a um desfecho abrupto, sem fornecer justificativas para tal. Privado dela, o autor desfia as lembranças para recriar o que tiveram.

No que a memória falha em preencher, ele recorre à especulação. Corroído pela ideia de que o outro homem pudesse tê-la – sabia que não precisava se preocupar com o marido, com quem Sarah nutria uma relação de distanciamento físico e emocional –, Maurice contrata um investigador para se certificar de que ela não desenvolvera outra aventura extraconjugal. A partir daí, a narrativa de “Fim de Caso” se distorce de acordo com a interpretação de cada um. Da metade para o final, a história ganha novo fôlego quando Sarah faz a vez de narradora, por meio dos registros em diários que esclarecem pontos que Maurice não presenciou (ou presenciou de relance). Situações apenas tracejadas vão sendo delineadas para que as perspectivas cruzadas componham o quadro completo e o diretor e roteirista Neil Jordan exponha sua tese.

O romance em que o filme se baseia foi escrito por Graham Greene, um dos grandes da literatura britânica, enquanto ele estava envolvido com uma mulher casada e sua Londres enfrentava os ocasionais bombardeios de guerra. Compreendia, portanto, que o amor – em especial, o que está fadado a não se concretizar – vem atrelado a emoções discordantes, e que estas podem se espraiar até moldar por completo aqueles que as sentem. Essa essência não falta à adaptação de Jordan, tampouco os artifícios indispensáveis a qualquer drama inglês: aonde há conflito, há sonhos e desejos sepultados, e aonde há franqueza, há a desolação quase sempre irreversível dos personagens. A fidelidade à riquíssima matéria-prima é o que o longa tem de mais caro – e é louvável, também, que atenda à proposta sem perder de vista o capricho com a fotografia, o figurino e a direção de arte, imprescindíveis em produções de época. As atuações do par central, Ralph Fiennes (ótimo) e Julianne Moore (soberba), são a cereja do bolo. “Fim de Caso” confirma, enfim, que mesmo as temáticas mais surradas podem ser reaproveitadas pelas pessoas certas em belíssimos trabalhos.

.:. Fim de Caso (The End of the Affair, Estados Unidos / Reino Unido, 1999, Drama / Romance). Cotação: A+

3 Comentários leave one →
  1. 04/01/2011 3:25 pm

    Também acho um filme belíssimo, tanto que até mesmo a porção demasiada religiosa (fantasiosa, diria) que vai se estabelecendo lá pelo final não chegou a me fazer desconsiderar a qualidade da obra. A estrutura fascinante da trama, a caracterização de época, as atuações, a música excepcional; enfim, um dos melhores trabalhos de Jordan.

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