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O nem todo bom All Good Things

02/01/2011

A justiça americana é comumente definida como eficiente, certeira e implacável. Mas, a notória intransigência, as leis que variam conforme as conveniências de cada estado, as pataquadas dos advogados, a dependência de júris tendenciosos e, principalmente, a cobertura incessante da mídia, que transforma tribunais em verdadeiros circos e manipula a opinião pública com seus retratos simplistas e maniqueístas, têm ocasionado uma sucessão de vereditos equivocados, de perdões a condenações. É, enfim, um modelo tão falho e atacável quanto qualquer outro, e só isso explica o fato de Robert Durst, que inspirou o filme “All Good Things”, ainda estar em liberdade.

Filho de um magnata do ramo imobiliário de Nova York, Durst esteve envolvido, direta ou indiretamente, com pelo menos dois assassinatos confirmados e um outro especulado – o da própria mulher, que desapareceu numa noite de 1982, após dez anos de um casamento conturbado e violento. Procurado para interrogatório pelo crime mais recente, passou a viver na surdina, tornando-se o primeiro bilionário fugitivo do país – quando levado à corte, no entanto, alegou legítima defesa na única morte de que não conseguiu se desvencilhar e não chegou a ficar um ano na cadeia. Andrew Jarecki, que já destrinchara o sistema penal no excepcional documentário “Na Captura dos Friedman”, faz aqui sua estréia na direção de longas de ficção. É perceptível, porém, a sua falta de afinidade com o script – pesando nessa equação as soluções formulaicas que o roteiro envoca para botar um ponto final no que continua inexplicado.

Para evitar complicações legais – que ironia! –, Durst é tratado sob o pseudônimo David Marks, que Ryan Gosling, um dos atores mais talentosos de sua geração, se esforça ao máximo para tornar interessante (mesmo quando sabotado por uma discutível maquiagem de envelhecimento). Dispõe, entretanto, de um arco dramático planíssimo, que recorre a um trauma óbvio no passado – David assistira ao suicídio da mãe – para justificar sua personalidade indecifrável e seus rompantes rotineiros. Antes de sumir do mapa – ou ser sumida, como é mais provável –, a esposa de David (Kirsten Dunst) comentava que era mais próxima dele do que de qualquer outra pessoa, e ainda assim não o conhecia. “All Good Things” peca justamente nesse elemento-chave: David não é intrigante o suficiente para que o espectador deseje desvendar seus conflitos e chegar ao cerne do seu ser.

A parceira conjugal, que se tornaria a alma e o coração de uma fita melhor trabalhada, tampouco atinge as devidas proporções: Dunst transmite uma candura genuína, mas a personagem fica empacada no estado de pureza – é ingênua, desapegada das posses materiais e indiferente à fortuna da família do marido – e, quando começa a se modificar, o faz por imposições da classe superior (o auge vem quando uma amiga de David lhe apresenta à cocaína). O filme parece supor que a personagem de origens modestas, pela natureza de sua criação, é alva e inocente, uma presa fácil dos ricos inescrupulosos que têm a ambição, a desonestidade e a antipatia impregnadas no sangue. Pode até haver verdade nessa tese, mas ela é defendida como uma visão genérica e sem meios-tons. São posturas assim que anuviam tantos julgamentos, colocando cidadãos decentes atrás das grades e permitindo que homens como Robert Durst caminhem entre nós. Se a intenção era deixar uma nota de sarcasmo, “All Good Things” acertou em cheio.

.:. All Good Things (Estados Unidos, 2010, Drama / Suspense). Cotação: C-

5 Comentários leave one →
  1. 02/01/2011 10:06 pm

    Não sabia da existência deste filme, mas gosto de longas neste estilo.

  2. 02/01/2011 11:54 pm

    quero muito, pelo Gosling. sempre ele!😀

    • 03/01/2011 1:01 am

      Ka, foi destacado pelo Roger Ebert como um dos melhores do ano, mas não vejo por onde…

      Quéroul, Gosling também me faz bater cartão em qualquer filme que esteja! Mas, aqui, nem ele compensa.

  3. Arthur permalink
    03/01/2011 2:55 am

    Fiquei triste com o “fim” de letters from louis, mas como gosto das suas criticas já botei esse aqui como preferido. Mas tenho uma duvida:as atualizaçoes vão ser constantes aqui no LTLII?

    • 03/01/2011 12:59 pm

      Arthur, espero contar com você como leitor aqui também!🙂 Não sei a que ritmo as coisas irão por aqui. Minha intenção é escrever sobre os filmes que assistir, sempre que tiver tempo. Agora nas férias, com os dias inteiramente livres, estou conseguindo fazer isso mais de uma vez por dia. Depois, quando voltar a rotina – e a rotina desse ano, com a monografia de conclusão de curso na faculdade, promete ser ainda mais intensa – não devo manter atualizações diárias, mas postarei sempre que possível! Abraço.

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