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O frio e calculista Assassino em Mim

30/12/2010

Certo dia, no início dos anos 50, numa cidadezinha do Texas em que as mulheres são damas e os homens são cavalheiros, Lou Ford (Casey Affleck), assistente do xerife, rapaz de boa índole que os moradores conhecem desde garoto, é encarregado de visitar uma prostituta (Jessica Alba) que se instalou nas redondezas. Deveria convidá-la a se retirar da casa que alugou para receber os clientes e poupar os cidadãos de bem de seu antro de imoralidade. Ao ver a insígnia, porém, a moça se descontrola e dá uns tabefes no oficial. Em resposta, Lou a arrasta até o quarto, deixa-a nua da cintura para baixo, tira o cinto e lhe dá uma surra. É o momento que propulsiona uma relação sadomasoquista entre os dois – ainda que carregada de amor da parte dela –, e o instante em que o espectador de “O Assassino em Mim” tem o primeiro contato com os traços de psicopatia do protagonista.

Lou é um personagem fictício, criado por Jim Thompson para o romance homônimo publicado em 1952, mas seus distúrbios são estruturados à moda dos grandes sociopatas das crônicas policiais americanas. Como tal, mantém seus instintos assassinos tão resguardados que, à superfície, não há um só vestígio de que eles existam. Consegue se camuflar na multidão – mesmo que na multidão limitada de uma comunidade aonde todos sabem seu nome – e, enquanto convence como um bom homem prestes a desposar uma garota de família (Kate Hudson), trama os crimes que irá cometer com a mesma frieza e indiferença com que escolhe uma gravata pela manhã. Ao total, pelo menos seis assassinatos serão conhecidos pelo público no decorrer de “O Assassino em Mim”. Dois breves flashbacks indicam que a raiz desses desvios de comportamento está na infância de Lou, e que há muito para desenterrar, também, de sua adolescência, em anos que antecedem o pontapé inicial do enredo.

O roteiro de John Curran, no entanto, parece supor que uma análise calculista como o próprio personagem é tudo o que o filme precisa para se calcificar. Por um lado, não tenta amenizar seus atos – o diretor Michael Winterbottom, ainda que contido nas cenas de sexo, nem de longe tão gráficas quanto as de seu “9 Canções”, não retém as cores para ilustrar a violência em seu estado mais cru. Mas, um aprofundamento psicológico não implicaria numa racionalização dos crimes que Lou cometeu: compreender as motivações deturpadas dos psicopatas e as linhas tênues que os separam das pessoas comuns é o que os torna tão fascinantes aos olhos leigos. Pintar-lhes um retrato unilateral como faz “O Assassino em Mim” é que é, de fato, desumanizá-los.

.:. O Assassino em Mim (The Killer Inside Me, Estados Unidos / Suécia / Reino Unido / Canadá, 2010, Suspense). Cotação: C+

2 Comentários leave one →
  1. Rafaella Sousa permalink
    03/01/2011 10:16 am

    Falaram tanto desse filme quando ele passou em Sundance e que até a própria Jessica Alba saiu da sala quando o filme foi exibido, que eu fiquei com medo de vê-lo😄

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