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Amadeus: Crepúsculo dos gênios

29/12/2010

Quando se imaginava que o dramaturgo Peter Shaffer não tinha mais nada de interessante a oferecer – ele passara a maior parte dos anos 70 colhendo os louros pelo trabalho em “Equus”, que foi encenado nos palcos londrinos e nova-iorquinos e transposto para o cinema num curto espaço de tempo, sempre com resultado formidável -, eis que ele concebeu “Amadeus”, um espetáculo audacioso que se propunha a desvendar a figura genial e até então imaculada de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791).

Um dos compositores mais conhecidos e celebrados da História, Mozart fora uma criança-prodígio da música, levado pelo pai aos quatro cantos da Europa para se apresentar diante da Realeza. Aos cinco anos, dominava peças elaboradas a ponto de tocá-las com os olhos vendados e conseguia tirar qualquer música “de ouvido” após a primeira audição. Os relatos dessas exibições sobreviveram ao tempo, juntos do imenso acervo de óperas e sinfonias que Mozart comporia em seus breves 35 anos de vida (a morte por falência renal era comum numa época de saúde precária, ainda mais a quem vivia de excessos). Hoje, não há quem não conheça seu legado, ou, no mínimo, que não identifique seus acordes ou saiba assoviar uma e outra melodia. Mas, ser dotado de um talento tão puro e autêntico e crescer com chances de exercitá-lo não é sempre uma combinação feliz: acostumado a ter o ego amaciado, Mozart resultou num rapaz indulgente, convencido da própria sumidade, arrogante a ponto de se julgar superior às convenções sociais e orgulhoso demais para se sujeitar ao que considerava indigno de sua magnitude.

Essa personalidade implosiva que muitas fontes afirmam ser acurada bastaria para um estudo complexo e profundo do homem que ele teria sido, e já se diferenciaria do padrão de biografia que apenas enaltece as conquistas de seu sujeito e ameniza suas porções negativas. Mas, Shaffer foi ainda além: decidiu esboçar uma versão fictícia de eventos que não poderiam ser comprovados ou desmentidos. Trouxe para o centro da ação um compositor com quem Mozart nutria uma mal disfarçada rivalidade, Antonio Salieri (1750-1825), e desenvolveu toda a história da perspectiva dele. Salieri, regrado às normas da corte e de temperamento maleável, vivia nas graças do imperador de Vienna, a quem Mozart, com seus gracejos e extravagâncias, nunca agradou por completo. Salieri não conhecia o brilhantismo: rezava por sopros de inspiração e com muito esforço colocava no papel composições que, na melhor das hipóteses, renderiam operetas medíocres e fadadas ao esquecimento (ainda que amplamente apreciadas pelos fidalgos daquele tempo). Mozart, ao contrário, era notório por ter a música completa na cabeça antes mesmo de aprontar a partitura, e quando a executava em alto e bom som, a inovação e a genialidade só poderiam ser atribuídas ao divino (o público médio, porém, tinha dificuldades em apreciar trabalhos tão diferentes de tudo o que já se tinha ouvido).

Não há fundamento para a teoria de que Salieri, corroído pela inveja e inconformado com o talento que Deus atribuira a criatura tão insolente, teria orquestrado planos concretos contra Mozart – mas, foi por esse ângulo que Shaffer decidiu trabalhar, munido de toda liberdade criativa e utilizando os recursos indispensáveis da dramaturgia. Transformou Salieri num desses antagonistas memoráveis, que não devem em riqueza e matiz ao protagonista da história – inclusive, Mozart chega a descer um degrau nessa escala, quase reduzido à coadjuvante. É irônico constatar que, como personagens, Mozart e Salieri correspondem à metade do homem perfeito: o primeiro detém o talento com que poucos são agraciados, mas é imaturo, renitente e absorto em si mesmo; o segundo, como compositor, é reles e trivial – e tem consciência disso –, mas é estruturado, responsável e apegado às condutas sociais. A trajetória de ambos foi, em essência, muito parecida, e quando olham um para o outro (ou melhor, quando Salieri olha para Mozart, porque este é empedernido demais para se ocupar um colega que, sabe ele, não está no seu nível), enxergam aquilo que não conseguiram – e jamais conseguirão – ser. Mas, seria impossível co-existir apenas com o que cada qual tem de melhor: a grandeza implica num descontentamento com o que é comum e mundano, e a mediocridade nunca almeja nada além do que é seguro, confortável e conhecido.

A peça de Shaffer cresceu em proporções ainda maiores que “Equus”: foi um sucesso no West End de Londres e na Broadway de Nova York, e pela temporada americana, venceu os principais Tony Awards, o prêmio mais conceituado do teatro. Quando o diretor Milos Forman decidiu levar às telas esse trabalho fantástico, Shaffer assinou a adaptação do próprio texto. Passou quatro meses ponderando com Forman quais personagens poderiam ser adicionados para conferir maior dimensão e textura ao enredo, e quais, por outro lado, poderiam ser condensados. Diretor e roteirista chegaram ao consenso de que expandir Mozart para além da percepção de Salieri era necessário à narrativa, mas nem por isso tiraram o antagonista da função de propulsor da história, que continua sendo movida pelas lembranças tendenciosas de um Salieri à beira da morte num asilo miserável. Por fim, Shaffer e Forman procuraram por soluções visuais e auditivas que exprimissem o estado de espírito dos protagonistas: as sinfonias de Mozart serviram de muletas, tanto para realçar sua idiossincrasia (ouvia música aonde os meros mortais ouviam barulhos), como para assombrar o homem deplorável que Salieri se tornaria, perseguido pelo próprio fracasso e pela última gargalhada triunfante do rival (a risada de Mozart no filme, aliás, se tornaria icônica).

Dessa conjugação de forças singulares surgiu “Amadeus”, uma obra-prima de teor indiscutível, alçada de imediato à condição de grande cinema. Milos Forman teve a inspiração de trabalhar em conjunto com o homem que deu origem a tudo, mas seus acertos não pararam aí. Ele recusou atores que tiveram experiência com os papeis no teatro (até mesmo o vencedor do Tony, Ian McKellen) e escalou, sem referência prévia, F. Murray Abraham como Salieri e o novato Tom Hulce como Mozart. Foi a união perfeita: ambos caíram como uma luva aos personagens, capazes de ilustrar os inúmeros conflitos internos de cada um e de estabelecer um espertíssimo jogo cênico sempre que na companhia um do outro. Tornaram impossível imaginar outros intérpretes na função, como se nenhum outro par no mundo pudesse ter feito trabalho igual ou superior. Abraham, em especial, sustenta um arco dramático repleto de oportunidades: acompanha Salieri de seus anos iniciais na corte até seus delírios finais, já caracterizado sob uma pesada e convincente maquiagem. E nunca está fora do momento. É uma das coisas mais impressionantes que qualquer espectador encontrará num filme – uma performance que briga com qualquer outra pelo posto de melhor de todos os tempos.

Com os protagonistas definidos e uma ideia lúcida de como explorar os sentidos, Forman teve as condições de fazer um trabalho vibrante e, de certa forma, inédito. Nunca antes um filme de época reconstruira não um passado de museu, mas um desfile animado e ruidoso de figurinos, máscaras e perucas. Recorrendo aos cenários originais (um mínimo de sets teve de ser replicado na impossibilidade de filmar em locação), a mise-en-scène de Forman é uma Vienna fabulosa, inquieta e sempre crível. Até mesmo as roupas do teatro de vaudeville foram baseadas em desenhos reais, o que explica porque todas as sequências que se dão no proscênio são de uma tangibilidade incrível. Tudo contribui para que o espectador embarque na experiência, sem que “Amadeus” jamais pareça compensar em quesitos técnicos por qualquer deficiência. Os defeitos, se existem, são imperceptíveis ou irrelevantes num plano geral. Não se trata de muita forma para pouco conteúdo: a balança é equilibradíssima e o filme, uma verdadeira conquista de Forman e de Peter Shaffer. Só mesmo quem tem vislumbres de brilhantismo poderia compreender a essência de quem nasceu iluminado.

.:. Amadeus (Idem, Estados Unidos, 1984, Drama Musical). Cotação: A+

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  1. Isaac permalink
    03/05/2011 2:28 pm

    Perfeito comentário de Louis Vidovix. Realmente Genial. “Só mesmo quem tem vislumbres de brilhantismo poderia compreender a essência de quem nasceu iluminado.”

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