Skip to content

Não entre em pânico: O Guia do Mochileiro das Galáxias

03/01/2011

No prefácio do primeiro volume da “trilogia de cinco” livros “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, o escritor inglês Douglas Adams, que deu início à série no rádio para depois adaptá-la em mídias variadas (além da literatura, também cobriu a TV e o cinema), é descrito como um dos pouquíssimos seres humanos que contemplaram o universo em sua totalidade – os outros foram Einstein, Hubble, Feynman e talvez mais alguns que possam ser contados nos dedos de uma mão. Quem avança pelos livros não consegue discordar dessa afirmação: a prosa de Adams, posicionada entre o cômico e o nonsense, é movida por um humor finíssimo, fulgurante e reflexivo, calcado nos conhecimentos excepcionais do autor em tecnologia, física e biologia, e muito similar, em forma e conteúdo, ao que sofisma o grupo britânico Monty Python, com o qual ele colaborou tangencialmente (compartilham, por exemplo, da mesma visão do Homo sapiens absorto em sua insignificância e pequenez, que não passa de um grão de areia num plano geral e universal).

Adams faleceu em 2001, aos 49 anos, vítima de um infarto fulminante, mas é creditado como um dos roteiristas do filme homônimo lançado em 2005. Ele não chegou a ver o script finalizado, mas esboçou vários rascunhos para as dezenas de propostas que surgiram ao longo dos anos, condensados na versão final por Karey Kirkpatrick, dos infantis “James e o Pêssego Gigante” e “A Fuga das Galinhas”. O projeto foi cogitado desde o início da década de 80 (o programa radiofônico que deu origem ao fenômeno data de 1978), primeiro por Ivan Reitman, que desejava rodá-lo com Bill Murray e Dan Aykroyd – mas acabou fazendo “Os Caça-Fantasmas” no lugar – e muito tempo depois, por Spike Jonze. O estreante Garth Jennings, vindo dos videoclipes, não era a primeira opção de qualquer estúdio para a direção, mas as recomendações entusiasmadas do próprio Jonze lhe valeram a confiança. E não seria a única decisão anticomercial: o papel principal coube ao comediante Martin Freeman, desconhecido do grande público, e os outros atores em destaque – Mos Def, Sam Rockwell e a hipster Zooey Deschanel, que hoje está num bom momento profissional – tampouco tinham fama de atrair multidões.

A empreitada, porém, foi um sucesso em proporções moderadas, que confirmou o prestígio e o carinho à obra de Adams – tão cultuada quanto as ficções científicas mais idolatradas – e o talento singular dos envolvidos na produção. O ponto de partida é idêntico ao da série literária: Arthur Dent (Freeman), confuso, ansioso e neurótico como todo patrimônio britânico, está prestes a ter sua casa demolida para que um desvio possa ser construído no exato ponto que ela ocupa. O obreiro é categórico: “As plantas do projeto estão expostas na prefeitura há seis meses! O senhor não foi vê-las porque não quis”. O que ninguém além de um certo indivíduo poderia prever é que a Terra estava, ela mesmo, à beira de demolição (os golfinhos, em sua extraordinária inteligência, perceberam isso e saltitaram dessa dimensão antes do fim iminente). Os alienígenas vogons planejavam um viaduto intergaláctico nessa coordenada do universo – tanto melhor para eles, tanto pior para os humanos. Naves gigantescas cobrem cada porção do planeta para varrê-lo do mapa, mas não antes de uma explicação, em alto e bom som, do que iria acontecer, seguida de protestos aflitos dos terráqueos. “Ora, mas as plantas estavam expostas há apenas quatro anos-luz daqui, por cinqüenta de seus anos terrestres. Não foram vê-las porque não quiseram”, retruca um dos vogons. E, sem mais delongas, a Terra evapora como se nunca tivesse estado aqui.

Arthur Dent, porém, escapa da hecatombe – eis que o único ser que compreendia o que acontecera antes mesmo de acontecer era seu amigo Ford (Def), que, ao contrário do que ele jamais suporia por seus anos de convivência, não vinha da Inglaterra, mas da constelação de Betelgeuse. Estava na Terra por obrigações profissionais: fazia pesquisa de campo para o Guia do Mochileiro das Galáxias, o mais completo de todos os livros do universo, com registros de cada forma de vida já existente e de seus costumes, além de dicas para o forasteiro que se encontra num planeta desconhecido. Ford ajuda a completar o livro com suas observações, ilustradas no filme por meio de uma animação rudimentar e uma narração que preserva, escrupulosamente, os conceitos que Adams formulou (há, por exemplo, um gerador de improbabilidade que materializa absurdos impensáveis, e até mesmo uma cultura, dentre as mais de trezentas que atribuem a existência a algum tipo de Deus, que acredita em idolatrar o Criador com melecas de nariz!). À aventura de Dent e Ford juntam-se o Presidente da Galáxia, o vaidoso e irresponsável Zaphod Beeblebrox (Rockwell), e a encantadora Trillian (Deschanel), a única humana sobrevivente além de Arthur – que almeja dar continuidade à espécie com ela, por motivos não muito altruístas. Marvin (voz de Alan Rickman), um robô contaminado com sentimentos humanos, maníaco-depressivo e dado a filosofices, completa a tripulação.

Nem todas as divagações de Adams permanecem irretocáveis na tela, uma vez que a sucessão de bizarrices e a falta de uma lógica interna – porque tudo é perfeitamente possível nessa narrativa – podem causar estranheza. Como comédia, no entanto, é excelente, e ainda mais especial quando seus elementos surreais simbolizam as dúvidas eternas do homem com uma beleza poética. Em “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, a sensação dos humanos de que estão sendo observados se prova autêntica – exceto que não são zelados por um fantasma onisciente, e sim por camundongos, que conduzem experiências com a nossa espécie enquanto nos deixam acreditar que nós é que experimentamos com a deles. A Terra, após a destruição, é replicada por uma espécie evoluída, que pinta os cânions à tinta e enche os oceanos com mangueiras. E a resposta à “questão elementar” que todos os povos se indagam por íons e íons – o sentido do universo e de tudo o que ele contém – é o número 42. Que o longa tenha executado essas e outras viagens de ácido sem descambar para a canastrice ou perder o fio de meada é quase um triunfo. Douglas Adams, um ateu ferrenho, não acreditava no Além, e por sua crendice (ou pela falta dela), não teria acompanhado a repercussão do filme de onde quer que esteja. Mas, pelo legado que deixou, é fácil deduzir que ele teria aprovado o resultado.

.:. O Guia do Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, Estados Unidos / Reino Unido, 2005, Ficção Científica / Comédia). Cotação: B+

No comments yet

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: