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As verdades de A Mentira

31/12/2010

Olive, adolescente ruiva e vivaz, não compreende os homens da sua juventude. No colégio que frequenta, os rapazes são porcos chauvinistas ou cristãos fervorosos que participam de grupos de oração e do clube da abstinência. Ela não vê porque se contentar com um tipo ou com outro: cresceu assistindo às comédias dos anos 80 e ainda espera encontrar alguém como Patrick Dempsey em “Namorada de Aluguel”, que invadiu o jardim da menina de quem estava a fim e a levou para um passeio em seu cortador de grama. Pergunta-se por onde andariam, também, os discípulos de Judd Nelson, que encerra “Clube dos Cinco” levantando o punho num ato de triunfo por ter ficado com a mocinha. E, levando a analogia mais a fundo, sonha em protagonizar um número musical sem propósito algum, como o de Matthew Broderick durante o desfile em “Curtindo a Vida Adoidado”. Olive, interpretada pela notável Emma Stone em “A Mentira”, lamenta que John Hughes não tenha dirigido a sua vida, porque do jeito que as coisas estão, ela bem que agradeceria se alguém tomasse o controle da situação.

A mentira do título nacional começou de forma inocente: Olive confirmou para uma amiga que tinha perdido a virgindade num certo final de semana, que ela, na verdade, passara em casa cantarolando a música de um cartão de aniversário. Sua intenção era boa – não queria admitir à amiga que lhe dera um bolo a troco de nada –, mas desencadeia eventos imprevisíveis em proporções inesperadas: a história se alastra em tempo recorde pela escola e Olive adquire, do dia para a noite, a fama de fácil e vulgar, que ela, acostumada à impopularidade e ao ostracismo, passa a apreciar. Ao menos, está ganhando notoriedade por alguma coisa! Daí em diante, o colégio se divide em dois pólos: de um lado, há a seita dos religiosos, liderada pela personagem de Amanda Bynes, que tenta salvar a alma de Olive da perdição (e, na ineficiência desse plano, enxotá-la de lá para que não contamine as pessoas de bem com a imoralidade); de outro, estão os nerds tímidos e neurastênicos demais para conseguir um encontro real, que incentivam a reputação da garota na esperança de afirmar que também dormiram com ela.

Nos meses que se seguem, Olive reina absoluta: se todos a tomam por meretriz, pois então ela será a melhor meretriz que já existiu! Quando alguém faz um comentário maldoso a comparando à heroína do clássico da literatura “A Letra Escarlate”, condenada na comunidade por adultério e forçada a estampar um vergonhoso “A” para definir sua condição, Olive, ao invés de ofendida, toma o conselho a sério: recorta decotes ousados nas blusas antigas, marca-lhes um “A” em vermelho berrante e desfila pelos corredores entre as aulas com orgulho e confiança inabaláveis. Não se trata, porém, de uma apologia à promiscuidade, e não apenas porque o espectador tem consciência de que a garota permanece virgem. O bacana, aqui, é a capacidade de Olive de não se deixar inferiorizar. Ela rebate as tentativas de bullying com indiferença e bom humor, tem a consciência de que o colegial é uma experiência inevitável e passageira e é muitíssimo bem resolvida no núcleo familiar (os pais, interpretados por Stanley Tucci e Patricia Clarkson, estimulam o diálogo aberto e honesto).

Encontrar esse tipo de compreensão e candura numa comédia que poderia descambar para a baixaria é o grande trunfo de “A Mentira”. O recado nunca deixa de ser oportuno, já que são conhecidos os problemas que os alunos americanos enfrentam nas escolas, as sequelas provocadas pela exclusão e o efeito da visão alheia no entendimento do jovem sobre si mesmo. Segundo Olive, passar por isso não é fácil, mas é incontornável, e virar as costas não é opção. Essas experiências a fortificam e, ao invés de destruí-la, ajudam-na a se construir. O roteiro do estreante Bert V. Royal é generoso com a protagonista: absorve na narrativa os momentos favoritos das comédias que ela tanto adora (um deleite para o público que também conhece e aprecia os filmes mencionados), e, como recompensa pelas provações, coloca em seu caminho um rapaz que não é misógino nem xiita. Por desfechos assim, uma mentirinha não faria mal.

.:. A Mentira (Easy A, Estados Unidos, 2010, Comédia). Cotação: B+

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