Skip to content

Quanto mais perigoso, melhor

02/01/2011

O diretor inglês Stephen Frears tinha décadas de reputação na TV, mas quase nenhuma experiência no cinema quando, em 1988, deixou todo mundo embasbacado com “Ligações Perigosas”. As referências desse trabalho são as melhores possíveis: ficou marcado como uma impecável produção de época, vencedora dos Oscars de Figurino, Direção de Arte e Roteiro Adaptado, e indicada ainda aos prêmios de Filme, Atriz (Glenn Close), Atriz Coadjuvante (Michelle Pfeiffer) e Trilha Sonora. Frears não foi lembrado pela direção, mas dentre todos os atributos indiscutíveis da obra, esse talvez seja o mais digno de nota: com a habilidade que falta a muitos veteranos, ele reconstruiu um modelo de sociedade que não está mais em vigor, mas muniu seus personagens de emoções atemporais – das puras e cândidas às mais negativas e fascinantes, projetadas por sujeitos mal intencionados, mas nem por isso unilaterais.

As fontes de inspiração foram o folhetim “Les Liaisons dangereuses”, de Pierre Choderlos de Laclos, publicado na França em 1782 numa série de quatro volumes, e a peça que Christopher Hampton, também roteirista do filme, desenvolveu a partir dali. A história original não poderia ser mais acurada. O autor era, ao mesmo tempo, espectador e participante da aristocracia – estava, portanto, em posição privilegiada para retratar os que viviam em abundância material e escassez emocional; sabia que as aparências quase nunca faziam jus ao que se guardava por trás delas, e que o senso de superioridade da nobreza, somado ao ócio dos herdeiros a quem tudo é entregue de bandeja, poderiam se converter em falta de limites e escrúpulos. Para as tendências à crueldade intrínsecas ao ser humano, essa é uma combinação tão inflamável quanto fósforo e querosene. No texto de Choderlos de Laclos, os personagens exprimiam em cartas o que as convenções os impediam de dizer em voz alta, e as diferenças de linguagem entre os relatos eram a solução perfeita para evocar seus estados de espírito. Na tela, essa função coube à expressividade de John Malkovich e Glenn Close, que assumem os papeis dos certamente fictícios, mas assustadoramente reais Visconde de Valmont e Marquesa de Merteuil. Ambos estão em seus melhores momentos – o que, em se tratando deles, não é pouco.

Seus personagens são os principais orquestradores das tramóias que alimentam o enredo. Tanto Valmont quanto Merteuil vêem os fidalgos com quem compartilham as vidas públicas como peças em seu tabuleiro de xadrez. Sempre que possível, buscam maneiras de manipulá-los, humilhá-los, seduzi-los e, se bem-sucedidos nos três passos, levá-los ao escândalo – sem nunca perder, aos olhos gerais, a leveza excessiva que os indica como pessoas solícitas e confiáveis. Mas, os peões mais importantes desse jogo são eles mesmos: só encontram equivalência intelectual entre si, e as falcatruas mais saborosas, tal como os desafios mais intransponíveis, são aqueles que Valmont e Merteuil impõem tomando um ao outro como fatores motivacionais. Sua mais nova aposta envolve a casta e religiosa Madame de Tourvel (Pfeiffer), que o Visconde se compromete a amaciar para logo em seguida desonrar. Caso ele triunfe na tarefa, a Marquesa jura recompensá-lo com uma noite inesquecível de luxúria. Também serão tragados pelas confabulações uma garota inocente (Uma Thurman) e o paupérrimo professor de música por quem ela se apaixona (Keanu Reeves), em contravenções que se alternam entre as mansões de campo na aprazível região de Ilê-de-France e os salões vastos de Paris que abrigavam os eventos sócio-culturais dos anos prévios à Revolução Francesa.

A mesma premissa seria modernizada anos depois em “Segundas Intenções”, suspense com versões mal resolvidas dos mesmos personagens, agora transformados em adolescentes podres de ricos. Também é, com as similaridades menos bem delineadas, a força motriz do seriado “Gossip Girl”, sobre jovens com recursos de mais e ocupação de menos que vivem conspirando uns contra os outros. Nos dois casos, contudo, perde-se o que o “Ligações Perigosas” de Frears absorveu tão bem: os protagonistas não são rebeldes sem causa ou vilões gratuitos; são um reflexo triste e natural de seu meio, que na falta de aspirações concretas, implodem o sistema maleando seus dogmas. É esse entendimento que confere mesmo aos personagens antipáticos uma dimensão trágica e humana – e, quando atingem o ponto crítico, todos eles enfrentarão uma morte simbólica, da qual só se libertarão quando chegar a real. Na trama, não há ganhadores. Já para a equipe que fez de “Ligações Perigosas” o grande filme que é, os louros serão eternos.

.:. Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons, 1988, Estados Unidos / Reino Unido, Drama). Cotação: A+

2 Comentários leave one →
  1. rahru permalink
    02/01/2011 4:45 pm

    Filme maravilhoso.
    Idem para seu texto, você só melhora. *-*

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: