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Uma promessa chamada Guy Ritchie

28/12/2010

Para o público mais interessado na vida íntima dos famosos do que em suas realizações profissionais, o diretor Guy Ritchie era apenas o cônjuge de Madonna que a enfrentou num divórcio nada amistoso nos tribunais após oito anos de um casamento morno. A outra parcela do público – os que privilegiam as conquistas da carreira às fofocas de revista – talvez tenha notado que, nesse meio-tempo, Ritchie passou por um estrangulamento criativo, cujo ápice foi uma refilmagem totalmente sem propósito do italiano “Destino Insólito”, com Madonna no papel principal. O filme foi um fracasso de crítica e bilheteria, basicamente porque, à parte da escalação errônea e nepotista, Ritchie se desligou por completo do estilo de cinema que estava acostumado a fazer: aquele que demonstrara em seu trabalho de estréia, “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”, e em “Snatch – Porcos e Diamantes”, que se tornaria um marco em sua filmografia.

Em ambos, ele realiza um tipo de aventura policial frenética e inovadora, caracterizada por cortes rápidos, narrativa engenhosa e personagens que, apesar de definidos pelo crime e pela violência, nunca deixam de disparar diálogos virtuosos e de realçar a comicidade em situações aflitivas. Para todos os efeitos, o diretor é um discípulo de Quentin Tarantino, o primeiro a ganhar projeção com um exercício nos mesmos parâmetros (embora mais autoindulgente, aprofundado em referências ocultas e em citações à cultura pop). Mas, salvo as comparações, Ritchie deu início a uma corrente própria: as tradições que ele modela são intrínsecas ao cinema inglês, e suas tramas, fechadas em situações extremamente londrinas. Ele desencadearia sua própria tendência dentro desse círculo seleto, apoiado pelo amigo Matthew Vaughn, que antes de alçar vôo solo (dirigiu o recente “Kick-Ass” e já está esboçando uma continuação), assinava as fitas de Ritchie como produtor.

Depois do fiasco da comédia romântica mencionada acima, Ritchie tentaria recuperar a verve com “Revolver” e “Rock n’Rolla”, mas todos pareciam réplicas mal-feitas do que tinha dado certo antes: cada qual, à sua maneira, é pesado, deselegante, estéril e desprovido das ótimas soluções estéticas e das rimas visuais que, previamente, beiraram a perfeição. Enquanto o diretor busca a reinvenção com sua versão amaneirada de “Sherlock Holmes”, o espectador à procura de um bom cinema pode ver e rever “Snatch” para se deleitar com as sacadas inteligentes, gargalhar com as tiradas cômicas e torcer por personagens que, mesmo carrancudos e implosivos, esbanjam empatia. De acordo com as conveniências, podem demonstrar, também, uma surpreendente articulação dos pensamentos e um cinismo delicioso – como na cena que justifica o subtítulo nacional, em que um gângster da jogatina explica que a melhor maneira de desaparecer com um corpo, sem deixar evidências, é cortá-lo em seis pedaços proporcionais e atirar os membros a uma vara de porcos!

Em meio à ação, personagens múltiplos, com ligações claras ou tangenciais entre si, almejam um diamante de 80 quilates, que um viciado em jogos apostou numa mesa de cartas, apesar de pertencer ao seu chefe. A pedra vai passar de lá para cá, e até os que não estão atrás dela – ou nem mesmo desconfiam de sua existência – serão tragados pela confusão. De todo o elenco, Brad Pitt talvez seja o rosto mais conhecido e o que tem a interpretação mais prazerosa: como um cigano pugilista de sotaque ininteligível, ele diverte, convence e comprova que rende mais quando divide a tela em proporções harmônicas com outros atores do que quando assume a responsabilidade de protagonizar um filme. Resta a nós torcer para que não falte a Ritchie a inspiração para roteirizar e dirigir outros projetos igualmente criativos. E que, ao imprimir sua marca autoral, não se limite a ser uma cópia de si mesmo: afinal, o Cinema está aí para ser subvertido, e nem todas as empreitadas são um caso perdido como, digamos, levar Madonna de véu e grinalda para o altar.

.:. Snatch – Porcos e Diamantes (Snatch, Reino Unido, 2000, Thriller). Cotação: A+

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