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Os segredos de Veludo Azul

01/01/2011

“É um mundo estranho”, divaga o personagem de Kyle MacLachlan em certo momento de “Veludo Azul”. Ele tinha seus motivos para chegar a essa conclusão: em menos de 48 horas, encontrara uma orelha humana durante um passeio pelo parque, levara o membro amputado até a polícia, aproximara-se da filha do delegado (Laura Dern) e, com base nas informações confidenciais que ela entreouvira sobre o caso, iniciara a sua própria investigação – amadora e ilegal – no ponto em que a oficial empacara. As pistas o colocam no rastro de uma ítalo-americana esbelta (Isabela Rossellini), cantora de casa noturna – mas, quando invade o apartamento dela em busca de respostas, só consegue acumular mais perguntas às que já tinha antes. Do armário em que está escondido, testemunha a moça sendo sodomizada por um criminoso desequilibrado (Dennis Hopper, extraordinário), que lhe desfere ofensas físicas e verbais. Não fica claro porque aquele homem detém tanta influência sobre ela, mas é inconfundível que, entre a humilhação e a resignação, a mulher aprecia muito da violência que lhe é direcionada.

Longe de se desvendar daí em diante, a trama se torna ainda mais densa, fechada, pitoresca e complicada. Conciliar essas características não é problema para David Lynch, que compreende como poucos cineastas o fascínio que o incomum e o desconhecido exercem sobre as pessoas. Tanto que esse conceito tem sido explorado de uma maneira ou de outra em sua obra, através de quebra cabeças intrigantes construídos com meticulosidade e de metáforas orquestradas para se adequar à narrativa subversiva enquanto a extrapolam em significância. Dizer que Lynch flerta com o bizarro seria um eufemismo indigno: é casado com ele, em juras eternas de fidelidade. Ao longo dos anos, teria suas aventuras extraconjugais, esboçando um e outro trabalho quadrado e convencional – mas, felicidade mesmo, só encontra nos braços de seu amor. “Veludo Azul” corresponde à lua de mel dessa relação, quando o entendimento ainda é grande, a paixão é incondicional e o futuro é promissor. Aqui, o que não é bem delineado é tão ou mais envolvente que o que se percebe de imediato, e o que é incompreensível a primeira vista, ao invés de deixar o espectador com a sensação de que foi trapaceado, apenas o motiva a rever já atento ao que perdeu. A experiência cresce com o tempo, mas deixa impressão fortíssima logo de cara: como o protagonista, o público sabe que o mundo é cheio de segredos, e quanto mais se embrenha neles, mais é seduzido pelo inescrutável.

.:. Veludo Azul (Blue Velvet, Estados Unidos, 1986, Suspense). Cotação: A+

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